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Adulto que mora com a mãe

Aqui em casa sempre rola um assunto que não sei de onde eles tiraram que é “mamãe, eu vou poder continuar morando com você quando eu for adulto?”. E eu acho cedo pra dizer que meu sonho de consumo é que eles entrem em uma faculdade acabando o colegial e se mudem para uma república, e nao é falta de amor, é um querer bem, que eles tenham o próprio canto, privacidade, responsabilidade, cuidem de uma casa, convivam com roommates etc. Mas é cedo e eu respondo:

– Claro que podem. Mas precisam continuar cuidando da nossa casa junto comigo, e cada vez que crescerem mais um pouquinho vão ganhar novas tarefas aqui, e quando ficarem adultos vamos dividir inclusive o aluguel – porque, né, aí já aproveito para falar sobre essa coisa de divisão de tarefas do lar.

Então as conversas são mais ou menos assim:

– Mamãe, eu vou ficar adulto e continuar morando com você e vou te dar meu dinheiro para você pagar as contas.

– Mamãe, quando eu for adulto e ainda morar com você eu vou cozinhar seu jantar e lavar sua roupa.

Só fofura. 

Mas aí vem ela, a própria:

– Mamãe, quando eu for adulta vou poder morar com você, né?

– Claro, amor.

– E se eu ficar grávida?

PUTAQUEOPARIU, RUTH! 

Mau humor encarnado na mãe

A gente estava saindo pra jantar. Não bastasse eu ter que arrumar duas crianças e me arrumar, eu tenho um cão que complica todo o processo, porque ele tem que passear, tem que ter brinquedos interativos à disposição para não morrer de tédio e destruir a casa, tem que estar calmo para não uivar e matar os vizinhos do coração. Então​ eu tinha pedido para Isaac e Ruth me esperarem no térreo enquanto eu organizava a vida do Ernesto, que não ia junto. Quando chego no térreo, uma moça tinha dado uma bexiga de gás hélio para cada um deles. Socorro.

Moça, você tentou ser legal e não te culpo. Mas eu já estava acumulando um mau humor no dia, porque eu também tinha cochilado no sofá à tarde e acordado toda torta. Eu detestei aquelas bexigas. Entrei no táxi com uma criança de cada lado segurando uma bexiga voadora, e aquelas porcarias de bexiga ficaram batendo na minha cabeça e passando na frente dos meus olhos, e eu odiei profundamente a ideia de dar bexiga pro filho dos outros sem consultar os pais.

Aí eu me lembrei de uma outra vez que dei de louca. Eles tinham acabado de chegar na família, nem andavam ainda, e levei os dois sozinha em um médico. Nessa época, um ia no carrinho, o outro ia no meu colo apoiado em um braço, enquanto eu segurava a mochila e empurrava o carrinho com outro braço (não, carrinho de gêmeos é um trambolho maior ainda, eu usava um só carrinho mesmo). Quando estava saindo da consulta, a médica deu uma bexiga pra cada.

PQP.

Deu as bexigas, mas não deu uma cordinha pra amarrar as bexigas no braço. Eles tinham um ano e derrubavam ou jogavam a bexiga a cada meio segundo. E choravam. E eu lá, criança num braço, mochila no outro, outra criança no carrinho que eu empurrava com o joelho, e os infernos das bexigas que eu ainda tinha que pegar e devolver pra criança chorando. Teve uma hora que, já vendo que o choro era inevitável, eu deixei a fúria tomar conta de mim, estourei as duas bexigas e aguentei os berros – mas pelo menos não tive que correr atrás de mais nenhuma bexiga.

Não fiz isso hoje, mas tive vontade. Juro que só não fiz pois não queria que o motorista me avaliasse mal no aplicativo. #blackmirror

Agora pouco cruzei no feicebuqui com o desabafo de uma mãe que dizia que odeia brincar de boneca e que se sente muito cobrada e culpada por isso. Moça, sinta-se abraçada, e muito. Não só não gosto de boneca, como também odeio massinha, canetinha e areia (além de detestar bexigas as you know). A gente não é menos mãe por isso não. A gente é muito mãe, dá amor, educa, cuida, até faz umas coisas legais, mas não vejo essa necessidade de gostar de tudo só porque sou mãe. Eu escondo canetinha em casa, libero massinha uma vez por ano e olho desesperada para eles brincando na areia pensando que saco vai ser lavar crianças empanadas depois.

E estouro bexigas quando não tem ninguém me avaliando.

Xô, Páscoa

Sou ateia, mas eu gosto de reunir a família e tal. Também gosto de um feriadinho, quem não gosta?

Mas tem duas coisas que me fazem detestar a Páscoa.

Primeiro: o tanto de chocolate que eles ganham. Ai, gente, não gosto, não. Não gosto que eles comam chocolate, é mais forte que eu. Gosto que eles comam couve, mexerica e caqui, sabe? Eu fico regulando, escondendo, é um saco.

Segundo: EU NÃO TENHO MATURIDADE PARA VIVER EM UMA CASA COM TANTO CHOCOLATE. Não tenho controle de mim mesma. E, dado o tanto de home office que faço, vou acabar tendo uma intoxicação com tanto chocolate que tô comendo.

Ano que vem, família querida, não comprem chocolates pra gente não. Não sei lidar e não vou mentir: quem come tudo sou eu, não eles. ❤

Quando um quer, dois brigam

De uns anos pra cá, eu decidi que briga não iria mais fazer parte da minha vida. Significa que, se eu não consigo parar de brigar com alguém, eu saio fora. Paro de falar com a pessoa, termino o relacionamento, peço demissão, encerro contrato, vou pra bem longe.

Mas tem um karma: ser mãe de duas crianças que não param de brigar. Não param, gente. No minuto 1 depois que acordam, estão resistindo para colocar o uniforme. No minuto 2, estão brigando por alguma coisa idiota do tipo “o tênis dele é de amarrar e eu também quero e não tenho e eu odeio ele por isso”.

Affe.

Eu entendo, porque tenho irmã e briguei com ela a vida toda até tipo o mês passado. E eu acho que, para começar uma briga, basta um só querer. Briga é a relação de duas (ou mais) pessoas e tem os sentimentos no meio, então não acho que quando um não quer, dois não brigam. Eu acho que basta um começar a provocar que a briga vem rapidinho, entre os adultos e as crianças.

Eu só não sei como suportar essa mediação constante de brigas. Eu fugi de toda e qualquer briga na minha vida adulta e não consigo ter sucesso no projeto “acabar com brigas dentro da minha casa”. 

De vez em quando estou paciente e repasso com eles os diálogos que levaram a uma briga, tentando mostrar como ser mais gentil, compreensivo e como não entrar na briga (ou sair dela). De vez em quando não estou paciente e dou uns berros do tipo PAREM DE FALAR UM COM O OUTRO PELOAMOR QUE NÃO AGUENTO MAIS VOCÊS BRIGANDO. Aí tem vezes que apelo mesmo e nem deixo a briga começar: coloco cada um no seu quarto pra brincar sozinho e nem deixo cruzar com o outro para nem dar chance (porque juro que nenhuma brincadeira amigável dura mais de três minutos).

E as brigas são tão bestas que até perco a razão de viver. Ontem eles brigaram para ver quem ia ficar com a caixa de papelão da próxima encomenda que eu receber. Eu não tinha recebido nada ontem, então não sei como eles conseguiram entrar nessa briga. Não sei nem como arranjar paciência para mediar e resolver uma briga hipotética tipo essa. Isaac, Ruth, eu vou jogar vocês dois no lixo reciclável junto com a caixa se isso efetivamente virar briga no dia em que chegar algo pelos correios. Juro.

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Para Ruth

Ruth,

No seu aniversário de seis anos, entrei em uma loja e comprei um monte de roupinhas fofas tamanho 10. Agora vou ter que trocar metade porque ficou pequeno.

Meu. Em respeito a sua mãe que tem 1,56 m, dá pra ir devagar neste crescimento desenfreado? Tá loco.

Mas também queria te dizer mais uma vez o quanto você foi fofa. No seu aniversário de seis anos, mamãe não fez festa como sempre fizemos, porque combinamos um passeio e uma viagem. Mas aí você acordou para fazer xixi dois dias depois do seu aniversário e encontrou uma festa no apartamento para a qual não tinha sido convidada (sou dessas mães que põem as crianças na cama, abrem um espumante e servem um jantar para 4 pessoas). E você só me chamou pra te ajudar com o xixi, confirmou quem estava na sala comigo porque tinha reconhecido as vozes (e risadas) e voltou para a cama para dormir lindamente até o dia seguinte. Sem nenhuma crise. Uma fofa.

Feliz aniversário, gatinha!

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Crianças que comem verdinhos

Eu coleciono uma série de cagadas na vida, nem vou listar.

Mas tem uma coisa que fiz certo: eu ensinei meus filhos a comerem bem. Aqui tem criança comendo todo tipo de fruta, verdura, legume e salada, recusando doce, tomando suco e chá sem açúcar, me deixando jogar fora bala e pirulito que ganham em festinha (sou dessas).

Mas hoje a Ruth me deu a prova viva de que me esforcei pra valer. Hoje estávamos comendo um macarrão com molho caseiro, tudo orgânico, uma fofura, e eu mandei uma afirmação modesta:

– Nossa ainda bem que a mamãe só faz comida saudável pra vocês e nunca fez um miojo, né?

Aí a Ruth me respondeu a melhor coisa que ela poderia ter respondido. Ela disse:

Mãe, o que é um miojo?

Muitas palmas para mim (e para o pai deles também) que mantivemos duas crianças longe de miojo durante seis anos de vida. Não é pra qualquer um. Tamo de parabéns. SEIS ANOS E ELES NÃO SABEM O QUE É UM MIOJO! (Isaac também não sabia, tentou responder alguma coisa, mas nem sabia que miojo era de comer)

É nóis!

O que é uma criança

Crianças são seres que te xingam quando você as acorda às 7h para ir para a escola, mas que te acordam às 6h sem nenhuma cerimônia no sábado e no domingo.

Ou tem as tipo Ruth, que reclamou outro dia que eu a acordei 6h30 para ir para a escola, dizendo que estava muito cansada. No dia seguinte, um sábado, eu disse que ela poderia dormir o quanto quisesse e ela acordou 6h35.

Ah, mano.

Conto do meu amor pela Europa

Eu não fiz intercâmbio durante o colégio ou faculdade, não fiz pós-graduação fora, fiz apenas cursos de inglês e francês durante poucos meses na Europa e um projeto de consultoria na África do Sul.

Mas eu tinha essa vontade imensa de morar fora, lá na Europa. Meu passaporte italiano sempre falou mais alto que o brasileiro e eu passei anos pensando em planos para morar na Europa, com meu primeiro marido, com meus filhos, depois com o segundo marido, e nada deu certo.

Eu queria viver em uma cidade com predinhos baixos e varandas fofas, andar de bicicleta sem medo de ser atropelada, falar outra língua, ter um inverno de verdade com neve, não ter tanto medo de violência, essas coisas que nunca experimentei.

Mas aí me vi doente e agradeci com todas as forças o fato de morar na mesma cidade que minha família, que meus amigos e que o pai dos meus filhos. Eu usei e abusei de toda essa rede e não teria sobrevivido sozinha. E criei raízes. Aos 35 anos, depois de 35 anos querendo fugir de São Paulo, criei raízes e decidi que o melhor para nossa vida é viver pertinho do pai, da família e dos amigos.

Mas eu fui lá pra Europa passear, porque é lá também que gosto de passear, e me apaixonei.

Por um europeu.

Que vive na Europa.

Amo muito a vida e todas as suas ironias.

Foi amor à primeira vista, quando eu o vi, eu já sabia que eu ia querer largar tudo e correr pra ele.

Rasguei as raízes, quis comprar outra passagem assim que voltei pra São Paulo e seguir pra lá de volta porque eu tinha que viver um amor europeu.

Mas não.

Porque tenho meus pequenos.

Porque eu só tenho R$ 3,80 pro busão e não posso gastar R$ 3.800 em passagens.

Porque nosso plano continua a ser viver em São Paulo, perto do pai, da família e dos amigos, até que eles sejam adolescentes e possam decidir junto comigo se também querem aproveitar o passaporte italiano que herdaram de mim.

Vou viver em São Paulo com vocês, meus pequenos, mas meu coração agora vive um pouquinho mais praqueles lados. ❤

A gente fala sobre esses planos de viver lá daqui a 10 anos, combinado?

Escrito no comecinho de janeiro de 2017, publicado hoje porque
encontrei nos arquivos antigos e achei fofinho.

A confiança que depositam na gente

Meu melhor amigo compartilha comigo uma imensa falta de habilidade para conduzir a vida. Quando digo vida, digo num sentido bem amplo: a vida amorosa, a vida financeira, a vida profissional, a vida doméstica, tudo é difícil de conduzir direito. E aí a gente estava papeando sobre isso, e no meio da conversa eu mencionei o aniversário de 97 anos da minha avó na semana que vem, e ele disse assim:

– Pqp, Ruri, a velhinha tá aqui fazendo hora extra e não consegue morrer em paz porque você não resolve sua vida nunca.

Pois é. E olha que obatian tá preocupada com minha vida amorosa, mas a vida amorosa tá ótima perto da minha conta bancária. Ainda bem que ela não sabe.

Aí tem a minha mãe, filha desta minha vó. Minha mãe também fica de cabelo em pé com a minha vida, mas a preocupação dela não é a falta de marido. Pelo contrário, na cabeça dela rola um “ainda bem que essa doida tem dois filhos que impedem um outro casamento rápido porque eu tenho certeza que ela vai fazer caca de novo”. Para minha mãe, falta um emprego fixo, uma previdência privada, um imóvel, uma estabilidade financeira, uns bens, umas rendas para garantir o sustento das crianças, um monte de coisa que não tenho.

Aí a gente almoçou, eu estava ouvindo um sermão sobre como conduzir melhor esta vida de deus-me-livre e eu contei a história acima para ela, sobre a obatian estar fazendo hora extra por minha causa. E minha mãe me respondeu o seguinte:

– Eu não. Eu faço questão de morrer na hora em que eu tiver que morrer. O que eu não quero é viver muito e ficar assistindo o desenrolar da sua vida, EU NÃO MEREÇO.

Nada como o amor de nossos pais pra gente seguir firme e forte na vida. Também te amo, mãe. ❤

 

 

Fast forward

– Bom dia, mamãe! Quando você vai chamar alguém (jurei que ela ia dizer “arquiteto”) pra transformar meu quarto em um quarto de adolescente (“adolescente” ela falou)?

– Affff, Ruth, acordou com fast forward? Põe seu uniforme e vai pra escola aprender a ler que depois a gente conversa.