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Mas é só de vez em quando

Veio na agenda da escola um comunicado sobre a próxima excursão e lá estava escrito que o almoço das crianças será no McDonalds. Eu achei um horror e minhas colegas-mães se dividiram em dois tipos de opiniões: “também sou contra” e “só de vez em quando não faz mal”.

Sim, só de vez em quando, só essa vezinha não vai matar ninguém. Ninguém vai mudar os hábitos alimentares drasticamente, ninguém vai passar a querer apenas McDonalds todos os dias. É só uma vez no ano. Então, qual o problema com o almoço no McDonalds, Ruri?

Vamos aos conceitos. “Só de vez em quando”, para mim, é aplicado a coisas especiais que não podemos fazer no dia a dia. De vez em quando meus filhos ganham um presente, um brinquedo novo, uma roupa nova. De vez em quando nós vamos viajar. De vez em quando busco os dois na escola logo após o almoço para irmos ao cinema. De vez em quando alugamos um carro e passamos o domingo na praia. De vez em quando tem uma excursão na escola.

Coisa ruim a gente não faz nunca por querer. Ninguém programa uma coisa ruim para ser feita só de vez em quando. Se é ruim, não fazemos. Ah, ok, me coloca numa situação extrema: se eu estivesse num deserto, se os dois estivessem há 12 horas sem comer e se eu soubesse que não teríamos outra comida pelas próximas 5 horas, sim, eu daria um lanche do McDonalds para eles. Repito: coisa ruim a gente não faz por querer: a gente faz sem querer ou em situações extremas.

Na minha opinião, a questão do McDonalds no passeio da escola não é se vai fazer ou não mal para saúde ou para alimentação dos meus filhos. Meu problema está em associar uma coisa ruim (ruim mesmo em vários aspectos: comida de péssima qualidade, venda casada com brinquedos e tudo o mais) com uma coisa bacana e especial como é uma excursão com os amigos da escola. Se vamos fazer uma coisa especial, vamos colocar apenas coisas especiais no pacote. Não vejo motivos para incluir um treco ruim em um dia especial. Não faz o menor sentido associar o McDonalds a todas as coisas legais que a gente só faz de vez em quando. É como se McDonalds fosse tão especial quanto o presente, a viagem, os passeios e a excursão da escola.

Não.

Não pode.

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Dor e amor de mãe

Conceitualmente, se me perguntarem o que acho de dia das mães e dia dos pais, vou responder que são datas meramente comerciais, inventadas por alguém que queria vender mais produtos. Se alguém me perguntar se faço questão: não, não faço. Significa que se meus filhos me disserem um dia que acham a data comercial demais e que preferem não comemorar, vou achar normal, sem crises.

Mas quando recebi a mensagem avisando que o papai não iria na festa de dia dos pais na escola, eu sofri. Veio um filminho na minha cabeça com a festa do dia das mães e vi de novo os olhinhos deles me procurando na plateia enquanto as tias posicionavam as crianças no palco. Vi de novo as carinhas felizes, cantando a música dos Tribalistas olhando para mim, errando todos os passos. Lembrei de todos os dias anteriores que eles cantarolaram a música, fazendo spoiler da festa para mim. Fiquei imaginando os dois ensaiando para a festa do dia pais há semanas. Doeu em mim.

Sim, pode ser muito drama da minha parte e acho que eles são muito mais maduros que eu. Mas eu passei dias inteiros preocupada, pensando o que eu tinha que fazer para que os dois não sofressem com isso. Tive ideias mirabolantes. Achei que eles não poderiam ir para escola o dia inteiro. Nem a semana toda, já que a decoração da festa estaria montada desde segunda-feira, porque cada turma comemoraria com seus pais em uma dia semana. Achei que eles mereciam uma programação master especial fora da escola para esquecerem a festinha. Eu simplesmente não consegui parar de pensar durante dias em como não deixar meus pequenos sofrerem, mas quem estava sofrendo por uma possível dor deles era só eu.

E quem me acudiu foi a melhor pessoa para entender a dor de mãe: minha mãe. Eu sei que no fundo ela também não queria que eu ficasse sofrendo, por isso ela veio socorrer. Foi até a escola dos brigadeirinhos no meio da tarde, trouxe-os para nossa casa e ficou com eles até eu chegar do trabalho. Deixou o trabalho dela e os compromissos que ela tinha, para que eu não precisasse ir pessoalmente buscá-los mais cedo. Passear com a vovó no meio da semana foi super divertido e eles adoraram.

Mãe, você é a melhor mãe do mundo. Eu não tenho aspiração de um dia ser a melhor mãe do mundo porque nunca vou conseguir ganhar de você.

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Nossa vida sem carro

Eu comemorei, tá? Quando me dei conta que estava há mais de um ano vivendo sem carro, comemorei.

Óbvio que ninguém que vive em São Paulo gosta de trânsito, eu nunca gostei de trânsito. Mas trânsito passou a ser um stress na minha vida depois que virei mãe. Antes disso, eu vivia nos meus horários “alternativos”, entrando no trabalho depois das 10h e saindo de lá depois das 23h e nunca-jamais-de-forma-alguma saía na rua às 18h. A maternidade traz horários e compromissos rígidos e intransferíveis e o trânsito paulistano passou a me enlouquecer. Quando digo enlouquecer, é no sentido literal.

Sem carro, eu passei a viver uma vida sem trânsito. Com isso, eliminei uma das coisas que mais me estressavam e passei a viver mais leve.

Há um tempo atrás, escrevi aqui no blog que o transporte público em São Paulo não funcionava e que eu invejava pessoas que moravam em cidades onde era possível se locomover de bicicleta. São Paulo, me perdoa. Você tem muitos problemas e há, sim, oportunidades de melhoria no transporte público e nas ciclovias, mas andar de ônibus, metrô e bike em São Paulo é mil vezes mais feliz que enfrentar o trânsito de carro. Experiência própria.

Em um ano, nem uma vezinha sequer eu lamentei não ter carro. Moro a duas estações de metrô de um shopping onde tem uma locadora de veículos. Aluguei carro algumas vezes para viajar e duas vezes para fazer coisas na cidade (compras grandes e transporte de coisas desajeitadas). Nos últimos meses, comecei a evitar ao máximo o taxi, por uma questão de $, que a coisa não tá fácil pra ninguém. Depois criei coragem para começar a usar a bicicleta na cidade. Eram dois medos: assaltos e atropelamentos. O medo de assaltos foi resolvido com um seguro e o medo de atropelamentos não foi resolvido, mas capricho nos acessórios de segurança e enfrento. Levo criança na garupa (uma de cada vez, pois só aguento uma cadeirinha na bike) para fazer coisas pelo bairro, porque fui presenteada com uma ciclovia a 150 metros de casa. Quando estou sozinha, vou mais longe e considero bicicleta uma alternativa ao metrô e ônibus.

E o que isso tem a ver com maternidade, já que tenho um blog para falar sobre maternidade? Não ter carro mudou muito nosso estilo de vida e acho que meus filhos amadureceram e aprenderam muito com esse nova vida sem carro.

Primeiro, eles entendem bem a cidade onde vivem. Sabem andar na rua e atravessar a rua com segurança. Conhecem as faixas destinadas aos ônibus, as ciclovias, a faixa de pedestre, as preferenciais. Sabem que os semáforos para pedestres fecham muito rápido e é preciso andar rápido e prestar atenção. Sabem que, mesmo com o semáforo fechado, alguns motoristas precisam tirar a mãe da forca e é preciso sempre olhar para os dois lados. Conhecem bem as estações de metrô e os pontos de ônibus e sabem o que precisam fazer para pagar, para pedir para descer do ônibus ou como esperar o metrô atrás da faixa amarela. Há pouco tempo eu estava de papo com um adulto que vive em São Paulo e que não sabia o que era o Bilhete Único. “Mas dá pra pagar em dinheiro se eu quiser?” – ele também não sabia que tinha cobrador no ônibus. Também não sabia como fazer para descobrir que linha pegar (nunca tinha visto as rotas via transporte público no Google Maps), nem o preço (só sabia que as pessoas reclamaram do aumento de R$ 0,20), nem nada. Isso não é uma crítica a quem nunca entrou num ônibus; meu sentimento foi só um super orgulho dos meus pequenos, que já poderiam explicar como se faz para pegar o metrô ou o ônibus para ele.

Em segundo lugar, eles não são telespectadores da cidade. Andando apenas de carro – porque quando a gente tinha carro era de carro que eles iam pra escola, pro parque, pra casa da vó etc. – eles viam o mundo através de uma janela com insulfilme. Hoje eles estão inseridos e fazem parte do mundo que rola do lado de fora dos carros. Passam a centímetros de distância de moradores de rua e vendedores ambulantes, olham de perto o movimento de carros, ônibus, bicicletas e pedestres, passam perto das vitrines das lojas de rua, cruzam com pessoas, sentem o cheiro, ouvem o barulho. Estão dentro de trens lotados no horário de pico, estão embaixo do guarda-chuva quando está chovendo, estão parados no ponto enquanto o ônibus demora.

Sem carro, eles dividem vagões com pessoas diferentes. E aprendem que as pessoas são diferentes umas das outras em diversos aspectos. Eles não conseguiam ver toda essa diversidade apenas nos lugares que estão na rotina deles. Porque é assim, ó: a escola tem um preço e a maioria das famílias tem uma renda parecida para estudar lá, além de morarem na mesma região. A gente freqüenta shoppings perto de casa ou onde estão as lojas que a gente gosta, como todas as outras pessoas que estão lá. O resort das férias também diz muito sobre a renda das famílias, assim como o clube e as atividades extracurriculares. Andar na rua fora da lata do carro é muito diferente.

E, dividindo o transporte com pessoas diferentes, eles aprendem a respeitar e conviver com estas pessoas, o que vai muito além de levar um brinquedo na escola toda sexta-feira para aprender a emprestar pro amiguinho. Eles aprenderam a dar licença, a pedir licença, a esperar as pessoas desembarcarem antes de entrar no metrô, a ceder o lugar para pessoas que precisam se sentar mais que eles, a recusar assento que nos oferecem quando vamos descer logo, a não empurrar e não chutar as outras pessoas (mesmo que isso seja sem querer), a se desculpar.

E, por fim, estão acostumados a bater perna. Acontece muito de precisarmos andar 1k de um lugar para outro e eles acompanham numa boa. E isso foi genial quando fomos acampar e fazer trilhas, porque eles subiram morros super bem.

Há pouco tempo li ou ouvi a história de uma mãe (não me lembro se foi um texto ou uma conversa de bar) que levou os filhos para algum lugar na Europa nas férias e que ficou incomodada com o comportamento das crianças no metrô e nos trens por lá. Ela dizia que seus filhos não conseguiam respeitar a faixa amarela, que ela precisava ficar segurando bem firme as mãozinhas para que eles não fugissem, que precisava chamar atenção deles o tempo todo, enquanto as crianças europeias estavam tranquilas respeitando a sinalização e seus pais, sem precisar de nenhum “Marie, fait-pas ça!!!”. O que acontece aí não é uma diferença entre nacionalidades, apenas. A diferença está no estilo de vida que as famílias levam e na forma como expõe seus filhos ou não ao mundo.

Então é isso. Menos carro, menos trânsito, menos stress, mais participação, mais diversidade, mais amor.

andré dahmer

Tirinha de André Dahmer, que copiei daqui ó

PS: não compro contra-argumentos dizendo que andar de carro é uma questão de segurança em São Paulo. Sequestros-relâmpagos, armas na janela e carros roubados com bebês na cadeirinha no banco de trás são violências bastante assustadoras para crianças e para os pais. Moro em uma cidade com problemas claros em relação à segurança e isso afeta tanto quem anda de carro quanto quem não anda de carro.

PS2: este post não é informe publicitário do Haddad e nem tenho a pretensão de iniciar uma discussão do tipo fla-flu sobre partidos. Então não vale dizer que ciclovia na subida é um absurdo e que bom mesmo é investir dinheiro na PM.

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De onde saem os bebês (continuação)

Numa conversa com a professora do meu filho:

– Isaac me contou que você explicou para ele como os bebês nascem.

Calma. Pera lá. Em minha defesa, eu não expliquei, eu apenas segui o que me ensinaram lá atrás: “responda apenas o que a criança perguntar” e “nunca minta”. Deu nesse diálogo aqui.

Acontece que, linguarudo que só ele, Isaac explicou como os bebês nascem para todo mundo. Acontece também que tem uma outra professora na escola que está grávida, e que ouve dele todos os dias:

– Calma, tia, que já já esse bebê sai daí pela sua periquita.

Orgulho desse pequeno defensor do parto humanizado. 

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Tem um bebê na barriga da mamãe

Era meio da semana, tipo terça ou quarta-feira. Eles foram pra escola e eu fui pra uma reunião em um cliente. Celular tinha ficado na bolsa e, assim que saí, vi a ligação perdida da escola.

Ligação da escola no meio do dia sempre é problema e retornei imediatamente:

– Alô? Isaac e Ruth estão bem?

– Estão sim, mamãe! A gente só ligou para te dar os parabéns e perguntar se podemos oficializar para os coleguinhas e tias!

– Hein?

– Soubemos hoje da gravidez!

– GRAVIDEZ DE QUEM, MANO?!?!?!? Eu não estou grávida!

Silêncio constrangedor do outro lado da linha.

– Não?

– Não!

– Mas Isaac e Ruth contaram para as tias que tinha um bebê na barriga da mamãe. Que eles iram ganhar um irmãozinho.

– Tá doida?

– Foi, sim. Cada um contou para a sua professora, em momentos diferentes, e eles não estavam juntos. – Isaac e Ruth ficam em salas separadas na escola.

– Como assim?

– Sim. Isaac me disse que foi a mamãe que contou isto para eles em casa.

– Tia, não, não tô grávida. Se eu estivesse, não ia querer parabéns. Eu estaria correndo pelada por aí gritando “nãããooooo, eu não dou conta de trêêêêssss!!!!! socorroooooooo, vai que são gêmeos de novooooooooo!!!!!!!”.

Pedidos de desculpas aceitos, ela ficou de conversar com eles, explicar e tal. Me contaram que nenhum amiguinho tinha contado recentemente que a mãe estava grávida. Perguntei para a tia da perua e ela também não tinha ouvido sobre outra mamãe grávida na perua. Eu sou sonâmbula, eu sei, mas acho difícil que eu tenha levantado de madrugada e dito uma coisa dessas para os dois, cada um no seu quarto.

Quando chegaram em casa à noite, eu perguntei o que tinha acontecido na escola durante o dia. Eles desconversaram, fingiram que não era com eles e seguiram a vida. Não falamos mais sobre o assunto até hoje. Crianças doidas, meu.

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Carta para minha filha

Querida filha,

Eu sei que você também sofre com todas as birras e descontrole, que não terminaram nos terrible two e já estão quase chegando aos four. Eu sei que é difícil ficar brava com o mundo, berrar até a garganta doer e se jogar no chão e bater a cabeça. Eu sei que eu sou a pessoa adulta nesse relacionamento e que é meu papel ter calma e paciência. Eu sei também que não sou um ser imaculado que tem calma e paciência 100% do tempo.

Mas você está me ensinando a ser paciente e tolerante. Você é a primeira pessoa neste mundo que nunca irá sair da minha vida mesmo que me irrite, que me teste ou que não faça as coisas que quero. Nós vamos ficar juntas e vamos tentar nos entender, para sempre.

Eu sei que você sofre de saudades. Eu sei que é difícil para você sair da escola com a perua e ser recebida em casa pela babá. Eu sei que você queria me ver antes. Sei também que no final do dia estou cansada, porque eu enfrento clientes atuais que precisam de atenção, novos clientes que entregam minhas metas de receita, chefe, equipe e colegas de trabalho que precisam de reuniões, materiais, definições e entregas. Você não tem nada a ver com isso e eu me esforço todos os dias para abstrair tudo isso enquanto estou no metrô para chegar bem humorada em casa.

Eu sei que todos os dias, sem exceção, você faz alguma bagunça feia na escola ou com a babá. O que você não sabe é que eu pedi para a escola e para a babá tentarem não me contar todas essas coisas em detalhes e hoje elas resumem, contam menos vezes, filtram um pouco mais. Fiz isso porque eu não quero chegar em casa todos os dias e ter conversas sérias e pesadas com você. Quero chegar em casa e te abraçar, ouvir suas histórias, contar sobre o meu dia. Quero te dar banho, brincar e te colocar para dormir. Quero te deixar feliz, quero te mostrar que não vou ficar brava e te dar broncas todos os dias.

Outra coisa que você não sabe é que eu entro no seu quarto todos os dias depois que você dorme para te cobrir e te abraçar. Você dorme pesado e nunca acorda. Você também não sabe que eu queria não ter perua e babá e te buscar na escola todos os dias, junto com seu irmão. Que eu questiono esse “esquema” todos os dias, mas que não sei qual outra alternativa funcionaria bem pra gente. Eu sei que você gosta de dormir cedo, porque isso te faz bem, então sei que não adianta chegar tarde e te deixar dormir uma hora mais tarde, porque você vai estar cansada demais para curtir esse tempo com a mamãe. Eu só não sei o que tenho que fazer para chegar em casa mais cedo todos os dias, sem que isso afete nossa renda e o meu equilíbrio.

Eu quero te ver feliz. Quero ver você tranquila, quero que se sinta linda, que seja querida pelo outros e que pare de roer suas unhas. Por favor, me ajuda a entender o que tenho que fazer para você parar de roer unha. Quero curtir você. Quero ficar mais tempo com você, sem essa de “tempo de qualidade”. Quero mais tempo mesmo. Queria levar você para trabalhar comigo amanhã.

Eu te amo muito, pequenina. Dorme bem, tá?

um beijo e um quentinho

Mamãe Ruri

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Ser (só) mãe

Hoje eu fiz tudo diferente: dispensei a perua de manhã e levei as crianças até a escola a pé, porque o dia estava bonito e eu queria ficar um pouco mais com eles antes da corrida matinal. No final da tarde saí cedo de uma reunião, dispensei a perua de novo e pedi para o taxi me deixar na porta da escola, um pouco antes das 18h. Meu filho quase morreu do coração quando me viu na porta da sala – eu amo essas manifestações intensas e energizantes de carinho.

Voltamos andando, conversando e cantando e paramos na padaria para um leite gelado com pão de queijo. Dispensei a babá e chegamos em casa super cedo, antes do horário que eles costumam chegar com a perua. Eles foram brincar no quarto, ainda era dia, tinha sol entrando pela varanda e a brincadeira rolou um bom tempo enquanto eu arrumava algumas coisas em casa, até chegar a hora do banho. Depois do banho dos três, brincamos juntos de jogo da memória e eles foram deitar. Deitei junto com minha filha e ficamos abraçadinhas um tempão até ela ficar bem sonolenta. Às 20h10 eles estavam desmaiados e eu percebi que fazia tempo que não me sentia tão feliz.

Ser mamãe e ser diretora de empresa juntos ao mesmo tempo é desafio demais. Tem que ter estrutura de apoio (a perua, a babá, a escola) e tem que gerenciar esta estrutura toda. Tem a culpa, tem a saudade, tem o cansaço. Tem cabeça em um lugar e coração no outro. Eu não nasci para ser mãe em tempo integral, mas hoje fiquei me perguntando seriamente se não estou errando totalmente neste modelo que escolhi.

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Conversa franca

Eu gosto de ballet e gosto de judô. Mas tenho um menino e uma menina e me incomodava esse negócio de “ballet para as meninas” e “judô para os meninos”. Não os coloquei para fazer ballet ou judô até que eles mesmo me pedissem para fazer uma coisa ou outra. E aconteceu essa semana:

– Mamãe, só eu não vou no ballet. Eu queria fazer ballet. Posso?

– Hmmm.

Poder, pode. Não posso dizer que é caro, nem posso dizer que é difícil de levar ou buscar, porque é dentro da escola. É legal. Ela vai ficar feliz. É fofinho. Eu adorava as aulas de ballet que fiz durante muitos anos. Qual o problema?

– O problema, filha, é que hoje você já convive com umas dez tias diferentes e todas chamam a mamãe frequentemente para conversar sobre o seu (mau) comportamento. A babá, a tia da perua, a professora, as tias da recreação, a coordenadora da escola, a diretora da escola, todas elas me trazem as queixas e eu preciso lidar e resolver. Por que eu entraria numa fria de ter mais uma tia nesta lista toda, me diz?

– Eu preciso me comportar melhor e obedecer mais?

– Seria bom. Ou você acha que eu vou ficar feliz quando a tia do ballet me chamar para dizer que você não coloca a roupa, não faz os passos, não fica em fila como ela pediu?

Sei que já contei aqui que minha filha é muito difícil. Ela me dá muito trabalho, tem gênio forte e não aceita todos os limites. E quem acha que, porque eu trabalho o dia todo, estou terceirizando a educação dos filhos não sabe que não tem nada disso. É tudo responsabilidade minha. Eu até gostaria de terceirar algumas coisas, tá? Eu queria poder fazer cara de paisagem, como se o problema não fosse comigo, quando a tia da perua me conta que ela jogou alguma coisa pela janela. Mas não funciona assim. Qualquer coisa referente a meus filhos é encaminhado de volta para mim e sou eu que tenho que resolver. E tá certo, né, porque eu sou a mãe. Mas aí eu acho justo poder escolher não ter mais uma tia na minha vida.

– Se eu obedecer bastante, você deixa eu fazer ballet?

Deal.

Ok, filha, temos um acordo. Você cumpre sua parte e eu cumpro a minha. Mas juro que cancelo o contrato na primeira sapatilha que voar na cabeça da amiguinha.

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Preciso de ajuda (ou como eu virei uma mãe com duas babás)

Trombei umas duas ou três vezes com esse texto nas redes sociais e vou copiar um pedaço.

“Nasce um bebê no Xingu. Todas as mulheres da oca se mobilizam. A mãe está cercada de cuidados e apoio. Nasce um bebê no sertão das Minas Gerais. A avó, a bisavó, as tias, a prima cercam a mãe de cuidados. Nasce um bebê numa aldeia africana. Numa tribo em Maui. Numa cidadezinha no interior da Tailândia ou da Polônia ou da Inglaterra – a cena se repete. Na favela da Zona Norte, as vizinhas e a tia que mora na laje de cima se encarregam de ajudar. E nas mansões dos jardins? Não são mais a avó e as vizinhas, mas as duas babás, a enfermeira, a faxineira, o motorista e o segurança.

Nasce um bebê em Copacabana, no apartamento 1104. A avó está trabalhando em tempo integral. O pai só tem cinco dias de licença. A vizinha do 1103 não só não ajuda, como sequer conhece, e ainda reclama do choro noturno. E a empregada diz que só ganha pra cuidar da casa. Ajudar à noite, nem pensar.

E aí temos esse fascinante fenômeno social: a única mulher do planeta que é deixada pra cuidar de um bebê sem nenhuma ajuda é a da classe media, urbana, ocidental. Pior: ela achava que ia conseguir…”

É, pois é. Não moro em mansão nos jardins nem em Copacabana, mas a cena é esta por aqui. Minha mãe trabalha em tempo integral, e eu me orgulho disso. Meu pai e minha madrasta também trabalham em tempo integral – também motivo de orgulho – e têm uma filha de 12 anos que demanda cuidados que, como mãe, conheço bem. Minha irmã uma vez me disse que não é obrigação dela cuidar dos filhos dos outros – o que até entendo, não é mesmo. A madrinha deles tem uma filha de 6 anos, que também demanda bastante. Minha vó tem 94 anos, não dá conta de duas crianças pequenas. E por aí vai. E, para ser justa, eu também não sei o quanto estava a fim de ver alguém da minha família frequentemente dentro da minha casa.

E eu achei que eu ia dar conta. Eu, a escola e nada mais, porque qualquer outra coisa seria sinônimo de fracasso. Eu nunca lamentei porque não tenho ajuda frequente de nenhum familiar, pelo contrário. Eu também acreditava no “quis ter filho? agora assume!”.

Durante minha licença maternidade, eu escolhi não ter uma babá. Na época, eu mal tinha ajuda em casa, apenas uma moça que ia duas vezes por semana. Ou seja, além de cuidar dos dois o dia inteirinho, eu ainda tinha roupas e louças para lavar e coisas para arrumar, porque ela não dava conta de cuidar de uma casa com quatro pessoas – sendo que três delas ficavam ali o dia todo – em apenas dois dias. Depois voltei a trabalhar, eles foram para a escola, a casa não ficava mais em estado de calamidade pública durante a semana e eu achei que tudo na vida estava resolvido. Me enganei. Eu precisei procurar uma pessoa para me ajudar com eles todos os dias, porque buscar na escola todo dia às 19h era humanamente impossível para mim. Essa parte da história já contei por aqui. A verdade é que eu resisti muito. Eu achava que qualquer pessoa que tinha uma babá na vida era uma incompetente ou uma folgada. Eu achava que as mães tinham a obrigação de dar conta do recado – senão eram incompetentes – e a querer dar conta do recado – senão eram folgadas. Eu demorei para reconhecer que eu precisava de ajuda e que eu seria muito mais feliz assim.

Sim, eu sou mais feliz com essa escolha. Em 80% dos dias, chego em casa às 19h, dispenso a babá e cuido dos meus filhos como sempre quis fazer. Mas tem os dias do trânsito, do vôo atrasado, da reunião que demorou um pouco mais, e ela está lá em casa com eles me esperando. Eu nunca mais voltei para casa chorando porque estava atrasada.

Aí um belo dia eu marquei uma consulta em um médico para os dois e pedi que ela fosse comigo. Era no horário de trabalho dela e achei que pudesse ser bom. Não foi só bom. Foi simplesmente a coisa mais sensacional desse mundo, gente. Imagina como era minha vida antes disso, vamos lá: durante a licença maternidade, não tinha escola onde deixar. Ou seja, cada vez que um tinha médico, eu tinha que levar os dois. Alguém presta atenção em alguma outra coisa quando se está encarregada de manter dois bebês vivos? Alguém? Me ensinem como, por favor. Mesmo depois que eles foram para a escola e eu comecei a levar um de cada vez no médico, eu não conseguia prestar atenção. Eles correm, mexem em tudo, querem participar da conversa, querem falar sobre outra coisa, querem brincar com as coisas que estão em cima da mesa. A cena mais comum na minha vida até então era: um médico sentado tentando me explicar a consulta, uma criança correndo e mexendo em tudo e eu em pé no meio do consultório me revezando entre prestar atenção (10% do tempo) e ver o que a criança está fazendo (90%). Nesse dia, eu descobri a maravilha que é sentar na cadeira em frente ao médico e ouvir o que ele está perguntando. Responder o que ele está perguntando. Entender o que ele está explicando. Fazer perguntas sobre o que ele me explicou. Chegar em casa sabendo exatamente o que tenho que fazer com meus filhos. Fazer jus a todos os centavos que pago pelas consultas médicas, basicamente. É lindo.

Aí aconteceu mais uma coisa: o Carnaval 2014. Já contei também: mãe sozinha, duas crianças sem escola durante 5 dias. Eu tinha que preparar todas as refeições deles e a cozinha virava o caos; eles dormiam e eu ia limpar tudo, para ter louças limpas para o dia seguinte. Implorei para meu pai ficar um pouco com eles, mas minha madrasta ficou super doente naqueles dias. Implorei para minha mãe ficar um pouco com eles, nós fomos passear juntos, mas não foi suficiente para meu cansaço físico se resolver. Eu não dei conta. Ponto. No final de semana seguinte, eles foram para a casa do pai e eu fiquei 48 horas deitada, me recuperando de uma gripe gigantesca, repetindo para mim mesma: “não tem problema não dar conta, não tem problema não dar conta, você não é obrigada a dar conta”.

No final de semana em que ficariam comigo novamente, eu chamei a moça que trabalhou em casa durante o ano de 2013 para me dar uma força. Perguntei se ela toparia fazer um bico e ela veio, porque fiquei em pânico de ficar sozinha de novo e surtar, confesso. Queria um apoio moral e alguém que olhasse os dois para eu poder fazer xixi. Desde então, ela vem quase todo sábado e me ajuda muito. Porque sábado à noite era momento de pensamentos suicidas, tá? Eles iam para cama cedo e eu encarava uma cozinha de deusmelivre para termos espaço para o café da manhã no dia seguinte. Eles dormiam tranquilamente em seus quartos e eu jantava sozinha, porque não podia sair e deixar os dois sozinhos no apartamento. A folguista vem no sábado no final do dia e me ajuda nessas duas coisas: ela dá um tapa na cozinha para mim depois que eles jantam e fica aqui no apartamento para eu poder jantar fora depois que coloco os dois para dormir.

Há pouco tempo atrás, se eu lesse esse meu depoimento acima, eu ia julgar essa mãe, ia achar que ela é incompetente, folgada e dondoca (tinha essa também, babá era coisa de dondoca). Eu ia mandar um “onde já se viu levar a babá no médico?” ou um “onde já se viu babá no sábado?”. Hoje essa mãe sou eu: que realmente nem sempre dá conta do recado sozinha, que reconheceu que precisa de ajuda e que teve que apertar o orçamento do lar para ter ajuda.

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Desabafo I

Estamos passando por uma fase do cão. Em geral, sou bem sensível para entender os problemas dos meus filhos e ajudá-los a resolver. Desta vez, não sei. Não sei se foi porque tiramos férias juntos pela primeira vez e depois voltaram para a realidade, não sei se a rotina na escola está muito diferente sem a professora e os amigos que estão de férias ainda, não sei se foi porque mudei a mesinha de brinquedos do lugar, não sei se estou diferente, não sei se é o frio, não sei. Só sei que não sei o que fazer.

Eles estão muito bagunçados e agitados há algumas semanas. Do tipo que faz todo mundo que convive com eles comentar alguma coisa do tipo “nossa, eles não param”. Eles chegam em casa e destroem. Meu filho vai pra fono e a moça fica louca. Berram na perua. Deixei um dia em casa com minha mãe por uma hora e, quando voltei, ela estava de goleira na frente do móvel da TV para que eles não mexessem em mais nada. Deram para colocar mão na comida, fazer xixi na roupa de propósito, abrir meus armários e muitas outras coisas claramente irritantes.

Tá. Eu consigo enxergar que estou exagerando. Não é que está tudo tão mal assim o tempo todo. Não. Temos lindos momentos de muito amor e obediência. Mas a fase está mais caótica que o normal.

Aí eu me dei conta que eu tenho mais medo de assustar as pessoas que convivem com a gente do que efetivamente de ter que lidar com as birras. Tenho medo que um dia a tia da perua me diga que não aceita mais os dois. Tenho medo que a escola me diga que assim não dá mais, que só posso matricular um no próximo ano. Tenho medo que ninguém mais queira frequentar a nossa casa, porque isso aqui parece uma escola de samba no Anhembi. Tenho medo de não receber mais convites para sair com eles. Tenho muito medo que eles percebam que as pessoas não dão conta e se chateiem ou que se afastem de pessoas de quem eles gostam.

Aí eu fico me perguntando se nós realmente já não assustamos as pessoas. Desculpam, filhotes, eu fico. Eu me pergunto quantas vezes recebo convites para ir à casa de alguém com eles versus quantas vezes em convido para fazer isso. Eu diria que em 95% dos casos, eu me convido, e isto me assusta. Me dei conta de que eles nunca receberam um convite para passear com ninguém. Nem nunca receberam convite para brincar na casa de um amiguinho (o que pode ser culpa minha, já que a mãe também precisa ser legal para que a outra mãe queira iniciar uma amizade materna). Me dei conta também que eu mesma tenho preguiça antecipada de interações sociais. Por exemplo: descobri hoje um restaurante vegetariano e orgânico bacana e pensei em almoçar com eles lá nesse final de semana. Mas imediatamente fiquei me perguntando se eles vão correr pelo lugar, se vão mexer em tudo, se vão comer com as mãos, como é que vou fazer para levar um no banheiro enquanto o outro está aprontando alguma coisa e não sei se vou. Outro exemplo: comprei ingressos para uma peça de teatro amanhã e também estou sofrendo por antecedência porque é sempre caos. Eles não ficam do meu lado, se penduram em tudo, mexem mas coisas dos outros e só tenho duas mãos. Mais um exemplo: levei os dois no Simba Safári outro dia e eles fizeram tanta confusão no carro durante a ida (brigaram, tiraram sapatos e meias e jogaram no chão, choraram) que fiz o percurso todo até o local me arrependendo amargamente por ter saído de casa com eles e quase voltei. Durante o passeio nos divertimos muito, foi realmente legal. Mas na volta estavam cansados, com fome e frustrados com o fim do dia e eu lamentei tudo de novo. Só mais um exemplo: meu novo chefe sugeriu que eu levasse meus filhos um dia para conhecer o escritório e os colegas e eu pensei: “HAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAH tá doido?”.

“Gêmeos de 3 anos” é uma coisa assustadora, entendo. Uma criança mais uma criança igual a umas cinco crianças. É difícil. E, principalmente, solitário. Solitário pra mim, porque sou a mãe e fico aqui na sexta à noite conversando sobre maternidade com meu iPad porque não sei o que fazer/ como lidar/ qual o problema. Solitário para eles, porque eles deixam de fazer muitas coisas divertidas porque é muito assustador cuidar dos dois.

Antes que eu receba xingamentos e protestos, eu amo meus filhos, tá? Cuido muito bem, trato muito bem, me esforço para ser paciente e vou dedicar minha vida toda aos dois. Se alguém achar que é uma piração de uma pessoa despreparada para a função de mãe, dois brigadeirinhos estarão à disposição para qualquer convite para passeios nesse final de semana, para uma aula experimental. Mas só vale se levar só os dois, para ver como é. É só ligar.

PS: se de uma hora para outra começarmos a receber mais convites, quero deixar bem claro que não tentei dar indireta para ninguém. Mas meus bebês desconhecem a existência de um blog e ficarão genuinamente felizes com isso, ok?

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