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Solidão, palavra cavada no coração

Aí eu trombei com um texto que falava sobre uma mamãe recém-separada e sobre o quanto ela se sentia sozinha naquele momento, mesmo cercada de tantos amigos e familiares.

Pois é, é duro.

Mas a verdade verdadeira é que me sinto muito sozinha desde que virei mamãe, mesmo cercada de filhos, marido, amigos e familiares, e nunca teve nada a ver com estar ou não estar sozinha no sentido literal da palavra. Sim, encarar a maternidade-carreira-solo é uma pancada e tanto em nossas vidas. Mas o sentimento “solidão” veio bem antes.

Eu me sinto sozinha porque é muito difícil compartilhar todas as angústias da maternidade com qualquer outra pessoa nesse mundo. Difícil demais. Porque as pessoas querem te ouvir, querem te ajudar a pensar, querem te confortar, só que é muito difícil explicar o sentimento que está por trás de cada frustração, de cada dúvida ou de cada medo.

Me sinto sozinha porque passo horas e dias e meses quebrando a cabeça para fazer alguma coisa que acho o mais legal do mundo para meus filhos e sempre tem alguém por perto olhando com reprovação ou tentando me mostrar alguma outra coisa diferente. Me sinto sozinha porque tenho dúvidas sobre o que fazer e as pessoas – com a maior boa vontade do mundo – me dão soluções práticas, rápidas e infalíveis que não conseguem acalmar meu coração.

Me sinto sozinha porque a parte mais pesada do trabalho é sempre da mamãe: levar ao médico, acordar de madrugada para medir a temperatura e medicar, fazer reuniões na escola para acompanhar o desenvolvimento deles, ver se eles têm roupas de frio o suficiente para o próximo inverno, garantir que eles tenham comida e frutas e leite para toda a semana, cortar unhas. Eu – do fundo do meu coração – não queria terceirizar essas coisas para nenhuma outra pessoa no mundo. Faz parte do papel de mãe e gosto de fazer. Mas me sinto sozinha quando percebo que não tem um brinde de reconhecimento assim ó: “parabéns! você saiu correndo no meio da tarde, cruzou a cidade para pegar filho na escola e levar no médico e ainda entregou tudo o que tinha prometido no trabalho!”.

Aí eu tô sensível e chorei horrores quando vi esse vídeo O trabalho mais difícil do mundo.

Maternidade e seus comportamentos bipolares

Eu estava no sofá, iPad no colo, passeando pelo Papais Adotantes, dando uma lida na diagonal dos últimos posts e percebi que meus textos alternam entre: 1) textos fofos e amorosos sobre o quanto eu amo meus filhos, 2) textos sobre maternidade em geral (logística, educação, saúde, alimentação) e 3) textos onde deixo bem claro para mim mesma que é muito difícil ter filho, ter gêmeos, ter crianças de 3 anos e etc.

Ser mãe é ser bipolar. Em um mesmo dia, eu passo de um extremo ao outro rapidamente. Uma hora amo demais, sou a pessoa mais feliz do mundo, acho tudo fofo demais, no minuto seguinte fico brava, fico com raiva e fico me perguntando “por quê?, por quê?, por quê?”. Pareço louca. Exemplo do que estou falando, abaixo.

Era um domingo e eu acordei com dor de garganta. Eu já estava um pouco mal no sábado à noite, mas eles já tinham ido para a cama e eu não podia largar os dois sozinhos para ir até a farmácia, e não tinha um único comprimido em casa. No domingo, achei melhor começar a me drogar loucamente, porque mãe doente é caos na Terra. Eles estavam brincando e perguntei se queriam ir comigo até a farmácia.

– Obaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Vamos colocar sapatoooooooooooooooo!

Lá fomos nós três, a pé, porque não temos carro. Fomos conversando, curtindo o dia e eu pensando como é legar ter companhia, ter gente que vai comigo na farmácia quando estou doente, que topa andar 1 Km para ir, outro Km para voltar numa boa, que me ama e coisa e tal. Tudo muito lindo. Quando cheguei na porta da farmácia, expliquei as duas regras:

– Não pode mexer me nada. Tem que ficar perto da mamãe. Só vou comprar uma caixa de comprimidos, pagar e vamos embora, ok?

– Ok.

Nada. Foi mais forte que eles. Eu sei que eles entenderam que não podiam mexer me nada, eu sei. Eu sei também que ver muitas caixinhas, potinhos e saquinhos em cores, formatos e texturas diferentes é fascinante. Eles não conseguiam não mexer em nada. Eles têm quatro mãos. Eles pegaram tudo, mexeram em tudo, apertaram tudo. Levaram bronca, pararam por 3 segundos e pegaram outra coisa. Eu me perguntei se seria presa se sacasse uma fralda de pano da mochila e amarrasse as mãos deles naquele negócio que confere se vamos sair da loja sem pagar, só para eu poder pegar um comprimido e irmos embora. Fiquei com medo de eles derrubarem o negócio, não era muito firme. Eu também não tinha uma fralda de pano, senão teria arriscado. Tentei segurar as quatro mãos deles com uma mão minha, mas não dei conta. Comprei quatro caixas de comprimidos, porque achei que assim ocuparia as quatro mãos, mas não adiantou, porque eles seguraram minhas quatro caixas entre os braços e o peito e continuaram a mexer em tudo. Foi insuportável. Cinco minutos que duraram uma eternidade.

No caminho de volta, eu estava muito irritada. Eu fiquei me perguntando por que catso eles não conseguem obedecer duas instruções simples, quando sei que eles já são bem capazes de entender o que estou falando. Fiquei me perguntando como pode ser tão difícil fazer coisas tão simples com gêmeos de 3 anos, como ir até a farmácia comprar um comprimido. Me arrependi profundamente da ideia que tive, fiquei achando que era melhor ter esperado até segunda, porque eu jamais deveria ter saído de casa com dois monstrinhos.

Depois cheguei em casa e passou, esqueci.

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Preciso de ajuda (ou como eu virei uma mãe com duas babás)

Trombei umas duas ou três vezes com esse texto nas redes sociais e vou copiar um pedaço.

“Nasce um bebê no Xingu. Todas as mulheres da oca se mobilizam. A mãe está cercada de cuidados e apoio. Nasce um bebê no sertão das Minas Gerais. A avó, a bisavó, as tias, a prima cercam a mãe de cuidados. Nasce um bebê numa aldeia africana. Numa tribo em Maui. Numa cidadezinha no interior da Tailândia ou da Polônia ou da Inglaterra – a cena se repete. Na favela da Zona Norte, as vizinhas e a tia que mora na laje de cima se encarregam de ajudar. E nas mansões dos jardins? Não são mais a avó e as vizinhas, mas as duas babás, a enfermeira, a faxineira, o motorista e o segurança.

Nasce um bebê em Copacabana, no apartamento 1104. A avó está trabalhando em tempo integral. O pai só tem cinco dias de licença. A vizinha do 1103 não só não ajuda, como sequer conhece, e ainda reclama do choro noturno. E a empregada diz que só ganha pra cuidar da casa. Ajudar à noite, nem pensar.

E aí temos esse fascinante fenômeno social: a única mulher do planeta que é deixada pra cuidar de um bebê sem nenhuma ajuda é a da classe media, urbana, ocidental. Pior: ela achava que ia conseguir…”

É, pois é. Não moro em mansão nos jardins nem em Copacabana, mas a cena é esta por aqui. Minha mãe trabalha em tempo integral, e eu me orgulho disso. Meu pai e minha madrasta também trabalham em tempo integral – também motivo de orgulho – e têm uma filha de 12 anos que demanda cuidados que, como mãe, conheço bem. Minha irmã uma vez me disse que não é obrigação dela cuidar dos filhos dos outros – o que até entendo, não é mesmo. A madrinha deles tem uma filha de 6 anos, que também demanda bastante. Minha vó tem 94 anos, não dá conta de duas crianças pequenas. E por aí vai. E, para ser justa, eu também não sei o quanto estava a fim de ver alguém da minha família frequentemente dentro da minha casa.

E eu achei que eu ia dar conta. Eu, a escola e nada mais, porque qualquer outra coisa seria sinônimo de fracasso. Eu nunca lamentei porque não tenho ajuda frequente de nenhum familiar, pelo contrário. Eu também acreditava no “quis ter filho? agora assume!”.

Durante minha licença maternidade, eu escolhi não ter uma babá. Na época, eu mal tinha ajuda em casa, apenas uma moça que ia duas vezes por semana. Ou seja, além de cuidar dos dois o dia inteirinho, eu ainda tinha roupas e louças para lavar e coisas para arrumar, porque ela não dava conta de cuidar de uma casa com quatro pessoas – sendo que três delas ficavam ali o dia todo – em apenas dois dias. Depois voltei a trabalhar, eles foram para a escola, a casa não ficava mais em estado de calamidade pública durante a semana e eu achei que tudo na vida estava resolvido. Me enganei. Eu precisei procurar uma pessoa para me ajudar com eles todos os dias, porque buscar na escola todo dia às 19h era humanamente impossível para mim. Essa parte da história já contei por aqui. A verdade é que eu resisti muito. Eu achava que qualquer pessoa que tinha uma babá na vida era uma incompetente ou uma folgada. Eu achava que as mães tinham a obrigação de dar conta do recado – senão eram incompetentes – e a querer dar conta do recado – senão eram folgadas. Eu demorei para reconhecer que eu precisava de ajuda e que eu seria muito mais feliz assim.

Sim, eu sou mais feliz com essa escolha. Em 80% dos dias, chego em casa às 19h, dispenso a babá e cuido dos meus filhos como sempre quis fazer. Mas tem os dias do trânsito, do vôo atrasado, da reunião que demorou um pouco mais, e ela está lá em casa com eles me esperando. Eu nunca mais voltei para casa chorando porque estava atrasada.

Aí um belo dia eu marquei uma consulta em um médico para os dois e pedi que ela fosse comigo. Era no horário de trabalho dela e achei que pudesse ser bom. Não foi só bom. Foi simplesmente a coisa mais sensacional desse mundo, gente. Imagina como era minha vida antes disso, vamos lá: durante a licença maternidade, não tinha escola onde deixar. Ou seja, cada vez que um tinha médico, eu tinha que levar os dois. Alguém presta atenção em alguma outra coisa quando se está encarregada de manter dois bebês vivos? Alguém? Me ensinem como, por favor. Mesmo depois que eles foram para a escola e eu comecei a levar um de cada vez no médico, eu não conseguia prestar atenção. Eles correm, mexem em tudo, querem participar da conversa, querem falar sobre outra coisa, querem brincar com as coisas que estão em cima da mesa. A cena mais comum na minha vida até então era: um médico sentado tentando me explicar a consulta, uma criança correndo e mexendo em tudo e eu em pé no meio do consultório me revezando entre prestar atenção (10% do tempo) e ver o que a criança está fazendo (90%). Nesse dia, eu descobri a maravilha que é sentar na cadeira em frente ao médico e ouvir o que ele está perguntando. Responder o que ele está perguntando. Entender o que ele está explicando. Fazer perguntas sobre o que ele me explicou. Chegar em casa sabendo exatamente o que tenho que fazer com meus filhos. Fazer jus a todos os centavos que pago pelas consultas médicas, basicamente. É lindo.

Aí aconteceu mais uma coisa: o Carnaval 2014. Já contei também: mãe sozinha, duas crianças sem escola durante 5 dias. Eu tinha que preparar todas as refeições deles e a cozinha virava o caos; eles dormiam e eu ia limpar tudo, para ter louças limpas para o dia seguinte. Implorei para meu pai ficar um pouco com eles, mas minha madrasta ficou super doente naqueles dias. Implorei para minha mãe ficar um pouco com eles, nós fomos passear juntos, mas não foi suficiente para meu cansaço físico se resolver. Eu não dei conta. Ponto. No final de semana seguinte, eles foram para a casa do pai e eu fiquei 48 horas deitada, me recuperando de uma gripe gigantesca, repetindo para mim mesma: “não tem problema não dar conta, não tem problema não dar conta, você não é obrigada a dar conta”.

No final de semana em que ficariam comigo novamente, eu chamei a moça que trabalhou em casa durante o ano de 2013 para me dar uma força. Perguntei se ela toparia fazer um bico e ela veio, porque fiquei em pânico de ficar sozinha de novo e surtar, confesso. Queria um apoio moral e alguém que olhasse os dois para eu poder fazer xixi. Desde então, ela vem quase todo sábado e me ajuda muito. Porque sábado à noite era momento de pensamentos suicidas, tá? Eles iam para cama cedo e eu encarava uma cozinha de deusmelivre para termos espaço para o café da manhã no dia seguinte. Eles dormiam tranquilamente em seus quartos e eu jantava sozinha, porque não podia sair e deixar os dois sozinhos no apartamento. A folguista vem no sábado no final do dia e me ajuda nessas duas coisas: ela dá um tapa na cozinha para mim depois que eles jantam e fica aqui no apartamento para eu poder jantar fora depois que coloco os dois para dormir.

Há pouco tempo atrás, se eu lesse esse meu depoimento acima, eu ia julgar essa mãe, ia achar que ela é incompetente, folgada e dondoca (tinha essa também, babá era coisa de dondoca). Eu ia mandar um “onde já se viu levar a babá no médico?” ou um “onde já se viu babá no sábado?”. Hoje essa mãe sou eu: que realmente nem sempre dá conta do recado sozinha, que reconheceu que precisa de ajuda e que teve que apertar o orçamento do lar para ter ajuda.

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Há dois anos

Há dois anos, Isaac e Ruth me escolheram para ser mãe e vieram morar junto comigo. Nesse dia eu deixei de ser uma pessoa sem filhos e virei mãe. Eu morri e renasci nesse dia. Morri, porque nunca mais vou ser quem eu era. Renasci, porque ganhei uma nova vida e tive que reaprender a viver.

Eu era egoísta, no sentido mais literal da palavra. Eu era a pessoa mais importante da minha vida. Tudo que eu fazia era para ME sentir bem: saía quando eu quisesse e para onde eu quisesse, trabalhava até a hora que achava conveniente, gastava dinheiro com as coisas que me deixavam (ou eu achava que) me faziam feliz. Tinha liberdade para ir e vir. Organizava minha rotina do jeito que achava mais bacana para mim mesma: a hora de ir na academia, a hora de sair para ir ao trabalho, a hora de voltar para casa, a hora de comer (ou não comer), a hora de acordar. Queria ser diretora, depois VP, depois CEO de empresa, porque estava na hora de investir na carreira.

Como mãe, eu me preciso me adaptar o tempo todo em minha própria vida. Eu quero que eles estejam felizes, que tenham todas as coisas que precisam, que tenham saúde, que sejam educados, que brinquem bastante. Eles têm seus horários para acordar, dormir, comer, ir para escola, voltar da escola e eu preciso respeitar. Monto meus horários só depois de organizar as coisas que eles vão fazer. Só tomo banho, janto, volto a trabalhar ou vou fazer qualquer coisa que gosto de fazer quando eles vão dormir. É difícil encontrar tempo para malhar. Se acontece qualquer coisa inesperada com eles (um dodói, uma ligação na escola, algum comportamento diferente) paro tudo o que estou fazendo para atendê-los. Saio do trabalho todos os dias apressada, porque quero chegar em casa o mais rápido possível para ficar com os dois. Depois fico em casa de vigia, zelando o sono deles. Acordo todo dia no mesmo horário porque eles têm hora certa para ir para a escola. Não posso aceitar convites para um HH depois do trabalho, porque meus filhos me esperam em casa. Por que você não os deixa dormir com a babá? Porque sou eu quem os coloca todos os dias na cama, não abro mão, faço questão.

Como mãe, mudei o jeito como encaro minha carreira. Hoje sou diretora, por acaso, mas o mais importante hoje é realmente me divertir no trabalho, senão não vale a pena passar o dia todo longe deles. Não faço coisa chata e sem sentido, não fico até tarde no escritório e não perco tempo com cafés demorados ou bobagens na internet porque preciso ser muito produtiva nas (só e somente só) 8 ou 9 horas que tenho por lá.

Passei a ter mais medo. Tenho medo de morrer e deixá-los sem mamãe. Tenho medo de que não sejam felizes, tenho medo de errar na educação, tenho medo de não ser boa mãe.

Quando virei mãe, ganhei muito mais amor. O meu e o deles. Aprendi a ter família, a pensar sempre em três, a chegar em casa e encontrar luzes acesas, bagunça e amor. Aprendi a ter pessoas dependendo de mim, precisando de mim, me querendo por perto e a achar isso muito legal. Aprendi a amar, a me dedicar, a cuidar de alguém.

Nunca mais serei só eu. Eu sou três. Ruri + Isaac + Ruth.

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Desabafo I

Estamos passando por uma fase do cão. Em geral, sou bem sensível para entender os problemas dos meus filhos e ajudá-los a resolver. Desta vez, não sei. Não sei se foi porque tiramos férias juntos pela primeira vez e depois voltaram para a realidade, não sei se a rotina na escola está muito diferente sem a professora e os amigos que estão de férias ainda, não sei se foi porque mudei a mesinha de brinquedos do lugar, não sei se estou diferente, não sei se é o frio, não sei. Só sei que não sei o que fazer.

Eles estão muito bagunçados e agitados há algumas semanas. Do tipo que faz todo mundo que convive com eles comentar alguma coisa do tipo “nossa, eles não param”. Eles chegam em casa e destroem. Meu filho vai pra fono e a moça fica louca. Berram na perua. Deixei um dia em casa com minha mãe por uma hora e, quando voltei, ela estava de goleira na frente do móvel da TV para que eles não mexessem em mais nada. Deram para colocar mão na comida, fazer xixi na roupa de propósito, abrir meus armários e muitas outras coisas claramente irritantes.

Tá. Eu consigo enxergar que estou exagerando. Não é que está tudo tão mal assim o tempo todo. Não. Temos lindos momentos de muito amor e obediência. Mas a fase está mais caótica que o normal.

Aí eu me dei conta que eu tenho mais medo de assustar as pessoas que convivem com a gente do que efetivamente de ter que lidar com as birras. Tenho medo que um dia a tia da perua me diga que não aceita mais os dois. Tenho medo que a escola me diga que assim não dá mais, que só posso matricular um no próximo ano. Tenho medo que ninguém mais queira frequentar a nossa casa, porque isso aqui parece uma escola de samba no Anhembi. Tenho medo de não receber mais convites para sair com eles. Tenho muito medo que eles percebam que as pessoas não dão conta e se chateiem ou que se afastem de pessoas de quem eles gostam.

Aí eu fico me perguntando se nós realmente já não assustamos as pessoas. Desculpam, filhotes, eu fico. Eu me pergunto quantas vezes recebo convites para ir à casa de alguém com eles versus quantas vezes em convido para fazer isso. Eu diria que em 95% dos casos, eu me convido, e isto me assusta. Me dei conta de que eles nunca receberam um convite para passear com ninguém. Nem nunca receberam convite para brincar na casa de um amiguinho (o que pode ser culpa minha, já que a mãe também precisa ser legal para que a outra mãe queira iniciar uma amizade materna). Me dei conta também que eu mesma tenho preguiça antecipada de interações sociais. Por exemplo: descobri hoje um restaurante vegetariano e orgânico bacana e pensei em almoçar com eles lá nesse final de semana. Mas imediatamente fiquei me perguntando se eles vão correr pelo lugar, se vão mexer em tudo, se vão comer com as mãos, como é que vou fazer para levar um no banheiro enquanto o outro está aprontando alguma coisa e não sei se vou. Outro exemplo: comprei ingressos para uma peça de teatro amanhã e também estou sofrendo por antecedência porque é sempre caos. Eles não ficam do meu lado, se penduram em tudo, mexem mas coisas dos outros e só tenho duas mãos. Mais um exemplo: levei os dois no Simba Safári outro dia e eles fizeram tanta confusão no carro durante a ida (brigaram, tiraram sapatos e meias e jogaram no chão, choraram) que fiz o percurso todo até o local me arrependendo amargamente por ter saído de casa com eles e quase voltei. Durante o passeio nos divertimos muito, foi realmente legal. Mas na volta estavam cansados, com fome e frustrados com o fim do dia e eu lamentei tudo de novo. Só mais um exemplo: meu novo chefe sugeriu que eu levasse meus filhos um dia para conhecer o escritório e os colegas e eu pensei: “HAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAH tá doido?”.

“Gêmeos de 3 anos” é uma coisa assustadora, entendo. Uma criança mais uma criança igual a umas cinco crianças. É difícil. E, principalmente, solitário. Solitário pra mim, porque sou a mãe e fico aqui na sexta à noite conversando sobre maternidade com meu iPad porque não sei o que fazer/ como lidar/ qual o problema. Solitário para eles, porque eles deixam de fazer muitas coisas divertidas porque é muito assustador cuidar dos dois.

Antes que eu receba xingamentos e protestos, eu amo meus filhos, tá? Cuido muito bem, trato muito bem, me esforço para ser paciente e vou dedicar minha vida toda aos dois. Se alguém achar que é uma piração de uma pessoa despreparada para a função de mãe, dois brigadeirinhos estarão à disposição para qualquer convite para passeios nesse final de semana, para uma aula experimental. Mas só vale se levar só os dois, para ver como é. É só ligar.

PS: se de uma hora para outra começarmos a receber mais convites, quero deixar bem claro que não tentei dar indireta para ninguém. Mas meus bebês desconhecem a existência de um blog e ficarão genuinamente felizes com isso, ok?

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No escuro

Agora ela inventou essa: assim que apago a luz para dormir, vem o escândalo. “Fica aqui, dorme aqui, não vai embora, não me deixa, buááááá”.

Só que é assim. Ela está alimentada, de banho tomado, de pijama quentinho, deitada em sua caminha, enquanto eu estou com fome, com vontade de fazer xixi (tem que fazer saindo do trabalho, Ruri), morrendo de frio porque estou de shorts e descalça (dei banho e não deu tempo de me trocar), cansada, descabelada.

Eu estava em pé no quarto dela, ao lado da cama, no breu, tentando conversar, avisando que era hora de dormir e que não dava mais para ficar ali, fazendo força para não perder a paciência, e ela berrando berrando berrando. Trancar no escuro chorando, não gosto, não. Dei um passo para trás na direção da porta e ela não podia ver, continuou berrando. Alcancei o interruptor. Acendi a luz.

Cara.

Que ódio.

No momento em que a luz acendeu, fiquei cara a cara com uma menina com cara de gargalhada, imitando um choro, se contorcendo para não dar na cara que estava rindo de mim. Nem disfarçou, começou a rir de verdade.

Gata, hoje você não iria conseguir entender a história do menino que fingia se afogar no lago, então não te contei. Mas é isso aí. Não vem tentando manipular, não, que quando você nasceu eu já tinha vivido 30 anos.

Humpft.

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Falta de individualidade

Eu estava só com meu filho em um taxi indo para a fono, e ele me diz:

– Mamãe, a gente quer ir no parque.

– A gente, quem?

– Eu e a Ruth.

– Mas a Ruth nem está aqui, como você sabe que ela quer ir ao parque?

– …

Outro dia, meu filho tomou uma bronca por um coisa que ELE aprontou sozinho, sem participação da irmã, e começou dar chilique:

– Tô bravo porque você me deu bronca! Vou embora daqui junto com a Ruth!

– Mas por que você vai com ela? Só você está bravo, não é melhor ir sozinho?

– …

Minha filha também parte da premissa que ela e o irmão são um organismo único, como se ainda dividissem o mesmo útero, só não me lembrei de nenhum exemplo agora.

Buscar com que cada um dos filhos gêmeos entenda que eles são seres individuais tem sido muito difícil. Algumas coisas óbvias eu já fiz: separei os quartos, separei as classes na escola. Mas idade igual força os dois a terem rotinas e tratamentos e interações totalmente iguais, e acho que isso dificulta esse processo.

Um amigo me disse que estou sendo ingênua e que na verdade eles estão organizando uma luta armada contra mim. Acho que não. Ainda. Não duvido que eles logo percebam que são dois contra um. De qualquer forma, um problema de cada vez. Quero antes ter certeza que eles entenderam o conceito de “individualidade”. Depois luto contra o movimento organizado.

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Hora de dormir

Eu estava há 20 minutos no quarto da minha filha, no escuro, tentando me desvencilhar dela para que ela pudesse dormir e para que eu pudesse fazer outras coisas. E ela num “só mais um beijinho, só mais um carinho, dorme aqui comigo” infinito. Até que eu implorei:

– Filha, vamos dormir, você na sua cama e eu na minha cama. Mamãe está muito cansada, preciso ir dormir lá no meu quarto.

– Tá, mas não vai dormir sem tomar banho, que você tá fedida.

Notas para mim mesma: 1) fica tranqüila, que se você estivesse realmente fedida, ela não ia te abraçar e deixar você deitar na cama dela, 2) pára de dizer que está na hora do banho porque eles estão fedidos que uma hora isso vai ser usado contra você em público.

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Dor de barriga

Entro no quarto de manhã e encontro minha filha sentada na cama.

– Mamãe, eu tava com dor de barriga e você não veio antes.

Aquela dor no coração: – Filha, a mamãe estava tomando banho e acho que não ouvi. Me perdoa. Da próxima vez, grita “mamãe” bem alto que venho, tá?

– Eu não chamei “mamãe”. Eu cantei.

– Você cantou pra me avisar que estava com dor de barriga? Cantou o quê?

– Cantei assim: “cai, cai, balão, cai, cai, balão, aqui na minha mão”.

Vontade de rir: – Você cantou “cai, cai, balão” pra me avisar que estava com dor de barriga?

– É! – cara de “que coisa mais óbvia, mãe”.

Adoro ter filhos.

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