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Túnel do tempo

Acorda cedo, leva crianças na escola, corre 5k (apenas o que cabe no tempo disponível para academia), toma banho, pega três metrôs, um ônibus, trabalha o dia todo, faz todo o percurso de volta, chega na porta da escola.

– Olá, mamãe. Hoje Isaac pegou a cabeça da Ruth e bateu na parede e <outras coisitas mais relacionadas a quebrar regras e não respeitar os educadores>.

– E a Ruth enfiou a mão toda dentro da boca para vomitar de propósito e se sujou inteira.

Aí você anda os poucos metros que separam a escola de casa pensando que, em vez de relaxar e falar amenidades e brincar, você vai ter que conversar sobre não resolver os problemas batendo na irmã ou xingando a professora e sobre que história é essa de vomitar de propósito e ainda vai ter que lavar roupa fedendo vômito. Abre a porta e descobre que seu cachorro derrubou uma fruteira no chão e encontra cacos de vidro em toda cozinha, área de serviço e sala. Não só isso: ele derrubou a fruteira em cima de uma poça de xixi que ele fez no chão, já que ele também tinha comido o tapete higiênico que deveria servir como banheiro. Então você adia a conversa sobre questões da escola para decidir se é melhor varrer cacos de vidro molhados de xixi ou se é melhor passar um pano em xixi cheio de caco de vidro e demora uns 25 minutos para limpar a coisa toda.

Mano.

Tá muito difícil chegar viva aos 35. Meu melhor presente de aniversário este ano seria passar um dia inteiro em 2011, aos 30, bem longe dos 40, sem filhos, sem Temer no governo, sem cacos de vidro no chão da cozinha.

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Todos os dias de mãe 

Isaac e Ruth,

Nesse dia das mães, quero dizer que ser mãe é – mesmo, mesmo, mesmo – a coisa que mais gosto na vida. É também uma das coisas mais difíceis, mais cansativas e mais irritantes, mas vou deixar as reclamações para outro dia. 🙂

Obrigada pelos sorrisos felizes que vocês me dão todos os dias, principalmente quando acordam e quando busco vocês na escola. Eu me sinto querida quando acordo vocês e me sinto perdoada por não ter passado o dia com vocês quando chego na escola. Adoro o sorriso de saudades que vocês abrem depois de algumas horas separados.

Obrigada por me pedirem desculpas quando erram. Eu sempre desculpo vocês mesmo antes de pedirem desculpas, mas gosto da preocupação que vocês têm em garantir que estamos bem. Obrigada também por sempre aceitarem meus pedidos de desculpas quando sou eu que erro. Eu me sinto muito amada quando vocês dizem “tudo bem, mamãe” com sorriso no rosto e realmente me perdoam, sem bicos, sem voltar na discussão depois.

Obrigada por sempre quererem minha companhia. É muito legal saber que sempre preferem ficar comigo e fazer as coisas comigo. Sei que não vai ser assim para sempre, mas quero que saibam o quanto me deixam felizes quando chega a sexta e seus olhinhos brilham porque vamos passar o dia juntos amanhã.

Obrigada por me respeitarem. Obrigada mesmo por todas as vezes que não estava me sentindo bem e vocês toparam ir pra cama cedo para eu cuidar de mim, porque eu sempre sinto que é uma forma que vocês têm de cuidar de mim.

Obrigada pela ajuda para cuidar da nossa casa. Obrigada por arrumarem a cama todos os dias e guardarem os brinquedos. Ruth, obrigada por ter limpado a bagunça que o Ernesto fez na cozinha hoje. Isaac, obrigada por ter limpado a mesa de jantar depois de você ter derrubado um monte de macarrão nela.

Vocês dois são o melhor relacionamento que tenho na vida. Vocês me dão dia das mães todos os dias, porque todos os dias me lembram que me amam, que sou importante e que vocês são minha família. Vocês são a melhor parte de mim.

PS: podem me acordar bem cedo neste domingo, que prometo não mandar ninguém de volta pra cama pra tentar dormir mais um pouco.

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Heroína

Final de sexta-feira santa com chuva, preguiça e silêncio na casa: cachorro dormia, crianças assistiam TV e mamãe fatiava berinjelas para uma lasagna. Até que – malditos orgânicos, que se eu consumisse agrotóxicos talvez estivesse livre dessas coisas – um bichinho de berinjela pula na tábua onde eu estava cortando os legumes.

Tenho um problema sério com seres rastejantes que se locomovem sem pernas. Minhocas, taturanas, lesmas, lagartas, caramujos, cobras, todos eles me fazem gritar como louca, como se eu tivesse visto um monstro, e não consigo parar até alguém me chacoalhar e mandar parar. Isaac já sabia disso. Uma vez estávamos andando numa calçada e demos de frente com uma taturana verde listrada horrorosa e eu gritei, gritei, gritei e só consegui parar quando atravessamos a rua, porque não fui capaz de passar ao lado da taturana. Na volta, ele me segurou com as duas mãos, pediu para eu ficar calma e não gritar, mas não consegui. Gritei e tive que atravessar a rua de novo.

Quando eu comecei a gritar na cozinha na frente do bicho de berinjela, eles vieram os três correndo – crianças e cachorro – e começaram a gritar junto comigo. No meio da gritaria, começo um diálogo com a Ruth, aos berros:

– É UMA TATURANA?

– NÃO!

– ELA QUEIMA?

– NÃO!

– ELA MORDE?

– NÃO!

– ELA VAI MACHUCAR ALGUÉM?

– NÃO!

– ENTÃO POR QUE VOCÊ TÁ GRITANDO?

– NÃO SEI!

Ruth, não sei viver sem você. Não sei viver sem você pegando um guardanapo e colocando o pobre bichinho de 1 (UM) centímetro no lixo e olhando pra mim pensando se devia mesmo se sentir segura com uma mãe dessas. Obrigada, Ruth.

 

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O desafiar e o acolher

Ninguém me desafiou a postar fotos da minha maternidade feliz nas redes sociais. Também nem seria um desafio, pois eu sempre postos muitas e muitas fotos mostrando momentos felizes que me fazem amar ser mãe. Eu, minhas amigas, amigas das amigas, quase todas as mães fazem isso. Não é nenhum desafio postar foto feliz. E, se acha legal fazer isso, faça, é legal fazer.

O desafio é reconhecer que são muitas dores junto com as delícias da maternidade. Muitas, tá? Eu comparo maternidade com a minha academia matinal e com minhas idas à depilação. Dói, a gente sofre, muitas vezes a gente não quer, cansa, às vezes enche o saco, às vezes dói bem mais que na vez anterior, dá vontade de parar no meio, dá vontade de sair correndo, a gente fica se arrependendo de não estar em casa dormindo em vez de estar lá sofrendo. Mas depois o resultado é ótimo, faz bem pra saúde, me deixa feliz, me acho mais bonita e eu volto.

Eu amo ser mãe mas tem vários momentos em que eu desejo não ser mãe. Não tem nada a ver com meus filhos. Mesmo quando eles estão encapetados com o diabo no corpo, eu nunca desejo não ser mãe porque, sei lá, acho que essas coisas fazem parte. Odeio, mas acho que fazem parte. Pra mim é diferente: eu desejo não ser mãe em situações onde eu acho que meu mundo seria bem mais fácil sem eles. Vou contar alguns exemplos recentes (tudo em uma semana só).

  • Essa semana cheguei um dia em casa num calor e num cansaço tremendo e pensei em jantar pipoca com cerveja. Queria um treco bem salgado com algo bem gelado sem muita sujeira na cozinha. Mas eu tive que lidar com arroz, feijão, alho, cebola, temperos, quiabo, farinha de mandioca, <alguma outra coisa que não lembro>, manga cortadinha e suco. Queria não ser mãe neste dia.
  • Estamos sofrendo passando por uma reforma no banheiro da suíte por causa de um vazamento. A obra é no banheiro, mas o pó voa por todo o quarto, então tivemos que desocupar todo o meu quarto (incluindo o que estava no armário, que não é tão vedado assim) e o banheiro para os moços trabalharem. Virou caos, né? Chego em casa com aquela imundice e tem duas crianças espalhando mais ainda o pó. E precisei colocar os dois para dormir no mesmo quarto (já que fui deslocada também) e eles começaram a dormir mais tarde, acordar no meio da noite e levantar mega cedo por motivos de bagunça-com-qualquer-novidade. Queria não ser mãe durante reforma de banheiro.
  • Tinha um trabalho para entregar segunda de manhã e não terminei na sexta-feira até o horário de eles chegarem da escola. Coloquei pra dormir e segui trabalhando sexta à noite, mas não terminei. No final de semana eu tinha que trabalhar e não tinha negócio. É óbvio que eles já conseguem se concentrar para assistir um filme de duas horas, mas não é quando eu quero, é só quando eles querem, e ninguém quis ver filme pra mamãe poder fazer slide. E eles lá naquela energia toda e eu só pensando que ia me f#*$&*$%&$* e trabalhar a madrugada toda depois que eles finalmente dormissem. Queria não ser mãe neste final de semana.
  • Tenho uma aula daqui duas semanas e não acho UM ÚNICO SER VIVO nesta cidade que fique com eles neste dia (na amizade, tá, que eu sei que posso pagar babá folguista mas nos últimos tempos babá folguista custa mais do que eu ganho). Queria não ser mãe no dia da aula.

Enfim. Tô dizendo tudo isso porque é muito triste ler o julgamento que as pessoas fazem a uma mãe que faz um desabafo com relação a maternidade. “Por que não dá seu filho para adoção?”, “na hora do sexo foi bom, né?”, “devia tomar antidepressivo”, “só engravida quem quer”, “você devia saber como evitar um filho”. Gen-te-do-céu. Parem com isso.

A gente precisa aprender a acolher. Uma das coisas que a maternidade me ensina é a acolher, mesmo que no primeiro momento eu ache que o problema do outro é irrelevante. Explico: é muito comum uma das crianças vir chorando na minha direção com um problema que parece bobo (brinquedo quebrou, não acha alguma coisa, o irmão não quer fazer alguma brincadeira). Eu aprendi nestes anos como a mãe a não subestimar a tristeza deles, mesmo que dê vontade de dizer “ah, que bobeira, deixe de ser bobo e vá fazer outra coisa”. Eu entendi que o mundo deles é brincar e que qualquer coisa relacionada a isto que dá errado chateia muito. E que é muito legal da minha parte acolher, ouvir, tentar ajudar a resolver ou ajudar a encontrar alternativas. Eu, no mínimo, dou um abraço.

Então, galera, mesmo que a gente não entenda o quão difícil pode ser um bebê de dois meses (eu, por exemplo, não sei) ou mesmo que a gente tenha achado super simples e fácil ter um recém-nascido, é legal acolher a mãe que está desabafando porque tá difícil pra ela. Ajuda, sabe? A gente não precisa resolver os problemas dos outros. Apenas acolher os problemas dos outros já faz a humanidade ser melhor.

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Conversinhas com Isaac

Em casa:

– Mamãe, o que vamos jantar hoje?

– Arroz e feijão.

Ele atravessou a sala e veio na minha direção para um abraço:

– Obrigado, mamãe. Você é a melhor mãe do mundo porque você faz feijão.

E voltando para onde estava: – Posso colocar bastante farinha de mandioca?

Por isso que nunca comprei um videogame. Porque feijão com farinha de mandioca me fazem a melhor mãe do mundo.

No taxi:

– Tá, já entendi que tenho que obedecer o vovô e a vovó, tomar cuidado na piscina, dormir bonitinho, mamãe.

– Que bom.

– Se eu me comportar direitinho, quando eu chegar em casa você me dá um ABACATE?

Vocês tinham que ver a cara do taxista quando soube que meu filho iria ganhar abacate como prêmio por bom comportamento.

Construção do afeto

Essa história de que a gente já ama a criança mesmo antes de ela chegar é bullshit. Durante a gestação, seja ela biológica ou “do coração”, a gente ama o conceito. A gente quer ter filho, quer ser mãe, quer aumentar a família e fica esperando uma criança para satisfazer os desejos. Não estamos amando uma criança e nem amando a maternidade, estamos amando um sonho, um desejo, uma vontade. Então a(s) criança(s) nasce(m)/ chega(m) e você diz pra ela: “oi, pequeno estranho, então é você que veio realizar meu sonho?”.

Estranho, sim. A criança que chega é bonitinha, fofa, engraçadinha, mas é uma pessoinha estranha, que você não conhece e não faz a menor ideia de como vai ser. Quando meus pequenos estranhos chegaram, eles não me mostraram loucamente o quão lindo é ser mãe. Nada disso. Eles fizeram um cocô fedido (e eu tive que lidar com minha primeira fralda na vida), um deles não me deixou de jeito nenhum escovar os dentes, eles choraram infinitamente sem conseguir me explicar o problema, o outro colocou a mão no vaso de plantas e jogou terra pelo chão da sala toda (e ainda riu quando eu reclamei). Eu também não fiquei tentando mostrar o quão linda é a maternidade: eu fiquei preocupada com a comida que eles iriam comer, com as coisas que não tínhamos em casa e deveríamos ter (tá com febre? kedê termômetro? COMO ASSIM NÃO TEM TERMÔMETRO?), tive nojo de sujar a mão de cocô quando eu ia limpar, fiquei brava com a quantidade de vezes que eles queriam brincar com objetos de decoração em vez de usar os brinquedos, ouvi choro e mais choro sem saber o que fazer.

Porque é isso: ser mãe dá trabalho e não existe manual, nem regra, nem previsão do vai acontecer e tudo o que era fácil na vida (gente, como era fácil apenas fazer jantar e comer antes de ter filhos) começa a virar um inferno processo imenso. Como é que entra amor nessa história toda? Pois é. Não sei.

Eu não sei em que momento comecei a amar tanto. É claro que eu gosto deles desde que chegaram em casa, senão eles não teriam vindo para casa. Sempre gostei muito deles, mas no início o principal sentimento que eu tinha era cuidado. Tinha que cuidar. Tinha que cuidar para que eles não morressem, para que se alimentassem bem, para que não ficassem doentes, para que se recuperassem de doenças, para que não chorassem tanto, para que ficassem felizes, para que aprendessem as coisinhas da idade, para que estivessem limpos, seguros, tranquilos, aquecidos/ fresquinhos, sem fome, sem sede, sem medo etc. etc. etc. Nos meus primeiros meses eu quis desempenhar meu cargo de mãe da melhor forma possível seguindo todo o job description, porque eu tinha sonhado tanto com isso que não poderia ser uma mãe meia boca. Não é que eu estava lá amando. Eu estava lá tentando performar bem e afastando todo e qualquer pensamento do tipo “mano do céu, que foi que eu fiz da minha vida?”.

O afeto veio aos poucos, um pouquinho por dia, até virar esse amor imenso que sinto hoje. Depois de três anos e meio juntos, eu continuo controladora, cuidadora e doida como escrevi acima. Mas hoje não é só isso. Em algum momento eles viraram de verdade a parte mais importante da minha vida. Eles são meus melhores amigos, são as duas pessoinhas que eu conheço melhor nessa vida e são as duas pessoinhas que me conhecem melhor também. Consigo saber o que eles estão sentindo e como vão reagir só de olhar pra eles. Não consigo ficar muito tempo longe deles. Gosto da companhia, do cheirinho, do olhar. Gosto até das bagunças. É claro que existem coisas que não gosto, de verdade, não gosto mesmo: não gosto de ser acordada de madrugada, detesto quando eles falam com a boca cheia de comida e vem aquele monte de pedacinho de comida mastigada na minha cara e na minha roupa (vale também quando escovam os dentes), fico brava quando peço para não fazer alguma coisa e eles ignoraram totalmente e continuam fazendo, não gosto quando ficam bravos comigo e batem porta, me xingam e dizem que não gostam mais de mim. Não gosto de um monte de coisas nessa história toda de maternidade, mas hoje eu sei o que é “amor de mãe”, “amor incondicional”, “maior amor da vida”. Só que só fui experimentar estes sentimentos todos aos poucos, com o tempo, quando o trabalho todo deixou de ser tão dolorido e passei a ver prazer nos cuidados e em ter duas pessoinhas dependendo de mim e me querendo tanto.

Amo meus filhos porque eles são incríveis, eles são as pessoas mais incríveis deste mundo. E amo ser mãe. Não amo ser mãe porque maternidade é uma coisa linda. Maternidade é uma coisa do cão, na verdade. Amo ser mãe porque meus filhos me transformaram em uma versão muito melhor de mim mesma. Sou menos egoísta, menos ambiciosa, menos workaholic, menos consumista, cuido bem mais das minhas atitudes porque quero ser um bom exemplo, me alimento melhor porque não quero que eles consumam bobeiras e me tirei do foco central da minha vida pela primeira vez para dar lugar a outra pessoa.

Ainda bem que essa coisa toda de filho e de ser mãe é pra sempre, é definitivo, não muda, não acaba, faz parte de mim, faz parte deles, porque é bom demais!

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Como sair com crianças

4 horas antes do horário de sair:

– Mamãe, já tá na hora de sair?

3 horas e 45 minutos antes do horário de sair:

– Mamãe, já posso me trocar e colocar o sapato?

3 horas e meia antes do horário de sair:

– Vamos logo, mamãe, não tá na hora?

3 horas e quinze minutos antes do horário de sair:

– Vai, mamãe, eu quero ir logo, vamos logo.

3 horas antes de sair:

– Já tá na hora? Vamos?

<repita este processo a cada 15 minutos durante as próximas três horas>

Na hora de sair:

– ISAAC, JÁ PEDI TRÊS VEZES PRA COLOCAR O SAPATO! NÃO, RUTH, NÃO PODE LIGAR A TV AGORA. ISAAC, QUANDO VOLTARMOS A GENTE PROCURA O DINOSSAURO QUE ESTÁ PERDIDO HÁ MESES. RUTH, POR FAVOR, VAI LOGO FAZER XIXI PRA SAIR. VAMOS, GENTE, ESTAMOS ATRASADOS, VAMOS PERDER O FILME. NÃO, RUTH, AGORA NÃO É HORA DE BRINCAR DE BONECA. RUTH, POR QUE NÃO SE TROCOU AINDA? ISAAAAAAAAC, DEIXA O CACHORRO EM PAZ E VAMOS LOGO PARA O ELEVADOR. VAMOOOOOOOOOS LOOOOGOOOO, DOIS!

$#*&$#*&%*$#&$#$@#@#¨¨&@!

 

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Vamos falar sobre férias

Vou começar o texto contando algumas babaquices que já fiz na minha vida com relação às minhas férias. Sim, férias, aqueles dias lindos em que podemos viajar, dormir até mais tarde, fazer sexo logo depois do almoço, curtir os filhos o dia inteiro, sabem? Então:

  • Eu já vendi 10 dias de férias várias vezes. Sei lá por que cargas d’águas algum dia eu entendi que algum dinheiro (no caso um terço do meu salário) valeria dez dias de descanso. Nos meus últimos meses trabalhando como CLT, eu não teria vendido dez dias de férias nem por cinco salários. Na verdade, uma vez eu até cheguei a perguntar pro RH se a lei permitia de alguma forma comprar mais férias sem ser demitida ou acusada de abandono de emprego. Gêzuiz, que ideia mané essa de vender férias.
  • Eu saí de uma empresa onde trabalhei por quase seis anos e recebi mais de sessenta dias de férias não gozadas. Não sei onde eu estava com a cabeça quando assinei um papel que me dava o direito de aproveitar trinta dias de férias e resolvi ficar lá enfiada no escritório. Fiz isso duas vezes em seis anos, percebem? Por quê, gente?
  • Eu já mudei a data de férias porque um chefe pediu; coisas do tipo “o projeto não pode atrasar” ou “preciso muito de você neste exato período”. Eu já deixei de tirar férias um ano inteirinho porque não deu (mesmo motivos anteriores). Eu já tirei férias exatamente no período que meu chefe autorizou + meu marido na época não conseguiu tirar férias no mesmo período + foi de última hora e tudo estava caro pra viajar = eu fiquei sozinha em casa sem fazer nada uma semana.
  • Eu já caí no conto “é impossível tirar trinta dias corridos” e “piquei” minhas férias em vários pedacinhos.

Não quero dizer que a gente trabalha *apenas* para poder tirar férias remuneradas. Mas férias são um direito e um período necessário para podermos viver melhor e todo mundo deveria sempre gozar as férias que tem direito. Esse verbo é ótimo para se referir às férias, aliás.

Ditas as babaquices e meu conceito de férias, passo para os filhos.

Crianças têm férias escolares em dezembro, janeiro e julho. Sempre foi assim. Com ajuda de familiares e de pais que não ficavam vendendo/ ignorando/ adiando férias, eu sempre aproveitei minhas férias escolares como uma criança deve aproveitar: descansando em casa, viajando, curtindo meus amigos. Mas aí eu virei mãe e virei high user de curso de férias.

Nos dias de hoje existe esta modernidade, curso de férias. Você paga para os filhos poderem frequentar a escola nos meses de janeiro e julho, exatamente nos mesmos horários. É claro que a programação é divertida, com muitas brincadeiras, oficinas e tal, mas eles continuam indo para a escola. Se a escola dos seus filhos não oferece curso de férias, nem se preocupe: existem lugares que não são escolas e que oferecem cursos de férias para os pais poderem trabalhar. E não estou criticando quem oferece curso de férias, acho ótimo que existam estas opções, de verdade mesmo. Estou me criticando por ter usado demais estes serviços até outro dia. Porque tinha outro problema: sempre existe o recesso de Natal e Ano Novo das escolas, uns 15 dias. As crianças ficam em casa e as empresas descontam esses 15 dias das férias se precisarmos ficar junto com elas. Aí sobram só outros 15 dias para distribuir entre os meses de dezembro, janeiro e julho. Como faz? Curso de férias.

Logo que tirei o sabático, passamos mais de metade do mês de julho viajando com as crianças e foi demais. Neste final de ano pela primeira vez na vidinha escolar meus pequenos tiraram mais de um mês de férias e estou mega feliz por ter dado isto para eles. Viajaram com o pai no final do ano e agora estamos curtindo as férias de janeiro em São Paulo, porque o tio está trabalhando. De forma alguma está sendo um tédio, cansativo ou desesperador. Estou adorando, mesmo estando aqui cozinhando almoço e jantar e mantendo a casa em pé. Fizemos vários passeios paulistanos (basicamente museus, parques e cinema) e passamos bastante tempo em casa, assistindo filmes, brincando de massinha, montando quebra-cabeças e usando os brinquedos. Não me preocupei em ocupar bastante a agenda deles ou mantê-los bem cansados. Pelo contrário, deixei os dois à toa bastante tempo, para escolher a brincadeira que quisessem ou para passar mais tempo vendo filmes. Acho que entra na minha definição de férias a liberdade de não fazer nada super programado ou super educativo.

Semana que vem as aulas começam e eu volto a trabalhar direito (porque, sim, até consegui trabalhar mais ou menos com eles em casa – mas foi bem mais ou menos). Estão descansados, relaxados, com baterias recarregadas e bem animados.

Toda criança merece tirar férias, por isso na minha lista de prioridades para me reencontrar na minha carreira incluí “conseguir deixar meus filhos tirarem todas as férias que merecem”.

 

Para aproveitar todos os feriados do ano

– Mamãe, vem logo, que eu e o Isaac fizemos xixi na cama.

Na verdade, estávamos todos em barracas, então nos poucos segundos que levei para sair da minha barraca e abaixar na frente da barraca deles fiquei me perguntando o que poderia ser pior do que lidar com duas crianças, dois sacos de dormir e dois isolantes cheios de xixi. Quando abri o zíper, achei algo pior: duas crianças alagadas dentro de uma barraca.

Choveu muito aquela madrugada, um temporal gigante. Como eu dormi seca e confortável, nem me ocorreu que a barraca deles pudesse alagar. Não foi pouca água. Eles acordaram encharcados, com dedinhos enrugados, e tinha pocinhas de água de chuva no fundo da barraca. Aí eu perguntei:

– Mas ninguém avisou a mamãe que estava molhando tudo?

– Eu avisei, mamãe. Eu disse que estava chovendo.

É, Ruth, verdade. No meio da chuva, você me chamou da sua barraca e me disse “mamãe, está chovendo”. E eu respondi “sim, está chovendo” e você voltou a dormir. Você não me disse especificamente que estava chovendo DENTRO DA BARRACA.

Quando vi aquilo, não tive dúvidas: banho quente nos dois para esquentar e início do processo de desmontar todo acampamento para voltar correndo para São Paulo e passar o resto do feriado embaixo das cobertas chorando. Quando eles perceberam que meu plano era sair correndo dali, ficaram desesperados.

– Não! Não! Não! Vamos secar tudo e ficar aqui!

Eu nem tinha alagado dentro da barraca e só pensava em sair dali. Na verdade, eu preferia ter alagado do que ter dormido confortavelmente enquanto meus filhos estavam mergulhados em água fria. A previsão era sol o dia todo e eles queriam praia. Ficamos. Foi ótimo, tudo secou, dormimos mais uma noite (sem chuva). E na volta para São Paulo, comprei rapidinho uma barraca nova para evitar novos alagamentos. Isaac e Ruth foram mais guerreiros que eu.

Acampar tem perrengues, mas é muito amor.

Eu acampei a primeira vez aos 18 anos com uma amiga de infância e nunca mais parei. Depois que casei pela segunda vez e juntamos as barracas, ou seja, encontrei um parceiro que topou apresentar campings para crianças pequenas, temos acampado cada vez.

Eu sei que nem todo mundo gosta ou tem vontade de experimentar. Sim, é desconfortável, o chão é sempre duro, o pé fica sempre sujo, a barraca é apertada, o sol nasce às 6h e fica um forno dentro da barraca. Mas acho uma experiência fantástica para crianças e acho que super bacana fazer isso por elas.

Em campings acordamos junto com o sol, por causa do calor e da claridade. Principalmente se estiver calor, somos obrigados a sair da barraca imediatamente para não morrermos cozidos. Isso nos faz sair ao ar livre e curtir o ar livre: sol, ventinho na cara, grama. Acordar cedo nos faz aproveitar mais o dia. Como dificilmente dá vontade de entrar na barraca antes do anoitecer, tudo acontece ao ar livre: as refeições, o deitar na grama para ler e descansar, as brincadeiras. Não tem TV, não tem preguiça no sofá. Tem lugar para correr, grama ou areia para brincar, pé descalço o tempo todo.

O fato de termos que nos adaptar a algo não tão confortável como nosso quarto também é um aprendizado para as crianças. Meus filhos têm sacos de dormir e isolantes térmicos e dormem com eles no piso da barraca, assim como nós. Não levo edredons, colchonetes, travesseiros de casa, colchões infláveis, porque se um dia formos fazer uma viagem com camping mais “selvagem” é assim que vai ser. Não é que eu ame dormir no piso duro, mas existem destinos onde a única opção é essa. Recentemente escalamos o Monte Roraima na Venezuela (sem eles) e a única opção eram barracas. Alguém que não tope acampar nunca vai brincar de Mr. Fredricksen e conhecer o Paraíso das Cachoeiras.

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Em geral, não dá para levar supérfluos para o camping. De novo, não quer dizer que eu não goste dessas coisas. Mas não dá para levar equipamentos eletrônicos (porque nem sempre tem tomada e agora aprendi que sempre podemos alagar e perder tudo), maquiagem, todos os cosméticos, um monte de troca de roupas. Na nécessaire, levamos apenas protetor, repelente, xampu, sabonete, pasta e escova de dentes. E aí vemos que tudo bem não secar o cabelo, não usar anti-rugas e não fazer maquiagem, e que as fotos ficam lindas do mesmo jeito.

Além disso, acampar com crianças é praticamente brincar de casinha. Sempre levamos coisas para fazer todas as refeições no próprio camping, o que é mais barato, mais prático porque economizamos todos os processos de comer fora com crianças e mais saudável. Preparamos a comida juntos no fogareiro e usamos uma mesinha desmontável para comer. Eu levo industrializados porque precisamos de coisas práticas, mas nunca sirvo “besteiras” para eles, nem acampando. Levo arroz em saquinhos, feijão/ grão de bico/ lentilha já cozidos em caixinha (já vêm temperados e não têm muitos conservantes), carne vegetal em lata, legumes em lata, spaghetti bem fininho para cozinhar rápido, molho de tomate pronto (escolho sem conservantes e sem glutamato monossódico), pães, frutas, bebidas e petiscos. Uma vez fomos fazer um passeio no parque nacional da Serra da Bocaina e levamos coisas para fazer o almoço porque esperávamos encontrar uma área de picnic por lá. Mas, não. Era proibido comer dentro do parque e não tinha nenhuma mesinha para fazer isso. Como a trilha tinha sido longa e o camping estava longe, resolvemos não matar as crianças de fome: sentamos na grama no estacionamento, preparamos um macarrão ali mesmo e eles comeram segurando pratinho em uma mão e colher na outra. Uma fofura.

E, por fim, é barato. Acabei de fechar um pacote para dois adultos, duas crianças e um cachorro para o próximo feriado de três dias por R$ 220. Nosso plano de viajar todos os feriados do ano leva em conta um monte de campings que queremos conhecer com as crianças. Mesmo que você precise comprar barraca para acampar a primeira vez vai sair mais barato que pagar o hotel (e barraca é um investimento para anos. Essa barraca que alagou viveu mais de 10 anos antes do desastre).

Bora?

Por que um sabático

Sempre achei que “sabático” significava necessariamente pedir demissão e comprar uma passagem só de ida para algum lugar exótico. Morria de inveja de pessoas em seus sabáticos. Muita inveja. Essa definição de sabático não encaixava na minha vida de mãe, então nenhum sabático estava programado pelos próximos 15 anos. Só que algumas coisas estavam acontecendo na minha vida:

  1. Conciliar carreira e maternidade estava impossível e eu achava que não era boa nem em uma coisa, nem em outra. Alguns textos meus sobre este item aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
  2. Aécio
  3. Eu não estava feliz no emprego atual e em determinado momento resolvi partir pro clássico atualizar-CV-e-sair-panfletando-por-aí. Procurar outro emprego significaria ser chamada para entrevistas, onde eu deveria contar o quão linda tinha sido minha carreira até então e o quão entusiasmada eu estava para ocupar um cargo em outra empresa. E aí eu me dei conta que não conseguiria entrar em um papo desses, porque eu não achava minha carreira linda e nem queria outro cargo em nenhuma outra empresa.
  4. Eu não era livre. Eu tinha que dar satisfações sobre o horário que ia chegar no escritório, sobre o horário que ia sair, sobre a hora que ia almoçar, onde eu ia e quanto tempo demoraria para voltar, sobre o motivo de ter desligado o celular ou não ter atendido uma chamada, sobre as reuniões de trabalho que eu tinha no dia, sobre os compromissos que meus filhos tinham em horário comercial etc. “Etc.” aqui significa outras 160 mil coisas sobre as quais eu tinha que dar satisfação para alguém. Eu vivia pedindo desculpas por não ter feito uma coisa ou por ter feito outra.
  5. Fazer doutorado está nos meus planos desde que terminei o mestrado e eu vinha pensando fortemente em fazer fora do país. Um dos requisitos em vários processos seletivos são notas altas no GMAT e no TOEFL e não havia nenhuma chance de encaixar a preparação para os exames naquela vida vulgar que eu levava, então eu comecei a cogitar uma parada de alguns meses na vida executiva para estudar. Só não tinha data para acontecer.
  6. Como eu pensava que em algum momento eu iria me dedicar somente ao GMAT, eu fiz as contas para saber quantos meses eu sobreviveria sem salário, então eu sabia que era financeiramente possível passar alguns meses sem trabalhar.

Sabático não era um plano, não tinha data, nada. Até que um belo dia eu “acordei” do que estava fazendo e me vi na seguinte cena: algumas pessoas em uma sala de reunião, um problema com cliente para resolver, todo mundo nervoso tentando achar culpados. Uma pessoa em pé na minha frente, gritando e gesticulando comigo, em um tom nem um pouco educado. Eu, sentada, em posição de defesa, falando em tom alto, respondendo, também não muito educada. Na hora em que “acordei”, olhei para duas cadeiras vazias na sala e imaginei Isaac e Ruth sentados ali. Quando imaginei os dois vendo aquela cena, imaginei duas carinhas de decepção. Imaginei perguntas assim: por que aquele moço grita tanto com você, mamãe? Por que você fala alto também, por que você não fala baixo e conversa como sempre ensina a gente? Por que você estava tão brava, você estava com raiva? Você não é feliz no trabalho, mamãe? E, por fim, imaginei a Ruth me dizendo: “a gente precisa sempre conversar falando baixo para resolver o problema e pedir desculpas quando grita”. Eu morri de vergonha. Eu nunca queria que meus filhos soubessem como era trabalhar. Aqueles dias em que a gente leva filhos para conhecer o trabalho dos pais é tudo uma farsa (sabem, dia das crianças e Natal?).

Eu pedi para reavaliarmos o tom de voz e o tom da conversa, mas não rolou. Pedi de novo, não rolou de novo. Na verdade, recebi um feedback de que estava me preocupando com questões não-importantes, que o problema do cliente era mais importante que o fato de estarmos ou não estarmos sendo educados um com o outro naquela reunião interna. Aí eu pedi licença, disse que iria para minha casa, que não queria seguir com uma reunião sem educação e que poderíamos continuar no dia seguinte. Saí do escritório às 17h30 pela primeira vez em 12 anos e fui para casa. No dia seguinte pedi demissão e fui viver a vida adoidado (mentira, trabalhei mais uns dias até passar minhas coisas para outras pessoas do time e tal).  Só para deixar claro: eu não pedi demissão por causa de uma reunião ruim. Já tive várias reuniões ruins durante minha vida profissional e aquela reunião foi muito parecida com outras 500 que já fiz. Só que naquele dia eu vi com clareza que eu não estava feliz fazendo o que eu fazia, que minha carreira e minha vida são responsabilidade só minha e que só eu poderia fazer alguma coisa para ser mais feliz.

No dia em que pedi demissão, comprei nossas passagens para Paris. Não ia dar para viajar o mundo, mas eu iria me dar as férias mais legais do mundo junto com meus três amores. Eu não tinha muitos planos para os próximos meses; não sabia o que iria fazer da vida, mas já sabia o que não queria fazer. Usei meus meses de sabático para estudar, conversar com pessoas, pensar na vida, fazer cursos, cuidar da família, ler, escrever.

A sensação de liberdade que tive nesses últimos meses por não ter cobranças, por ser dona do meu tempo e por poder fazer só o que me faz feliz foi tão intensa, tão indescritível e tão necessária que não sei mais viver sem ela. Liberdade é um valor fundamental para mim. Em qualquer coisa que eu decida me envolver daqui para frente, liberdade será essencial. Eu quero ser para sempre dona do meu cérebro (ou seja, eu quero decidir como usar minha cabeça) e do meu tempo.

Hoje já tenho uma boa ideia dos meus próximos passos e do que quero fazer da vida, e já não me considero mais em um sabático. Não tenho um emprego nem renda fixa, mas estou envolvida em tanta coisa que já não dá mais para chamar de sabático, como se fosse um período passageiro. Já é uma nova fase.

Além da liberdade e de fazer questão de ser dona do meu tempo, aprendi outras coisas nesses últimos meses. A mais reveladora: trabalhar dá muita despesa. Eu recebia todos os meses um valor líquido e gastava 100% deste valor, então achei que este era o dinheiro que eu precisaria todos os meses para viver. Gente, sem trabalhar eu gasto metade. Grande parte das despesas que eu tinha existia porque eu trabalhava muitas horas por dia: empregada doméstica, babá, escola por 12 horas, jantar na escola para as crianças, taxi, perua escolar, almoços mega caros (oi, São Paulo e seus singelos almoços de R$ 50-R$ 80), roupas sociais, manicure semanal e, claro, aquele monte de presente de que a gente se dá para compensar o sofrimento todo. Custa caro trabalhar. Sabe aquela conta que diz que só começamos a receber nosso salário em abril, depois de pagarmos todos os impostos? Eu descobri que só começava a ganhar meu salário todo dia depois do almoço, porque trabalhava de manhã apenas para pagar a estrutura que eu tinha para poder trabalhar.

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