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TV?

Andei lendo muitos textos falando sobre os malefícios do excesso da televisão no desenvolvimento das crianças, sobre como reduzir o tempo de exposição das crianças à televisão, sobre dicas de atividades que os pais podem fazer para entreter seus pequenos enquanto a televisão fica desligada, e sobre o quão difícil esse processo de desconexão da televisão deve ser.

Gente.

Na nossa casa não tem televisão. Minto, vai. Tenho dois aparelhos de televisão. Um deles está no meu quarto e fora da tomada há meses, porque precisei do adaptador para outra coisa e nunca mais a liguei de volta. O outro está na sala enfeitando a estante e é usado uma vez por mês quando resolvo alugar um filme. Não vou negar que até gosto de algumas séries americanas, mas faz muito tempo que não vicio em nada. Então, hoje em dia, posso afirmar que na nossa casa não tem televisão.

É muito simples. É só não ligar. Meus filhos nem sabem quais são os canais infantis que temos no pacote de TV a cabo, que só mantenho porque era mais barato assinar um combo que assinar apenas a internet. Como não sabem o que existe e não conhecem a possibilidade de me pedir para ligar a televisão, eles nunca me pedem para ligar a televisão. Assistir televisão não é uma opção que eles conheçam. É claro que eles sabem o que é televisão, porque em geral ela está ligada na casa da vovó, do vovô, da bisavó. Ela só não é uma opção para passar o tempo enquanto estamos em casa.

Tá, já passamos por uma fase Galinha Pintadinha quando eles eram mais novos. Acho que ela já ficou ultrapassada, tadinha. Depois dela, nunca mais apareceram com ídolos em casa. Eu sei que eles conhecem os personagens dos desenhos, mas nunca mais tivemos programas de crianças na nossa televisão desde a aposentadoria da galinha em meados de 2013.

Tem suas desvantagens, né? Eu não consigo colocar um filme para eles e achar que eles vão ficar bem concentrados na sala me dando um pouco de paz. Não dura 5 minutos. Eu nunca arrisquei ir ao cinema, porque já consigo me imaginar passando vergonha.

Mas tem muito mais vantagens, vai? Quando estamos em casa, estamos sempre interagindo com alguma coisa: ou estamos brincando, ou estamos conversando, ou eles estão me ajudando (ou tentando me ajudar) com alguma coisa, ou eles estão brigando (o que não deixa de ser uma interação), ou eles estão entretidos com algum brinquedo de montar, de encaixar, de brincar de faz-de-conta. O que importa é que eles sempre sabem o que fazer para se distrair e se divertir.

E eles simplesmente não são impactados por nenhum tipo de publicidade infantil. Perto do aniversário de três anos, um colega me perguntou o que eles pediram de presente. Nada. Acho que eles nem sabem as opções que existem por aí.

E não é um super esforço. É só um hábito que temos. Somos assim, alienados mesmo.

Vida sem carro

No dia em que completei 18 anos, fiz o exame psicotécnico para tirar carta. Tinha ido na auto-escola uns dias antes para não perder tempo.

Disputava o carro com minha mãe e com minha irmã durante a faculdade.

Assim que me formei e passei a ter salário, comprei meu primeiro carro. Achava que seria impossível ter uma vida profissional sem carro. Também achava que seria impossível ir morar sozinha sem carro. Morar sozinha era meu maior sonho, mas a primeira coisa que providenciei na vida foi um carro.

Até ter filhos, fiquei casada por quatro anos e tínhamos dois carros. Uma casa, duas pessoas, dois carros.

Durante uns três anos, meu escritório ficava a uns dois quilômetros do escritório do marido. Mas eu ia com meu carro e o deixava parado na garagem o dia inteirinho.

Eu era do tipo que ia na padaria de carro. Achava impossível viver sem carro. Lembro de uma vez que uma colega de trabalho européia que estava chegando ao Brasil me perguntou se ela deveria pensar em comprar um carro e eu respondi que “claro que sim, né? Como é que alguém vive em São Paulo sem carro. Impossível.”

Deixar o carro uns dias na revisão era um sufoco. Achava que não dava para ir trabalhar, que ia morrer de fome sem conseguir comprar comida, que ia precisar ir correndo para o hospital e que não teria como chegar lá. Nos dias de rodízio, eu saía de casa para trabalhar às 10h e só voltava depois das 20h, porque meus horários precisavam se adequar aos horários do meu carro.

Soma-se a tudo isso uma pessoa que detesta dirigir. Quanta babaquice na vida, hein?

Aí bateram no meu carro no mês passado e eu me libertei.

Contratei a perua para os bebês. Comprei um bilhete único para mim. Troquei os saltos por sapatilhas, a mochila de rodinhas por uma mochila de colocar nas costas. Comecei a usar o e-commerce do supermercado e recomendo inclusive para aqueles que têm carro: nada mais lindo que sua lista de compras sair do computador diretamente para os armários de sua casa. Nesse meio tempo, minha filha me premiou com duas crises de dor de ouvido e tivemos que correr para o hospital. De taxi, tranquilamente, sem problema algum. Num outro dia, precisei fazer várias coisas em vários lugares com eles e aluguei um carro. No mais, andamos a pé ou de transporte público, e às vezes pegamos uma carona.

E descobri que sou mais feliz assim.

É mais saudável, porque ando muito durante o dia. É mais sustentável, porque não poluo o ar. É mais barato. É menos estressante, porque não pego trânsito e o tempo para chegar em casa é totalmente previsível. É mais livre. É bem melhor.

E meus bebês estão aprendendo um monte de coisas. Estão aprendendo a andar na rua, a atravessar a rua, a tomar cuidado com os carros. Estão aprendendo a esperar o ônibus certo no ponto e a ter paciência e esperar a nossa vez de entrar. Estão aprendendo que temos que pagar a passagem e que temos que segurar firme para não cair. Eles não estão mais trancados no ar condicionado do carro, mas estão vendo as pessoas, a rua e como as coisas funcionam. Estão conhecendo o mundo, sabe? Acho mais legal.

PS: não posso deixar de elogiar. Corredores e faixas de ônibus são a coisa mais linda desse mundo. Eu me delicio demais sentadinha no busão que anda a 150 km/h olhando os motoristas dos carros paradinhos no trânsito bem ao meu lado.

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Palmadas, não, pliz

Eu sou contra dar palmadas em crianças para educá-las. Apanhei quando era criança, tanto da minha mãe quanto do meu pai. Não tenho traumas, não tenho raiva disso, também não sei dizer o quanto isso foi bom ou ruim. Ser contra palmadas não tem nada a ver com a forma como fui educada. (mãe, pai, amo vocês, tá?)

Sou contra palmadas simplesmente porque acho que violência não educa ninguém. Violência é medo, opressão. Violência não gera compreensão, assimilação do certo ou errado, nem argumentação, nem nada. Chicotear escravos era legal? Polícia que espanca manifestantes é legal? Pessoas que lincham bandidos (ou pessoas que foram confundidas com bandidos) é legal? Bater na esposa/ namorada/ companheira é legal? Então por que é ok bater nos filhos?

Só é ok porque as pessoas entendem que os filhos são delas e elas podem fazer o que quiser com eles. Mas não vou discutir isso. Vou discutir duas coisas que me incomodam nas palmadas.

Coisa 1:

Com que moral uma mamãe ou um papai que bate em seu filho explica para ele que não pode bater nos amiguinhos/ professora/ irmão/ vizinho ou sei lá mais quem? Como faz para explicar que não pode resolver as coisas no tapa se o próprio pai ou a própria mãe não dá o exemplo?

Coisa 2: (a coisa que mais me incomoda)

Filhos são seres capazes de nos tirar do sério como ninguém. Eu sou mãe e sei bem o nervoso que dá uma criança que insiste em não obedecer. É irritante. Aí no meio desses ataques de raiva que dominam nossos corações, vem aquela vontade de dar um tapão na criança para ver se ela entende o quanto a gente está nervosa com a situação. Aí que mora o perigo: as pessoas batem porque querem aliviar a raiva, e não porque estão querendo educar.

Eu converso muito e penso muito sobre o comportamento dos meus filhos, porque quero encontrar a melhor forma de educar. Penso em quando é melhor ignorar, quando é melhor tirar alguma coisa que eles gostam, quando é melhor colocar no quarto de castigo, qual o melhor momento para ter uma conversa. Nunca passei por uma situação onde pensei: “ah, acho que agora é melhor bater neles porque assim vão aprender que isto é errado”. Duvido que alguém pense e planeje o melhor momento para uma palmada, gente. Palmadas acontecem sem planejamento, no meio da fúria. E no meio da fúria, as pessoas podem bater mais forte do que queriam e mais vezes do que queriam. Dói. Machuca. Ofende. E não educa. E outra coisa: queremos filhos que nos respeitam ou filhos que têm medo da gente?

Crianças precisam ter limites e precisamos ser firmes. Dá um trabalho do cão. Mas somos os adultos, as pessoas mais maduras da relação e precisamos ser equilibrados, coerentes, justos e humanos. Vamos pensar um pouquinho mais antes da palmada? Tem outras alternativas, te juro.

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A missão de educar

Teve uma época em que eles tinham dificuldade ou demoravam para assimilar o que era certo ou errado, o que podia ou não podia fazer, e eu tinha que falar 492 vezes a mesma coisa. Hoje eles já sabem. Hoje eles conhecem a maioria das regras, sabem o que esperam deles nas situações cotidianas. Tô falando das coisas simples, claro: não fazer xixi/ cocô na roupa, não falar com a boca cheia, não cuspir, não bater/ morder/ empurrar os amigos, não gritar, não pular no apartamento porque temos vizinhos no andar de baixo que gostam de descansar etc. Eu sei que eles já aprenderam todas essas coisas.

Entramos, então, na fase do vamos-fazer-coisa-errada-de-propósito. Para irritar, para provocar, para chamar atenção, para testar os limites ou a paciência alheia, não sei. Mas entramos nessa fase em que eles sabem que o comportamento não é legal, sabem que vão tomar uma bronca e ficar de castigo, mas fazem assim mesmo. Fazem e avisam que fizeram, rindo, só para testar mais um pouquinho.

Parênteses: deixa eu ser justa com meu filho. A protagonista desse post é minha filha. Mano-do-céu, como minha filha está difícil.

Não fosse só a irritação e o trabalho que dá limpar/ arrumar/ dar bronca/ conversar/ ouvir berros, tem também o medo de estar fazendo tudo errado. Por que olha, é difícil saber exatamente o que fazer. Nunca sei direito o balanço. Quando sou firme, dou castigo ou consigo ignorar a confusão, fico com medo de ter sido dura demais e de ter dado a impressão de que não gosto deles. Quando invisto em uma conversa carinhosa e procuro entender o que está acontecendo, fico com medo de ter sido mole demais e não ter mostrado autoridade. E minha filha vem inventando confusões novas para chamar a atenção, e na hora nunca consigo pensar direito na melhor forma de educar.

Eu sei que é neura. Mas acho que preciso fazer um curso de “como lidar com crianças desobedientes”, módulos básico, intermediário e avançado.

PS: Só para constar: sou contra palmadas, porque tenho certeza que violência não educa. Não gosto de gritar, porque eles me imitam demais – ou seja, aprendem a gritar com os outros quando estão bravos. Se esses itens estiverem no conteúdo programático, o curso não serve.

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Pra tudo tem um jeito

– Como você consegue cuidar de dois bebês de um ano sozinha o dia todo (durante a licença maternidade)?

– Como você consegue conciliar o trabalho em consultoria e dois bebês pequenos em casa?

– Como você consegue assumir um cargo novo em uma empresa nova com dois bebês pequenos?

– Como você consegue ser mãe solteira, trabalhar fora e ter dois filhos pequenos?

– E agora, como você tá conseguindo fazer tudo isso sem carro?

Gente, vou contar quando comecei a achar todos os problemas da vida muito simples: quando fui ao fórum e passei por diversas entrevistas para dizer que eu tava pronta para adotar uma criança. Uma criança só, mas eu aceitaria dois se fossem gêmeos. Gêmeos é mó legal, vai? Casal, então, nem se fala. Aí me ligaram e me perguntaram se eu gostaria de conhecer um casal de gêmeos de um ano e disse que sim. E os trouxe para casa uma semana depois sem mal ter tido tempo de fazer os enxovais direito.

A gente vira mãe e precisa zelar pela saúde, pela educação e pelo desenvolvimento emocional dos filhos. Isso é difícil. Qualquer outra coisa é muito fácil. Trabalhar fora, não ter carro, não ter dinheiro no final do mês, manter a geladeira abastecida, qualquer outra coisa é fichinha.

Essa é uma parte legal demais da maternidade: a gente perde o medo da vida. A gente simplesmente vai lá, resolve as coisas e fica tudo bem.

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De mãos dadas

Estamos sem carro e fui para a festinha de dia das mães na escola de metrô. Na volta, resolvi vir a pé com eles de volta para casa. A noite estava gostosa e é pertinho, pouco mais de 1 km. Sim, tem uma super subida no caminho e tínhamos três mochilas pesadas. Levamos uma meia hora no ritmo deles.

Viemos devagar, um de cada lado de mim, uma mãozinha na minha e a outra puxando a mochila da escola. Conversamos sobre a festa, sobre a lua, sobre os restaurantes e lojas do caminho e sobre os ônibus que passavam ao nosso lado. Fizemos planos para o final de semana. Andamos em silêncio quando eles se sentiram cansados e perceberam o peso das mochilas nos bracinhos, mas não me deixaram ajudar.

Aí eu tô sensível e cheguei em casa com lágrimas nos olhos. Porque é bom demais ter duas mãozinhas segurando minhas mãos e andando ao meu lado. Porque é bom demais ter dois companheirões, que toparam numa boa a caminhada, sem reclamar que não temos carro ou que a mochila estava pesada. Porque é bom demais ser especial na vida deles e ver que eles acham legal demais estar comigo e fazer qualquer coisa comigo.

Ser mãe é o papel mais importante que tenho na vida. Isaac e Ruth, vocês são a minha vida. Obrigada por todos os dias das mães que vocês me dão todos os dias.

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Mamãe frustrada

Meus queridos,

Estou tentando ter essa conversa com vocês quase todos os dias, mas sei que vocês ainda não conseguem entender tudo o que estou falando. Só que eu vou continuar insistindo. Vou falar sobre isso um pouquinho por dia, todos os dias, até vocês conseguirem me entender.

Fato é que está muito difícil fazer qualquer coisa com vocês dois.

Pronto. Falei. Não tá dando.

Tá. Muito. Difícil.

Tô cansada de crianças que choram por qualquer coisinha, de crianças que correm para longe de mim e me obrigam a segurar firme as mãozinhas o tempo todo (só tenho duas mãos, lembram?), de crianças que fazem birra, de crianças que mexem em tudo que está pela frente sem perguntar se pode antes, de crianças que – do nada – resolvem fazer alguma coisa chata só para me irritar (exemplos: ficar em pé na cadeira para comer em pé, assoar o nariz sem papel e vir me mostrar melecas escorrendo por cima da boca, jogar coisas no chão). É chato, tô cansada, tá?

Eu programo um monte de coisas para fazermos juntos no finais de semana porque quero que vocês se divirtam e porque quero levá-los para ver o mundo! Invento um monte de coisas legais para levar vocês dois. E pretendo continuar levando. Mas, filhos, por favor, colaborem com a mamãe? Não tá dando para ficar fazendo um monte de programas que não são legais para mim, não. Eu volto para casa cansada, irritada e arrependida por ter saído com vocês, porque vocês não me obedecem. É muito chato. Tá quase valendo mais a pena passar os dias trancados em casa para não ouvir gritarias e para não ter que correr longas distâncias atrás de seres que não conseguem ficar parados ao meu lado.

O que eu espero de vocês dois, de todo o meu coração:

  • Que eu não tenha que chegar no restaurante e pedir para o garçom tirar todas as coisas de cima da mesa para que vocês não comam sal direto do saleiro, que não amassem todos os guardanapos, que não joguem azeite no cabelo da(o) irmã(o), que não batam o prato de porcelana na mesa. Que eu não tenha que pedir para não falar alto, para não bater talheres na mesa, para não jogar coisas no chão. Basicamente, que vocês não façam com que as pessoas das mesas vizinhas me olhem com cara de “restaurantes não são para crianças”, porque eu detesto fast-food.
  • Que eu consiga soltar a mão de vocês para fazer coisas necessárias, tais como: pegar minha carteira para pagar uma conta, amarrar meu tênis, cumprimentar uma pessoa.
  • Que vocês não chorem/ não façam escândalo na hora de ir embora. Melhor: que não chorem em ocasião alguma que não seja doenças ou machucados.
  • Que vocês não ponham a mão em NADA que não seja de vocês.
  • Que vocês fiquem sentados ao meu lado quando estivermos esperando alguma coisa (de consultas médicas a peças de teatro).

Me ajudem, por favor? Vamos começar a entender que os passeios precisam ser legais para nós três? Vamos começar a entender que eu tô tentando ser legal com vocês dois e tô esperando que vocês sejam legais comigo também? Por favor?

muitos beijos

Mamãe Ruri

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O casamento do meu melhor amigo

O meu melhor amigo vai se casar em um lindo sábado na véspera de dia das mães.

Casamentos não são eventos para crianças. Ou não são eventos especificamente para meus filhos. Ou eu não sei ser a mãe que leva os filhos em casamento sem enlouquecer. Em três bullets, vamos lá:

  • Cerimônia de casamento requer que você fique parado e em silêncio. Você não precisa necessariamente prestar atenção, mas precisa ficar em silêncio necessariamente. Meus filhos não têm essa capacidade. Eu até consigo entendê-los, porque sei que os padres só ficam pedindo para que as pessoas levantem e sentem a cada dois minutos para que ninguém durma, sejamos sinceros.
  • Drinks coloridos e caipirinhas de frutas deixados sobre as mesas da festa são um erro. Eu já os levei em uma festa de casamento e fiquei louca tentando convencê-los que eles não podiam tomar os sucos de frutas nem as bebidas com guarda-chuvinhas lindos.
  • Nesta mesma festa, meu filho foi até a noiva e pediu colo para ela no meio da cerimônia. E ela estava com um tomara-que-caia. Eu não quis ser a louca correndo atrás da criança no vídeo do casamento e resolvi ficar no meu lugar bem quietinha fingindo que o filho não era meu. Deixei ela se virar.

Em resumo, eu os levei em uma festa de casamento e passei a noite toda na função: levei ao banheiro, peguei água, pedi frutas cortadas para o tio da caipirinha, fiz os pratos do jantar dos dois, cortei tudo para eles poderem comer, não jantei porque eles terminaram antes de conseguir fazer o meu prato, fiquei de olho para que não tomassem nenhuma bebida alcoólica, fiquei de olho para que não saíssem pela porta e fugissem pelo estacionamento, fiquei de olho para que não comessem nada do chão e atendi um milhão de outros pedidos aleatórios que eles me fizeram. Fiz cabelo, maquiagem e comprei um vestido novo achando que eu ia ficar sensualizando na pista conversando com os amigos que não via há muito tempo, mas isso não deu tempo. Então eu não pretendo levá-los de novo em casamento por uns bons anos.

A opção que eu teria para não levá-los comigo seria dormir na casa do meu pai. Mas é véspera de dia das mães e eu quero que eles durmam em casa. Quero que eles acordem em casa, que me levem o café da manhã na cama e me entreguem todos os cinco presentes que compraram para mim, sabe? Não vou abrir mão disso.

Aí eu vou dizer uma coisa muito séria: se você tem alguma pessoa querida e disponível que tope ficar dentro da sua casa cuidando de suas crianças (inclui banho, jantar e colocar para dormir), cuide bem dela. Uma amiga tem um pai assim – ele sempre vai até a casa dela quando ela tem algum compromisso à noite. Um amigo tem uma irmã dessas, que coloca a filhinha dele para dormir e espera ele chegar. Tenho vários exemplos que dão inveja. Eu não tive essa sorte. Cuidaria com todo amor e carinho dessa pessoa se ela existisse em minha vida.

Eu tenho uma folguista, é verdade. Mas sair de casa arrumada para uma festa no final da tarde de um sábado e deixá-los sozinhos com uma pessoa com quem eles não têm tanta intimidade está fora de cogitação. Aí eu tenho sensação de abandono e não consigo. Não vai rolar.

Esperei a vida toda para bancar a Julia Roberts no casamento dele, mas não vou conseguir. Que droga. Ser mãe muda mesmo nossas prioridades.

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Sem carro

Bateram no meu carro. Não aconteceu nada comigo, mas aconteceu bastante coisa com o carro. Não foi legal. Quando saí do carro e vi o estrago, fui correndo pegar o celular para pedir ajuda. Não para quem vocês estão pensando. Antes de ligar para o seguro, para o guincho ou para minha mãe, eu liguei para o tio da perua:

– Oi, tio, socorro. Tem como encaixar os dois na perua para ir para escola todo dia de manhã? Tem? Oba. Começam amanhã, ok? Obrigada, tchau!

Ser mãe muda completamente nossas prioridades.

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Férias com crianças

Aposto R$ 50,00 que, se você perguntar para 10 papais ou mamães o que eles indicam para as férias com crianças, 9 irão te recomendar um super hotel com mil piscinas e duzentos monitores para recreação.

Não vou mentir que a ideia de ter monitores animando a galerinha é genial. Eu adoro quando vou a algum lugar e dou de cara com eles: restaurantes que têm monitores, amigos que contratam monitores para cuidar das crianças enquanto os adultos conversam entre si durante uma festa, acho tudo isso o máximo. Também já cheguei a me interessar por um hotel porque eles tinham recreação para as crianças E acesso fácil a algumas trilhas e estradinhas de terra – coisa linda para uma mamãe que curte mountain bike, mas não consegue colocar dois monstrinhos na garupa.

Também concordo que é divertido demais para as crianças um lugar com programação especial para elas, com outras crianças, com monitores 100% dispostos a brincar, correr e cuidar delas. Juntando as mil piscinas, salas de brincar, mato e espaço para correr, eu juro que acredito que elas iriam se divertir imensamente.

O que me incomoda? Simples: oqueque eu faço enquanto elas estão se divertindo, hein?

Ir para um hotel não é exatamente o que eu chamo de “viagem de férias”. É claro que toda viagem de férias tem um hotel. Mas ficar no hotel, dentro do hotel, curtindo o hotel, não é para mim. Hotel para mim é aquele lugar com quarto confortável e café da manhã gostoso, de onde eu saio de manhã para efetivamente curtir a viagem e para onde eu volto no final do dia para descansar. Nem restaurante precisaria ter para me agradar. Piscinas do hotel, quadras do hotel, gincanas e atividades organizadas pelo hotel, a praia bem na frente do hotel, a cinemateca do hotel, para tudo isso eu digo “não, obrigada”. Mas aí não adianta eu deixar meus filhos se divertindo horrores enquanto eu morro de tédio e conto os dias para voltar para casa, né?

Aí aquela pessoa lá em cima que não me indicou um hotel com clubinho provavelmente sugeriu a Disney. Mas não. Filhinhos lindos, já vou avisar desde já: mamãe já foi para Disney uma vez na vida e não volta mais nessa encarnação. Perdoem, tá?

Só um parênteses: além da chatice com os hotéis e a chatice com a Disney, eu não gosto muito de praia. Não gosto de sol e me sinto nãofazendonada se passo o dia na praia fazendo nada. Eu gosto de paisagens bonitas, de trilhas que levam a praias vazias e até acho legal vê-los brincando na areia e na beirinha do mar. Por um dia no máximo. Mais que isso entro no modo “me tirem daqui”.

Tá. Eu sou mãe de duas crianças de 3 anos e sei bem que nem todos os programas são kidfriendly. Sei que, se eu inventar uma longa caminhada, eles vão se cansar, pedir colo e fazer birra. Sei que longas exposições de arte onde devemos ficar em silêncio sem mexer em nada talvez não sejam adequadas. Sei que deslocamentos longos vão deixá-los entediados, e sei bem o que acontece quando eles ficam entediados. Mas também não quero viver achando que existem as férias legais para caramba e as férias onde estou com meus filhos fazendo algum programa de índio em um resort. Não. Férias legais para caramba têm que ser férias onde todos se divertem juntos.

Dito isso, me ajudem: qual a sugestão de vocês para nossas férias?

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