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Diet

Entramos no taxi.

– Mamãe, esse moço é grande, né?

– Ele é adulto, filho.

– Esse moço adulto é muito grande, mamãe.

– … (como faz?)

– Mamãe, ele deve comer muito, né?

– … (até onde ele vai?)

– Mamãe, ele não gosta se fazer ginástica?

Filhos são um reflexo dos pais. Fiquei pensando o dia todo nas coisas que falo para eles. Coisas do tipo “mamãe vai fazer ginástica para não engordar” ou “não quero comer muito para não engordar”. Foi falha minha.

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Por que branco?

Outro dia vi uma menininha na rua acompanhada de sua babá. Sei que era sua babá porque a moça usava branco da cabeça aos pés. Aí eu saí perguntando: por que as babás usam branco?

Resposta 1: É um uniforme que facilita a identificação, é como um bombeiro ou um policial.

Sim, uniformes facilitam a identificação da pessoa. Quando entro em uma loja, acho bacana quando os vendedores estão uniformizados e é fácil saber com quem falar para tirar dúvidas. Se um prédio está pegando fogo, é fácil saber quem são os bombeiros que devem entrar para socorrer vítimas e apagar o incêndio (além, claro, da própria segurança que as roupas deles trazem para eles). Quando meus filhos vão a alguma excursão da escola, devem ir obrigatoriamente uniformizados, pois se se perderem do grupo será fácil identifica-los. Até aí, concordamos. Minha pergunta é: para que alguém precisa identificar uma babá?

Suponhamos que eu esteja em um parquinho e encontre uma criança perdida. Vou olhar em volta e ver várias babás vestidas de branco e várias mães vestidas com as roupas que puderam escolher pela manhã. Adianta eu devolver para qualquer uma das babás? Adianta eu ter simplesmente identificado quem é babá e quem não é babá uma hora dessas?

Se eu quisesse identificar a babá dos meus filhos por aí, eu pediria a ela que usasse roupas verde-limão com a foto dos dois estampada nas costas, porque aí, sim, eu veria vantagem em alguém identificá-la. E eu deveria fazer o mesmo, para tudo fazer sentido.

Resposta 2: É para evitar que elas usem roupas inadequadas para o trabalho delas.

… já que nenhuma roupa branca pode ser curta, justa ou ter decotes imensos. Sério, gente. Eu também tenho um dress code no meu trabalho. Todo mundo tem. Se eu for hoje trabalhar de shorts e chinelo, meu chefe vai me chamar para um feedback. Existem roupas adequadas e inadequadas para qualquer tipo de trabalho. Neste caso, é só assumir que a babá é adulta e madura (e se você a contratou para cuidar das criaturas mais importantes de sua vida, certamente você contratou alguém adulto e maduro) e ter uma conversa sincera e objetiva sobre a questão das roupas.

Resposta 3: É uma questão de higiene, para garantir a limpeza.

Neste caso, imagino que também seja obrigatório que todas as mamães em tempo integral ou em licença maternidade também usem branco. Vale também para todas as avós, tias, vizinhas ou familiares que tomam conta das crianças. Mas eu nunca vi uma mãe ou uma avó inteiramente de branco cuidando de uma criança. Você não acredita que as roupas da babá estejam limpas a não ser que sejam brancas para dar para ver de longe? Você tem uma pessoa que passa muito tempo com seu filho, muitas vezes sozinha, dando carinho e atenção, e você não pode confiar na limpeza das roupas delas? Sério mesmo?

Resposta 4: Elas são como médicos e enfermeiros, que também usam branco.

… e esterilizam as mãos a cada momento que tocam na criança, e usam luvas, máscaras e protetores para os cabelos. Também nunca se sentam no chão para brincar.

Resposta 5: Foi escolha da babá, ela prefere usar uniforme.

Preferir usar uniforme é uma coisa, usar branco é outra. Entendo que alguém não queira usar suas roupas “pessoais” no trabalho e prefira ter roupas específicas para isto. O uniforme poderia ser algumas camisetas básicas e confortáveis para cuidar de uma criança o dia inteiro, por exemplo.

Mas, considerando que: 1) cuidar de crianças suja as roupas dos adultos (porque é comida para todo lado, é um tal de sentar no chão, de ir no parquinho, de pegar no colo e receber aquelas marquinhas de sapato na roupa) e 2) roupa inteira branca não é um hábito comum (vejo poucas pessoas que não trabalham na área de saúde ou que não sejam babá ou guia espiritual usando só branco), duvido um pouco que alguma babá escolheria por conta própria esse look inteiro branco para trabalhar com crianças.

Minha resposta: não quero criar inimigos. Talvez as coisas estejam tão automáticas que algumas pessoas nem tenham parado para pensar. Mas eu acho que as pessoas pedem que as babás usam branco para diferenciar quem é babá e quem não é.

Eu não sei se o motivo é mostrar para que outros que tem uma babá ou se o motivo é evitar que a babá seja confundida com um membro da família ou uma amiga. Não sei. Só sei que o branco, na minha opinião, só tem função de deixar claro que o adulto X é a babá.

Não me odeiem, por favor, é só uma opinião, tá?

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Livre estooooooooooouuuu

Música de criança gruda na cabeça de adulto de uma forma impressionantemente chata. Eu acho que canto as músicas do Frozen mais vezes por dia que eles. Eles variam entre canções diversas, eu não. Eu canto “Livre estooooooooooooooouuuu” o dia inteiro.

Teve um dia que meu filho pediu para ver Frozen antes de dormir e depois foi fazer outra coisa. Esqueceu. Pus na cama, dei beijinho, apaguei a luz, achando que eu tinha me livrado daquilo por um dia, mas, quando eu estava quase terminando de fechar a porta do quarto, cantarolei baixinho um “Livre estooooooooooooouuuuuuuuuuuu”. “Mamãe, esquecemos do Frozen, volta aqui!” – ele gritou. Não, eu não estava livre nada.

Eu canto no trabalho e deixo a música grudada na cabeça dos culegas. Dia desses, meus filhos saíram para a escola e eu fiquei me arrumando cantando “Livre estoooooooooooooooooouuuuuuu”. Aí achei que estava demais e coloquei músicas de adulto no iPad. Na hora de sair para o trabalho, desliguei o Geraldo Azevedo, fechei a porta de casa, chamei o elevador e cantarolei “Livre estoooooooooooooooooooooouuuuuuuuuuu”. Inferno.

Algum dia eu vou ficar livre disto, meldels?

 

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Eu amo comer fora

Teve um longo período na minha vida em que eu encontrava meus amigos e tomava só cerveja. Só. Tá, no máximo um porção de fritas pra acompanhar, porque o dinheiro não dava pra comer fora. Aí o salário de estagiária começou a permitir lanches e pizzas com a galera. Aí eu fiquei velha e phyna e hoje curto mesmo sair para jantar.

Você escolhe um lugar legal, vai até lá, às vezes até reserva antes. Chega, escolhe uma mesa num lugar aconchegante, recebe a carta de vinhos. Escolhe as bebidas, olha o cardápio com calma enquanto conversa, muitas vezes demora para pedir alguma coisa porque estava batendo papo. Vem o couvert. Daí você pede uma entrada e espera calmamente ela chegar. E saboreia. E depois de mais papo, escolhe o prato principal. Ele demora, você conversa, bebe, conversa mais. O prato chega, você come com calma, comenta os ingredientes, aprecia. Depois vem sobremesa, depois café, depois vem a conta e nessa hora eu vou ao banheiro para não ter que dividir.

E um belo dia você vira mãe e o mundo desmorona.

Na última vez que fomos a um restaurante, tínhamos passado a manhã na praia e já passava das 14h. Ou seja, eu tinha duas crianças com fome e sono. Entramos e eu escolhi uma mesa. Com um em cada uma das minha mãos, olhei rapidamente para todos os lados e visualizei os cadeirões. Pedi ao garçom para trazer bem rápido e colocar um ao lado do outro, enquanto eu afastava dos lugares das crianças todos os pratos, talheres, jogos americanos, temperos, guardanapos. Coloquei os dois sentados bem rápido, para não terem tempo de fugir. Dei umas 3 broncas do tipo “não mexe aí” e “não balança a mesa” e o cardápio chegou. Pedi três sucos, os deles em copos menores e com canudos e o prato mais ágil que eles tinham. Pedi para meus filhos não gritarem e não falarem com o casal da mesa ao lado que não demonstrou vontade de interação social. Os sucos chegaram e não deixei o garçom colocar na frente deles, pus tudo bem perto de mim. Antes de deixar tomar suco, lembrei bem que deviam tomar cuidado para não derrubar. Eles começaram a tomar e eu fiquei tensa, atenta, pronta para agir caso visse um copo virando. A comida demorou uma eternidade e eles perguntaram se estava chegando a cada 30 segundos. Quando a comida chegou, eu me levantei e mandei pro garçom um “deixa que eu sirvo”. Cortei o peixe, servi o arroz, entreguei para o primeiro. Fiz o mesmo para o segundo. Me servi e sentei. Levantei, corri para a mesa do lado e peguei a pimenta – eu tinha que comer rápido e terminar junto com eles, então não podia esperar o garçom voltar. Engoli a comida, enquanto limpava bocas, mesas e mãos. Pedi 64 vezes para não colocar a mão na comida. Dei mais suco, fiquei brava com a sujeira e com a bagunça. Pedi a conta e pedi para trazer a maquininha do cartão junto. Paguei e quase chorei quando minha filha pediu para fazer cocô. Saí correndo do restaurante.

Quer visualizar melhor? Olha isso aqui.

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Seguro de vida

Fiquei doente no final de semana. No sábado à noite, coloquei os dois na cama, me droguei loucamente (dá-lhe anti-gripe e analgésicos) e dormi cedo. No domingo continuei com as drogas, mas a gripe venceu. No final da tarde, quando começou a escurecer, eu deitei no sofá da sala no escuro e fiquei escondida. Os dois estavam brincando no quarto e demoraram para perceber que eu tinha sumido. Do sofá, eu ouvia as conversas, gritinhos, risadas, brigas e barulhos de brinquedos caindo no chão e prometi para mim mesma que eu levantaria somente em casos de risco de morte ou de destruição grave no apartamento. Qualquer outra situação eu ia deixar passar.

Aí eles vieram:

– Mamãe, cadê você?

– Mamãe, você tá dodói?

– Mamãe, faz comida, tô com fome.

Ah, diacho, tem que comer, né?

Eu juro que liguei três vezes para a pizzaria, mas pizzarias aparentemente não abrem no domingo às 18h. Encarei o fogão e eles jantaram. Depois fiquei me perguntando seriamente se seria uma grande negligência colocar os dois para dormir sem banho, porque eu não podia nem pensar em tirar minha calça de moletom e meus chinelos com meia para encarar dois banhos de crianças. Mas eles perguntaram sobre o banho e eu fiquei imaginando eles contando para as tias da escola, para a tia da perua e para os amiguinhos “ontem a mamãe não deu banho” e achei melhor encarar também.

Às 20h eles dormiram, às 20h15 eu fui para cama. Depois do meu banho, juro.

Quando eu era pequena e ficava doente, minha mãe me dizia que preferia ficar doente no meu lugar. Mãe, você é muito legal, mas eu não. Podem me xingar, mas eu prefiro cuidar de criança doente do que estar doente e ter que cuidar de criança, esteja ela doente ou não.

Preciso de um seguro-mãe que envie babá folguista cada vez que eu adoecer, será que existe?

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Abaixo os pirulitos

Toda vez que abro a mochila de meus filhos e encontro lembrancinhas das festinhas de aniversário na escola (i.e., pacotinhos recheados de balas, pirulitos, chicletes, adoçantes e corantes), eu imediatamente transfiro para minha mochila e entrego para minha equipe ficar feliz e adoçada no dia seguinte.

Tudo bem transparente: meus filhos sabem que eu não deixo comer balas, pirulitos e afins e minha equipe sabe que estou dando para eles o que não dou de jeito nenhum para meus pequenos.

É assim que sou mãe e é assim que sou chefe. 😉

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Maternidade e seus comportamentos bipolares

Eu estava no sofá, iPad no colo, passeando pelo Papais Adotantes, dando uma lida na diagonal dos últimos posts e percebi que meus textos alternam entre: 1) textos fofos e amorosos sobre o quanto eu amo meus filhos, 2) textos sobre maternidade em geral (logística, educação, saúde, alimentação) e 3) textos onde deixo bem claro para mim mesma que é muito difícil ter filho, ter gêmeos, ter crianças de 3 anos e etc.

Ser mãe é ser bipolar. Em um mesmo dia, eu passo de um extremo ao outro rapidamente. Uma hora amo demais, sou a pessoa mais feliz do mundo, acho tudo fofo demais, no minuto seguinte fico brava, fico com raiva e fico me perguntando “por quê?, por quê?, por quê?”. Pareço louca. Exemplo do que estou falando, abaixo.

Era um domingo e eu acordei com dor de garganta. Eu já estava um pouco mal no sábado à noite, mas eles já tinham ido para a cama e eu não podia largar os dois sozinhos para ir até a farmácia, e não tinha um único comprimido em casa. No domingo, achei melhor começar a me drogar loucamente, porque mãe doente é caos na Terra. Eles estavam brincando e perguntei se queriam ir comigo até a farmácia.

– Obaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Vamos colocar sapatoooooooooooooooo!

Lá fomos nós três, a pé, porque não temos carro. Fomos conversando, curtindo o dia e eu pensando como é legar ter companhia, ter gente que vai comigo na farmácia quando estou doente, que topa andar 1 Km para ir, outro Km para voltar numa boa, que me ama e coisa e tal. Tudo muito lindo. Quando cheguei na porta da farmácia, expliquei as duas regras:

– Não pode mexer me nada. Tem que ficar perto da mamãe. Só vou comprar uma caixa de comprimidos, pagar e vamos embora, ok?

– Ok.

Nada. Foi mais forte que eles. Eu sei que eles entenderam que não podiam mexer me nada, eu sei. Eu sei também que ver muitas caixinhas, potinhos e saquinhos em cores, formatos e texturas diferentes é fascinante. Eles não conseguiam não mexer em nada. Eles têm quatro mãos. Eles pegaram tudo, mexeram em tudo, apertaram tudo. Levaram bronca, pararam por 3 segundos e pegaram outra coisa. Eu me perguntei se seria presa se sacasse uma fralda de pano da mochila e amarrasse as mãos deles naquele negócio que confere se vamos sair da loja sem pagar, só para eu poder pegar um comprimido e irmos embora. Fiquei com medo de eles derrubarem o negócio, não era muito firme. Eu também não tinha uma fralda de pano, senão teria arriscado. Tentei segurar as quatro mãos deles com uma mão minha, mas não dei conta. Comprei quatro caixas de comprimidos, porque achei que assim ocuparia as quatro mãos, mas não adiantou, porque eles seguraram minhas quatro caixas entre os braços e o peito e continuaram a mexer em tudo. Foi insuportável. Cinco minutos que duraram uma eternidade.

No caminho de volta, eu estava muito irritada. Eu fiquei me perguntando por que catso eles não conseguem obedecer duas instruções simples, quando sei que eles já são bem capazes de entender o que estou falando. Fiquei me perguntando como pode ser tão difícil fazer coisas tão simples com gêmeos de 3 anos, como ir até a farmácia comprar um comprimido. Me arrependi profundamente da ideia que tive, fiquei achando que era melhor ter esperado até segunda, porque eu jamais deveria ter saído de casa com dois monstrinhos.

Depois cheguei em casa e passou, esqueci.

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Preciso de ajuda (ou como eu virei uma mãe com duas babás)

Trombei umas duas ou três vezes com esse texto nas redes sociais e vou copiar um pedaço.

“Nasce um bebê no Xingu. Todas as mulheres da oca se mobilizam. A mãe está cercada de cuidados e apoio. Nasce um bebê no sertão das Minas Gerais. A avó, a bisavó, as tias, a prima cercam a mãe de cuidados. Nasce um bebê numa aldeia africana. Numa tribo em Maui. Numa cidadezinha no interior da Tailândia ou da Polônia ou da Inglaterra – a cena se repete. Na favela da Zona Norte, as vizinhas e a tia que mora na laje de cima se encarregam de ajudar. E nas mansões dos jardins? Não são mais a avó e as vizinhas, mas as duas babás, a enfermeira, a faxineira, o motorista e o segurança.

Nasce um bebê em Copacabana, no apartamento 1104. A avó está trabalhando em tempo integral. O pai só tem cinco dias de licença. A vizinha do 1103 não só não ajuda, como sequer conhece, e ainda reclama do choro noturno. E a empregada diz que só ganha pra cuidar da casa. Ajudar à noite, nem pensar.

E aí temos esse fascinante fenômeno social: a única mulher do planeta que é deixada pra cuidar de um bebê sem nenhuma ajuda é a da classe media, urbana, ocidental. Pior: ela achava que ia conseguir…”

É, pois é. Não moro em mansão nos jardins nem em Copacabana, mas a cena é esta por aqui. Minha mãe trabalha em tempo integral, e eu me orgulho disso. Meu pai e minha madrasta também trabalham em tempo integral – também motivo de orgulho – e têm uma filha de 12 anos que demanda cuidados que, como mãe, conheço bem. Minha irmã uma vez me disse que não é obrigação dela cuidar dos filhos dos outros – o que até entendo, não é mesmo. A madrinha deles tem uma filha de 6 anos, que também demanda bastante. Minha vó tem 94 anos, não dá conta de duas crianças pequenas. E por aí vai. E, para ser justa, eu também não sei o quanto estava a fim de ver alguém da minha família frequentemente dentro da minha casa.

E eu achei que eu ia dar conta. Eu, a escola e nada mais, porque qualquer outra coisa seria sinônimo de fracasso. Eu nunca lamentei porque não tenho ajuda frequente de nenhum familiar, pelo contrário. Eu também acreditava no “quis ter filho? agora assume!”.

Durante minha licença maternidade, eu escolhi não ter uma babá. Na época, eu mal tinha ajuda em casa, apenas uma moça que ia duas vezes por semana. Ou seja, além de cuidar dos dois o dia inteirinho, eu ainda tinha roupas e louças para lavar e coisas para arrumar, porque ela não dava conta de cuidar de uma casa com quatro pessoas – sendo que três delas ficavam ali o dia todo – em apenas dois dias. Depois voltei a trabalhar, eles foram para a escola, a casa não ficava mais em estado de calamidade pública durante a semana e eu achei que tudo na vida estava resolvido. Me enganei. Eu precisei procurar uma pessoa para me ajudar com eles todos os dias, porque buscar na escola todo dia às 19h era humanamente impossível para mim. Essa parte da história já contei por aqui. A verdade é que eu resisti muito. Eu achava que qualquer pessoa que tinha uma babá na vida era uma incompetente ou uma folgada. Eu achava que as mães tinham a obrigação de dar conta do recado – senão eram incompetentes – e a querer dar conta do recado – senão eram folgadas. Eu demorei para reconhecer que eu precisava de ajuda e que eu seria muito mais feliz assim.

Sim, eu sou mais feliz com essa escolha. Em 80% dos dias, chego em casa às 19h, dispenso a babá e cuido dos meus filhos como sempre quis fazer. Mas tem os dias do trânsito, do vôo atrasado, da reunião que demorou um pouco mais, e ela está lá em casa com eles me esperando. Eu nunca mais voltei para casa chorando porque estava atrasada.

Aí um belo dia eu marquei uma consulta em um médico para os dois e pedi que ela fosse comigo. Era no horário de trabalho dela e achei que pudesse ser bom. Não foi só bom. Foi simplesmente a coisa mais sensacional desse mundo, gente. Imagina como era minha vida antes disso, vamos lá: durante a licença maternidade, não tinha escola onde deixar. Ou seja, cada vez que um tinha médico, eu tinha que levar os dois. Alguém presta atenção em alguma outra coisa quando se está encarregada de manter dois bebês vivos? Alguém? Me ensinem como, por favor. Mesmo depois que eles foram para a escola e eu comecei a levar um de cada vez no médico, eu não conseguia prestar atenção. Eles correm, mexem em tudo, querem participar da conversa, querem falar sobre outra coisa, querem brincar com as coisas que estão em cima da mesa. A cena mais comum na minha vida até então era: um médico sentado tentando me explicar a consulta, uma criança correndo e mexendo em tudo e eu em pé no meio do consultório me revezando entre prestar atenção (10% do tempo) e ver o que a criança está fazendo (90%). Nesse dia, eu descobri a maravilha que é sentar na cadeira em frente ao médico e ouvir o que ele está perguntando. Responder o que ele está perguntando. Entender o que ele está explicando. Fazer perguntas sobre o que ele me explicou. Chegar em casa sabendo exatamente o que tenho que fazer com meus filhos. Fazer jus a todos os centavos que pago pelas consultas médicas, basicamente. É lindo.

Aí aconteceu mais uma coisa: o Carnaval 2014. Já contei também: mãe sozinha, duas crianças sem escola durante 5 dias. Eu tinha que preparar todas as refeições deles e a cozinha virava o caos; eles dormiam e eu ia limpar tudo, para ter louças limpas para o dia seguinte. Implorei para meu pai ficar um pouco com eles, mas minha madrasta ficou super doente naqueles dias. Implorei para minha mãe ficar um pouco com eles, nós fomos passear juntos, mas não foi suficiente para meu cansaço físico se resolver. Eu não dei conta. Ponto. No final de semana seguinte, eles foram para a casa do pai e eu fiquei 48 horas deitada, me recuperando de uma gripe gigantesca, repetindo para mim mesma: “não tem problema não dar conta, não tem problema não dar conta, você não é obrigada a dar conta”.

No final de semana em que ficariam comigo novamente, eu chamei a moça que trabalhou em casa durante o ano de 2013 para me dar uma força. Perguntei se ela toparia fazer um bico e ela veio, porque fiquei em pânico de ficar sozinha de novo e surtar, confesso. Queria um apoio moral e alguém que olhasse os dois para eu poder fazer xixi. Desde então, ela vem quase todo sábado e me ajuda muito. Porque sábado à noite era momento de pensamentos suicidas, tá? Eles iam para cama cedo e eu encarava uma cozinha de deusmelivre para termos espaço para o café da manhã no dia seguinte. Eles dormiam tranquilamente em seus quartos e eu jantava sozinha, porque não podia sair e deixar os dois sozinhos no apartamento. A folguista vem no sábado no final do dia e me ajuda nessas duas coisas: ela dá um tapa na cozinha para mim depois que eles jantam e fica aqui no apartamento para eu poder jantar fora depois que coloco os dois para dormir.

Há pouco tempo atrás, se eu lesse esse meu depoimento acima, eu ia julgar essa mãe, ia achar que ela é incompetente, folgada e dondoca (tinha essa também, babá era coisa de dondoca). Eu ia mandar um “onde já se viu levar a babá no médico?” ou um “onde já se viu babá no sábado?”. Hoje essa mãe sou eu: que realmente nem sempre dá conta do recado sozinha, que reconheceu que precisa de ajuda e que teve que apertar o orçamento do lar para ter ajuda.

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Há dois anos

Há dois anos, Isaac e Ruth me escolheram para ser mãe e vieram morar junto comigo. Nesse dia eu deixei de ser uma pessoa sem filhos e virei mãe. Eu morri e renasci nesse dia. Morri, porque nunca mais vou ser quem eu era. Renasci, porque ganhei uma nova vida e tive que reaprender a viver.

Eu era egoísta, no sentido mais literal da palavra. Eu era a pessoa mais importante da minha vida. Tudo que eu fazia era para ME sentir bem: saía quando eu quisesse e para onde eu quisesse, trabalhava até a hora que achava conveniente, gastava dinheiro com as coisas que me deixavam (ou eu achava que) me faziam feliz. Tinha liberdade para ir e vir. Organizava minha rotina do jeito que achava mais bacana para mim mesma: a hora de ir na academia, a hora de sair para ir ao trabalho, a hora de voltar para casa, a hora de comer (ou não comer), a hora de acordar. Queria ser diretora, depois VP, depois CEO de empresa, porque estava na hora de investir na carreira.

Como mãe, eu me preciso me adaptar o tempo todo em minha própria vida. Eu quero que eles estejam felizes, que tenham todas as coisas que precisam, que tenham saúde, que sejam educados, que brinquem bastante. Eles têm seus horários para acordar, dormir, comer, ir para escola, voltar da escola e eu preciso respeitar. Monto meus horários só depois de organizar as coisas que eles vão fazer. Só tomo banho, janto, volto a trabalhar ou vou fazer qualquer coisa que gosto de fazer quando eles vão dormir. É difícil encontrar tempo para malhar. Se acontece qualquer coisa inesperada com eles (um dodói, uma ligação na escola, algum comportamento diferente) paro tudo o que estou fazendo para atendê-los. Saio do trabalho todos os dias apressada, porque quero chegar em casa o mais rápido possível para ficar com os dois. Depois fico em casa de vigia, zelando o sono deles. Acordo todo dia no mesmo horário porque eles têm hora certa para ir para a escola. Não posso aceitar convites para um HH depois do trabalho, porque meus filhos me esperam em casa. Por que você não os deixa dormir com a babá? Porque sou eu quem os coloca todos os dias na cama, não abro mão, faço questão.

Como mãe, mudei o jeito como encaro minha carreira. Hoje sou diretora, por acaso, mas o mais importante hoje é realmente me divertir no trabalho, senão não vale a pena passar o dia todo longe deles. Não faço coisa chata e sem sentido, não fico até tarde no escritório e não perco tempo com cafés demorados ou bobagens na internet porque preciso ser muito produtiva nas (só e somente só) 8 ou 9 horas que tenho por lá.

Passei a ter mais medo. Tenho medo de morrer e deixá-los sem mamãe. Tenho medo de que não sejam felizes, tenho medo de errar na educação, tenho medo de não ser boa mãe.

Quando virei mãe, ganhei muito mais amor. O meu e o deles. Aprendi a ter família, a pensar sempre em três, a chegar em casa e encontrar luzes acesas, bagunça e amor. Aprendi a ter pessoas dependendo de mim, precisando de mim, me querendo por perto e a achar isso muito legal. Aprendi a amar, a me dedicar, a cuidar de alguém.

Nunca mais serei só eu. Eu sou três. Ruri + Isaac + Ruth.

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