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A mãe no trem

Eu acordei quase chegando na estação, completamente zonza de sono, e vi que nas poltronas ao lado estavam uma mãe e duas crianças pequenas, menores que os meus. Sei lá de onde surgiu esse meu radar de mãe solteira e não tirei os olhos dela até achar algum parente ou amigo que fosse ajudá-la a descer na estação, mas ela realmente estava sozinha.

Eu pus meu casaco e a mochila nas costas e comecei a entrar num pânico pelo tanto de coisa que ela ainda tinha que fazer: colocar o casaco dela e das duas crianças, colocar a criança menor no sling, pegar duas malas que estavam acima da poltrona, pegas algumas sacolas que ela tava carregando e descer com tudo isso naqueles três minutos em que o trem fica na estação.

Mano do céu, desculpa, moça, mas eu não conseguia tirar os olhos de você. Era muita coisa para uma mãe ter que fazer sozinha e a gente realmente estava chegando na estação e teria só três minutos pra sair de lá de dentro.

Aí eu fui até lá e me ofereci para prender o sling. Me ofereci falando inglês porque meu espanhol é horroroso e a moça respondeu em espanhol que tava tudo bem, mas eu sei que não estava não. Porque quando eu prendi o sling nas costas e o bebê ficou na frente dela, ela não conseguiu mais ajudar a outra criança a colocar o casaco, e a criança não conseguia vestir um casacão de inverno sozinha – às vezes nem eu consigo – e eu fui colocar o casaco nela. E aí me deu um medo de esta criança correr, ou ficar pra trás, ou sei lá, e eu disse pra moça levar as crianças que eu ia carregar todas as coisas dela pra fora do trem. E eu só sosseguei quando deixei os três e todas as coisas lá fora e vi que ela conseguiria seguir sozinha.

Não sei se fiz isso por ela ou por mim, que tantas vezes me vi sobrecarregada sozinha com duas crianças pequenas. Foi como se eu me visse ali e pensasse que seria muito bom ter alguém pra me ajudar.

Olha, moça, eu sei que você não entendeu muito bem meu pânico e eu não estava te achando incapaz de fazer tudo sozinha. Eu sei que você faria. Mas eu estava com minhas duas mãos livres sem os meus filhos e precisava dividi-las com você. Porque nós somos mães e tamo juntas. Feliz ano para vocês três!

Happier than ever ou obrigada, 2016!

2016 começou mal e eu vivi os piores meses da minha vida inteira até agosto. Mas a verdade é que a vida já vinha difícil nos dois anos anteriores, com muitas peças fora do lugar. Aí eu passei oito meses lamentando 2016 como todo mundo, por todas as separações, tragédias, golpes, doenças e coisas esquisitas que aconteceram comigo e com o mundo.

E aí setembro chegou junto com a primavera e os astros se alinharam e o universo conspirou a meu favor e de repente eu tive a vida que eu sempre quis ter: feliz de verdade. Sem nada fora do lugar. Sem nada me incomodando ou me chateando. Só com coisas boas.

Meus filhos estão na melhor fase possível. Tô adorando ter criança mais velha, cinco anos é uma idade linda e acho que daqui pra frente só vai melhorar até chegar a adolescência. Eles estão companheiros, divertidos, curtindo uns programas mais legais, aventureiros e fáceis. Passou aquele stress de correr de mim, de mexer em tudo, de se jogar no chão no meio da rua, de eu ter preguiça de sair com eles. Tá muito divertido, meus pequenos. E ser mãe de criança de 5 anos aos 35 é bom demais, porque eu me sinto ótima para curtir o resto da minha vida e já dei check no projeto maternidade da minha vida. Daqui pra frente é só curtir.

Eu e o pai deles também estamos na melhor fase desde a separação e a guarda compartilhada foi a melhor coisa que inventamos para esta família. Todos os quatros saímos ganhando – as crianças principalmente – e nosso relacionamento de pais separados nunca esteve tão bom. E essa nova dinâmica de dividir bem o tempo das crianças com o pai e com a mãe faz com que nós dois tenhamos bastante participação na vida deles e também bastante tempo para cuidar do trabalho e das baladas.

Ter mais tempo para cuidar do trabalho também me ajudou a finalmente encontrar um modelo perfeito para conciliar consultoria com doutorado com maternidade e eu encontrei os melhores parceiros de trabalho nos últimos meses. E, por sorte, trabalhei com uma equipe no cliente que era divertida demais e senti diariamente um prazer por sair cedo de casa e ir para o escritório que eu não sentia há mais de três anos. E agora eu sou oficialmente doutoranda e pude escolher a faculdade que quero fazer e tô feliz da vida que vou voltar a ser estudante ano que vem.

E, apesar de ter mais tempo, eu também aprendi neste ano que tempo é um recurso finito, escasso e não renovável e não usar bem nosso tempo é o pior negócio do mundo. Eu aprendi que tempo é uma das coisas mais maravilhosas que nós temos e passei a cuidar bem do meu tempo e a usar bem meu tempo para o que me faz feliz. Não faço coisas que não gosto ou que não me dão prazer. Dou meu tempo para as pessoas que importam. Organizo bem o tempo de trabalhar, de estudar, de ficar com Isaac e Ruth, de fazer esportes e de fazer coisas que me divertem. Acho que fui em mais shows, peças, filmes e exposições nos últimos quatro meses que nos últimos quatros anos. E decidi que não ter companhia nunca mais vai ser motivo para não fazer alguma coisa que quero muito porque ou eu vou sozinha ou eu vou fazer novos amigos com os mesmos hobbies. E essas duas coisas funcionam que é uma beleza.

Falando em amigos, vou escrever um parágrafo bem sentimental porque eu confirmei este ano que eu tenho os melhores amigos dessa vida. Passei por coisas super chatas que alteraram meu humor e minhas emoções, que me deixaram um tempo com dores e com limitações e eu precisava de ajuda pra tudo e que me deixaram amarga e eu tive meus amigos por perto o tempo todo. Bem perto. E a maior prova de amor que recebi de todos eles foi que eu não sou só legal quando estou empolgada para sair, mas também quando estou reclamando e chorando e não conseguindo me mexer direito. Minha vida não teve essa de ah-os-amigos-se-afastam-quando-estamos-com-problemas porque meus melhores amigos ficaram o tempo comigo e estão aqui comigo até hoje e é por isso que nunca fui tão feliz, porque nunca senti tanto amor.

Amanhã é nosso primeiro dia de férias e eu estava precisando muito tirar férias depois desse ano que passou, principalmente porque eu só consegui sair de férias no dia 22 de dezembro porque literalmente o ano parecia não acabar nunca mais. Mas parei de ser injusta com 2016 e de ficar dizendo que só me aconteceram coisas ruins porque não é verdade. O ano foi incrível. Nunca aprendi tanto, nunca cresci tanto e nunca me senti tão bem como me sinto agora. 2017 vai ser melhor ainda porque estou deixando todas as coisas ruins em 2016 e começando um ano com tudo zerado. R.I.P. 2016, obrigada por tudo e feliz ano novo!

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A individualidade, a escola e o adestramento

Nas férias de julho, a ex-babá dos dois, com quem ainda mantenho contato e tenho super carinho, os convidou para passar dois dias na casa dela no meio da semana. Eu estava trabalhando como doida e não estava dando nenhuma atenção direito para eles e topei. Levei os porqueiras numa terça de manhã e fui buscar no dia seguinte final da tarde e eles adoraram.

Eu estava toda atrapalhada de trabalhos, mas terça à noite sem filhos na vida de uma mãe solteira é raridade e eu resolvi sair. É obrigação de toda mãe ir pra balada quando os filhos dormem fora, não importa se é terça ou se você está toda cheia de coisas para fazer.

Eu disse balada.

Vocês me imaginaram dançando em cima de um balcão com um salto imenso até amanhecer.

Mas na verdade eu estava sentada em um bar tomando drinks e comendo frituras e voltei dormindo no Uber à meia-noite para casa.

Quando cheguei no prédio, já tomei uma bronca do porteiro porque meu cachorro estava latindo e uivando ininterruptamente pelas últimas cinco horas e ele já tinha recebido oitocentas e quarenta e sete reclamações dos vizinhos. No dia seguinte, mais uma bronca do síndico, seguida de uma multa bem salgada. E mais o aviso de que cada multa recebida pelo mesmo motivo viria com o dobro do valor e assim  sucessivamente, então se o Ernesto continuasse a latir eu rapidamente iria gastar mais dinheiro em multas que no aluguel.

Conversei, pedi desculpas pelo comportamento dele e avisei que eu iria contratar um adestrador com urgência. Contratei um adestrador, eu fui adestrada duas vezes por semana para conseguir sair de casa e deixar o cachorro calmo e tranquilo, Ernesto passou a ter o comportamento esperado pelos vizinhos e não tive mais problemas.

Fim.

Por que estou contando essa história?

Porque as escolas tratam as crianças como cachorros.

– Nossa, que horror!

Mas é.

Cansei de ser chamada na escola para ter conversas sobre como o comportamento dos meus filhos estava inadequado e cansei de ouvir recomendações para procurar “ajuda profissional”. Psicóloga, no caso. Porque a escola acha que a gente adestra os filhos levando em uma psicóloga, que é um profissional capaz de moldar o comportamento da criança. A escola entende que, uma vez que a criança não tem o comportamento que ela espera, ela vira um problema a ser resolvido por um profissional especializado em comportamento em massa.

Não estou criticando o trabalho de psicólogos, pelo contrário, meus filhos fazem terapia há bastante tempo e acho ótimo. Estou relatando que aprendi no último ano que, tão importante quanto linha pedagógica, sistema de ensino, espaço físico, localização, preço, alimentação saudável e todos aqueles itens do check list que levamos quando visitamos uma escola, é a postura da escola diante das questões individuais de cada criança.

Em suma: fujam de escolas que busquem massificar as crianças, que não respeitem o indivíduo e que as tratem como cachorros que precisam de adestramento. É difícil de acreditar, mas passamos por uma escola assim este ano e foi uma experiência horrorosa. Cada criança é uma criança, com suas vontades, limitações, timing, emoções, frustrações, e escola bacana é aquela que sabe respeitar a individualidade.

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As duas vezes em que me senti a pior mãe do mundo

História 1

Era uma sexta-feira e dia de ficar com o pai, que buscaria direto na escola. Mas próximo ao horário de a escola fechar, o pai me liga:

– Atrasei, tô num super trânsito, se você estiver por perto, dá para pegar as crianças na escola que vai fechar e eu passo na sua casa e pego daqui uns minutos?

– Dá. – eu estava em casa, perto da escola, e fui.

Quando me viu, Isaac estranhou, perguntou pelo pai, eu expliquei a história acima.

– Vamos para casa esperar o papai que já já ele chega para pegar vocês.

– Não quero ir para casa do meu pai. Quero ficar esta noite com você, mãe.

– Ah, Isaac, hoje não vai dar. Já estava combinado que era dia de ficar com papai e a mamãe vai num show.

– Eu vou junto.

– Não, não vai dar para você ir junto. É um show que não aceita crianças e eu também não comprei ingresso para você, só para mim.

Aí ele começa a chorar sentido, com lágrimas caindo loucamente molhando toda a camiseta, e a gritar bem alto NO MEIO DA RUA:

– VOCÊ NÃO ME AMA MAIS! VOCÊ NÃO DEIXA MAIS EU MORAR NA NOSSA CASA! VOCÊ SÓ PENSA EM IR PRA BALADA E ME DEIXAR POR AÍ! VOCÊ NÃO ME AMA MAIS!

Isaac, sorry, mamãe te ama, mas Alceu, Geraldo e Elba estavam me esperando.

História 2:

Já estávamos quase chegando na escola, eu, eles e o cachorro, puxado pelo Isaac. Aí eles pediram para dar uma corrida de uns 30 metros até o portão da escola e eu fiquei pra trás. Só que Isaac soltou a coleira do cachorro, aquele mesmo cachorro que me acompanha em corridas matinais de 7-8k, e que quando viu a liberdade partiu em disparada sem pensar no amanhã.

Eu gritei: CORRAM ATRÁS DO ERNESTO QUE ELE TÁ FUGINDO!!

Nenhum dos dois se mexeu. Não sei o que deu neles que ficaram olhando o cachorro fugir completamente travados. Aí eu que tive que correr. Larguei tudo o que eu estava carregando no chão e saí a uns 15 km/h em direção ao cachorro, que seguia galopando alegremente. Quando passei pelos dois, a Ruth grita bem alto para toda a vizinhança ouvir, chorando:

– NÃO, MAMÃE, VOLTA AQUI, NÃO FOGE DA GENTE, NÃO LARGA A GENTE, EU TE AMOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!

Mano. Me esforço o ano inteiro para ser legal, e os dois resolvem gritar no meio da rua que eu abandono e que só penso em balada? Assim não vai rolar.

 

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Acampamento, festa do pijama ou sábado do pânico

Aí veio o aviso sobre o acampamento da escola numa sexta à noite e eu logo pensei: “obaaaaaaaa vale night, balada extraaaaaa”. Paguei a taxa, os dois ficaram super ansiosos, eu fiquei toda animada.

Começa às 20h na sexta e tem um programação intensa, com caça ao tesouro, festa do pijama, pizzada, baile, gincana. Vai madrugada a dentro, pensei, eles lá, eu por aí. Aí vi a última linha: “senhores pais, favor buscar até 7h no sábado”.

SETE? Mai que catso de vale night é esse que me faz acordar às 6h no dia seguinte? Aí pensa. Aqueles dois seres que brincaram a noite toda vão acordar que horas pra tomar café e estarem prontos pra eu buscar às 7h, umas 5h da matina? Que delícia de sábado eu vou ter com duas crianças que não dormiram nem 5 horas na noite anterior, né? Affff.

Aí eu li no rodapé: “os pais que não vierem até 7h pagarão multa pelas horas extras de funcionários do colégio”. Tô quase ligando lá e já negociando pagar a multa e taxa de almoço junto, será que rola?

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Cadê aquela emoção que tava aqui?

– Oi, tudo bem, vamos fazer alguma coisa amanhã?

– Ah, puxa, amanhã tô com meus filhos.

– Uai, leva eles!

Gente, que fase.

Tô até estranhando cada vez que alguém me pergunta “e o Isaac e a Ruth, como estão?” e, em vez de contar que eles puseram fogo na escola, deixaram o outro careca (não, pera, isso quem faz sou eu), bateram no amigo, quebraram móveis da casa, eu respondo “estão ótimos, lindos, companheiros, nunca estivemos melhor”.

Parece que foi de uma hora para outra que eu perdi aquele medo e aquela preguiça de fazer coisas com eles e passei a incluí-los em tudo o que quero fazer. Agora a gente vai em shows, em exposições, saímos para jantar fora, almoçamos na casa de amigos, até em bar com show de jazz levei os dois e foi lindo. O melhor show que vi este ano foi com os dois, um de cada lado. E eles amaram. Decoraram músicas, cantaram junto, gente, que coisa linda esta vida adulta ao lado de crianças.

Não tem mais aquela emoção de achar que eles vão mexer em tudo ou sair correndo. Não mexem. Não saem correndo. Eles levam os brinquedos e coisas para desenhar e ficam de boa, sentados, conversando. Eu sabia que dar uma tacinha de vinho por dia para cada um ia ser ótimo, sabia.

Não tenho mais preguiça de sair. Outro dia estávamos voltando de um passeio e eu resolvi entrar em um shopping com eles porque precisava comprar uma coisa PARA MIM e não tive vontade de me matar enquanto escolhia e pagava. Eles ficaram do meu lado esperando. Semana passada eu fui ainda mais ousada: busquei na escola e levei os dois comigo para fazer depilação. Foi aquela semana que eu queria depilar, mas não tinha horário que encaixasse sem eles, então fui com eles mesmo. Entrei na salinha, tranquei a porta e fiquei lá deitada estressada imaginando os dois abrindo todos os esmaltes, comendo todas as bolachinhas que acompanham o café, rasgando revistas, pulando na poltrona. Fiquei mega tensa prestando atenção em todos os barulhos que vinham lá de fora e, quando saí, Isaac estava deitado no chão desenhando e a Ruth estava sentada no sofá vendo TV. NUM MEGA SILÊNCIO. SEM BRIGAR. SEM DESTRUIR. SEM CORRER. SEM CHORAR.

No último almoço de família, lá pelas 16h, minha mãe comentou: “que estranho esse silêncio, já estamos quase indo embora e ninguém chorou”. Pois é, mãe. Um desses dias eu deixei os dois na casa da minha vó de 96 anos, junto com meu padrinho de 60 que nunca tinha ficado sozinho com uma criança, e quando voltei os quatro estavam sentados na sala conversando. Não entendi nada. Não sei em que momento ficou tão simples.

Só queria mandar aquele abraço pra quem tá sofrendo com criança pequena porque sei bem como é que é. Ah, se sei. Mas também só queria saber que existe vida após os cinco anos. Fica lindo, gente. De repente aquelas criaturinhas que ficavam derrubando arroz no chão do restaurante e pedindo pra fazer coco em lugares onde não havia banheiro viram uns amigos incríveis, é só esperar para ver!

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Menos controle, mais tempo, mais amor

Quando me separei do pai dos meus filhos, nós fizemos um acordo que era muito comum, igual ao de muitos amigos e conhecidos nossos: a guarda das crianças ficou comigo, o que significa que elas moravam comigo e ficavam comigo a maior parte do tempo, e o pai as visitava aos finais de semana e uma noite por semana.

A gente entendeu que era melhor para as crianças dessa forma e realmente foi bom para elas. Eu morei mais um ano e meio no apartamento em que vivíamos os quatros juntos, então eles praticamente não mudaram a rotina neste período. Eu também achava que era bom ter a mãe por perto na maior parte do tempo. Na verdade, inconscientemente, eu também achava que eles eram meus filhos, então só eu saberia cuidar deles e tudo deveria estar sob meu controle. Então encarei a vida de mãe solo e assumi tudo o que viesse pela frente, a.k.a. toda a responsabilidade e todo o stress. Muito stress. Mas eu achava que era um super-herói e pronto. O pai sempre foi presente, mas eu sempre achei que daria conta de absolutamente tudo sozinha se precisasse porque eu era boa demais, claro.

Aí o câncer fez minha vida virar de ponta-cabeça, não sem antes dar quatro mortais e cair de costas no chão algumas vezes e quebrar vários ossos. A primeira pessoa para quem eu liguei após receber meu diagnóstico foi o pai dos meus filhos (sorry, mãe, sorry, pai, sorry, Manu). Não foi uma ligação de AI MEU DEUS VOU MORRER VOLTE PARA OS MEUS BRAÇOS QUE NÃO SEI VIVER SEM VOCÊ. Na verdade, a primeira coisa que me veio à cabeça quando soube que tinha câncer foi um GZUIZ COMO EU VOU SER UMA MÃE COM CANCÊR? e eu liguei para ele para contar. E a partir deste dia ele ficou cada vez mais presente em nossas vidas, na nossa casa e realmente me ajudou e me apoiou muito nesta coisa chata que é ter câncer. E não foi só por ele ter realmente se preocupado, ter perguntando exatamente o que estava acontecendo e por ter aparecido em casa no dia seguinte para dizer que queria me ajudar. Ele pegou a parte mais importante desta coisa toda, que era deixar Isaac e Ruth bem para eu poder me cuidar.

Eu me surpreendi muito porque meus filhos viveram tranquilamente durante quatro semanas enquanto eu pirei. Eu realmente não me envolvi em nada do que acontecia no dia-a-dia deles neste período e tudo correu bem. Eu, no fundo, achava que ia dar tudo muito errado, porque eu sou extremamente necessária em tudo o que diz respeito a meus filhos.Eu achava que o pai ia aparecer chorando aqui em casa com os dois mergulhado em desespero. Não, Ruri. Primeiro veio aquele balde de água fria de “não, não é só você que sabe fazer as coisas direito”. Depois percebi que muitas coisas estavam melhores que antes. Por fim me peguei pensando nesta dinâmica toda que temos na nossa família.

Sim, ser amiga de ex é missão impossível que só aquelas almas evoluídas e livres de raiva-culpa-saudade-vontade-de-matar-inveja-ciúmes-loucura-desprezo sabem fazer. Mas não era apenas uma questão de ser ou não ser amiga do ex: o pai dos meus filhos deveria ser o meu melhor amigo, porque estamos juntos na missão mais importante de nossas vidas, que é criar nossos filhos. Então ele deveria ser não apenas um amigo, mas um grande amigo, um mega amigo.

Mano do céu, como eu me surpreendi com tanta clareza e maturidade. Obrigada, câncer.

Depois de muitas conversas, nós partimos agora para uma guarda compartilhada das crianças. Eu, ex-pessoa controladora, achava que guarda compartilhada era coisa de gente tentando roubar meus filhos de mim e tentando meter o bedelho no que eu estava fazendo, e eu era orgulhosa demais para permitir isso, afinal de contas ninguém poderia ser tão bom quanto eu. Era tanta vontade de controlar que eu nunca tinha parado para pensar em como é bom que meus filhos convivam mais tempo com o pai.

Metade da semana com cada um, é assim que vai ser daqui para frente. Para o pai, um tempo maior para curtir os filhos. Para as crianças, o pai bem mais presente no dia-a-dia. Para mim, um parceiro para compartilhar as dores e as delícias dessa história toda, um tiquinho menos de stress porque não acho mais que tenho que carregar tudo isso sozinha e mais tempo para mim. Tempo, gente, tudo o que eu mais gosto nessa vida. Ou seja, uma família bem mais feliz.

PS: só para esclarecer, quando eu digo “obrigada, câncer” nunca-jamais-de-forma-alguma estou agradecendo por ter tido câncer. Eu preferia não ter tido câncer e seguir vivendo na minha imaturidade e na minha mania de controle. Mas, como não pude escolher ter ou não ter câncer e o dito-cujo entrou na minha vida sem ser convidado, eu escolhi aprender com ele.

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Mais que um câncer

Minha vida entrou em um hiato no último mês, como se eu parasse tudo o que eu vivia para viver algo que eu não queria viver.

Eu tenho bastante histórico de câncer na família, então eu sempre tive no radar alguns tipos de câncer que eu poderia ter um dia e acompanhava essas coisas. Câncer de mama nunca esteve no radar e eu fui diagnosticada com câncer de mama aos 35 anos, bem no ano mais cagado de toda minha vida. Meu ano de 2016 já estava todo cagado e eu descobri um câncer no meio do ano, que me fez morrer de medo de ainda viver os quatro meses que vinham pela frente.

Ninguém quer ter câncer porque o câncer simplesmente não se encaixa na vida de ninguém. Ele estava errado na minha vida, não tinha lugar para ele. Primeiro, porque eu nunca quis colocar prótese mamária, eu adorava meus seios do jeitinho que eles eram. Nunca cogitei na minha vida uma cirurgia nos seios, ainda mais uma cirurgia forçada, que não necessariamente me deixaria mais bonita. Quando as enfermeiras vieram me buscar para ir para o centro cirúrgico, eu desci chorando na maca e só pensava em como assim tantas mulheres entravam em cirurgias nas duas mamas ao mesmo tempo por livre e espontânea vontade. Outra coisa é que eu tinha feito um corte diferente no cabelo há uns dois meses e estava feliz como nunca com ele, pensando em refazer as luzes, e ia gastar uma nota com isso. E aí eu comecei a me perguntar se minha mãe ainda tinha a peruca dela e se algum dos meus lenços serviria para cobrir a cabeça toda ou se eu já deveria comprar alguns. Também fiquei pensando se minha cabelereira toparia vir em casa para raspar, para eu não ter que chorar copiosamente ao ficar careca no salão. Eu estava me preparando para o processo seletivo do doutorado, dando aulas, assistindo aulas, estava no meio de uma proposta para um projeto de consultoria, não tinha planos de tirar férias forçadas para ficar de molho em casa me recuperando de cirurgia e tratamento. Nem em julho eu tinha conseguido tirar férias para me divertir, que dirá parar tudo em setembro para ficar doente. Eu estava feliz como nunca com meu corpo, malhando bastante há um ano e meio, estava magra, sarada, feliz com o que via no espelho, aí eu comecei a pensar em meses sem poder fazer ginástica direito, sem correr com meu cachorro, sem andar de bicicleta, sem jogar tênis. Fora os planos e os sonhos que ficaram on hold: duas viagens adiadas, alguns ingressos já comprados, as próximas férias, o plano de estudar fora, um monte de coisas que eu não sabia se ia poder fazer.

Foi foda. Receber um diagnóstico horroroso, depois continuar investigando mais um pouco para entender o tamanho do problema e descobrir coisas mais horrorosas, ficar escutando alternativas dos médicos que eram todas ruins e ficar torcendo para cair no quadro menos pior foi bem foda.

Fiquei bem de mal com meu corpo, como se ele tivesse me traído, como se ele não tivesse o direito de ficar doente. Eu sempre sempre sempre cuidei muito bem do meu corpo e me senti traída. Justo eu, que nunca fui sedentária, que pratico exercícios físicos quase diariamente, que nunca estive acima do peso, que prefiro orgânicos, que não como carne, que não ponho na boca refrigerante, macarrão instantâneo, nuggets, bolachas recheadas e coisas com glutamato monossódico há anos, que não fumo, que não uso adoçante, que durmo bem, que não tiro as cutículas, que quase não tomo sol e sempre com protetor 60, que faço o check-up anual sempre em dia. Meu corpo não tinha o direito de fazer isso comigo.

Nunca tive medo de morrer, porque morrer parece ser fácil. Meu medo era viver mal, viver doente, viver com medo, viver com limitações. Eu já estava passando por um período não muito bom, daqueles que nos deixa descontentes com a vida pessoal, com a carreira e com todas as decisões que já tomamos. Mas, de uma hora para a outra, minha vida, minha casa, meus trabalhos, meus amigos, meus filhos e todas as coisas que gosto de fazer voltaram a ser incríveis e fantásticas e eu só queria viver tudo aquilo da melhor forma.

Tudo o que eu ouvia sobre câncer de mama me deixava irritada. Uma das grandes irritações eram panfletos e sites dizendo que não ter engravidado até os 35 anos aumentava o risco de câncer de mama. Como se fosse culpa minha, porque eu resolvi por livre e espontânea vontade adotar. Como se todas as mulheres devessem escolher engravidar antes dos 35 para diminuir este risco, da mesma forma que se recomenda não fumar, tomar dois litros de água por dia ou cuidar bem da alimentação. Como se engravidar não gerasse uma vida, não tornasse a mulher uma mãe, algo que ela precisar querer e tem o direito de não querer. Como se para engravidar a mulher não precisasse de um homem participando do processo ou de um tratamento de fertilização. Não estou questionando se isto está estatisticamente ou cientificamente correto ou não, mas é o tipo de informação que não ajuda em nada. Principalmente porque um dos questionamentos que os médicos fizeram sobre meu caso é se não era uma questão genética e aí eu deveria ficar feliz por não ter passado isso para a Ruth? Ah, meu.

Eu me deixei ficar triste por isso e chorar muito. Chorar porque descobri que tenho câncer me pareceu genuíno desde o começo, como se não fizesse sentido não chorar por uma coisa dessas. Eu chorei todos os dias desde que soube e também alguns dias antes de saber, entre marcar a biópsia, fazer a biópsia e esperar o resultado. Até hoje parece ser o único choro que vale a pena ser chorado. A gente sempre se envergonha por chorar no trabalho, pelo namoro que termina ou por brigas com alguém querido, mas eu nunca senti que eu não deveria chorar porque eu tinha câncer e chorava sempre que tinha vontade. E em qualquer lugar, aliás.

Eu também me dei o direito de esquecer todos os outros problemas que não eram eu mesma, me dei o direito de ser egoísta literalmente. Ernesto – meu cão –  foi para a casa de uma amiga, porque ele sentiu de verdade o fato de eu não estar bem e começou a não ficar bem junto comigo. No meu caso, eu revezava entre chorar em posição fetal no sofá e querer fazer todos os programas que acho legais fora de casa. No caso dele, começaram a rolar umas coisas que ele não fazia há tempos, como xixi na sala, destruição de livros e almofadas e latidos constantes, fora as vezes em que ele ficou horas olhando para a minha cara e chorando, mesmo que eu brincasse e fizesse carinho nele. Eu continuei os trabalhos que vinha fazendo porque não queria prejudicar as pessoas com quem tinha me comprometido, mas me deixei não ser tão produtiva. Eu fui meu único problema durante algumas semanas e não me arrependo nem um pouco disso.

Uns dias antes da cirurgia, Isaac e Ruth foram para a casa do pai, porque eu não estava conseguindo me concentrar no papel de mãe, nem nas coisas simples como fazer jantar, muito menos nas coisas mais complexas como questões na escola. Ser mãe é difícil, ter câncer é difícil, ser mãe com câncer foi impossível para mim. Eu me desliguei uns dias dos meus filhos e acho que fiz bem. Fiz bem porque pude confirmar que, sim, eu escolhi o melhor pai do mundo para os dois e que nunca mais preciso me preocupar com o que irá acontecer com eles se um dia eu morrer. Eles seguiram a vidinha deles e o pai estava lá ao lado deles cuidando de tudo que eles precisavam enquanto eu enlouquecia e tentava voltar ao normal. Fiz bem porque não queria dividir com eles todos os altos e baixos pelos quais eu passei.

Porque entre receber o diagnóstico e operar eu vivi 12 dias de loucura. Operei rápido, o que foi bom, não apenas porque eu tinha câncer e precisava dar um jeito de tirar o câncer de dentro de mim, mas porque receber diagnóstico de câncer enlouquece – literalmente enlouquece – e obviamente eu não estava preparada para isto. Ninguém está preparado. Depois que fiz a biópsia, metade de mim achava que iria ser benigno e a outra metade não fazia a menor ideia do que era ouvir ou ler “é um câncer”. Eu estava dando uma aula quando minha ginecologista me ligou com o resultado do exame. Eu atendi, ouvi o diagnóstico e resolvi que ia continuar as duas horas de aula e lidar com aquilo mais tarde. E daquela noite em diante eu passei a conviver com um tsunami de emoções e experimentei todos os sentimentos possíveis que iam e voltavam em questão de minutos. Eu me sentia triste e chorava muito, mas ao mesmo tempo tinha esperança que eu ia enfrentar e vencer tudo isso e que o caso ia ser simples, morria de raiva da vida, do meu corpo e dos médicos que não diziam o que eu queria ouvir (briguei feio com um deles em uma consulta e minha mãe morreu de vergonha), ficava eufórica alguns dias e resolvia fazer tudo o que eu gostava de fazer como se eu fosse morrer dali uns dias e aí eu era a melhor companhia do mundo, mas dali a poucas horas eu virava a pior companhia ever, que só chorava, atacava ou reclamava. Lembro de um amigo me dizendo durante um jantar em que eu cheguei chorando e revirei o prato chorando porque nem consegui comer nada: “como isso aconteceu se passamos a manhã juntos e você tava ótima, se te dei tchau às 16h e você estava sorridente?”. Naquele dia eu pedalei 26 km, almoçamos super gostoso falando de assuntos leves, voltei pra casa, vi TV, tomei banho e quando escureceu eu tive uma crise de pânico e ansiedade e chorei sem parar por mais de 24 horas, incluindo um outro passeio no dia seguinte em que mal consegui falar. Teve outro amigo que me ligou na noite anterior à cirurgia para saber como eu estava, me pegou em uma crise de choro gigante que só passou porque ele chegou na minha casa em minutos e aí eu consegui dormir. Uma amiga foi me fazer companhia no laboratório porque eu estava fazendo os exames pré-cirúrgicos chorando, sem nenhum motivo, porque eram apenas os exames de coração e tal, e eu já imaginava que não ia sair nada errado. Em compensação, nestes mesmos 12 dias eu provei drinks incríveis de bartenders ótimos, assisti um show de jazz lindo, fui ao cinema e me concentrei no filme por duas horas, assisti um musical, entreguei uma proposta para um projeto de consultoria, recebi um monte de amigos para jantar e cozinhei coisas incríveis para eles. Foi muita loucura, porque eu não me reconhecia na raiva, nem nas crises de choro e nem nos momentos de euforia em que eu amava viver como nunca.

Eu vivi 12 dias com a certeza absoluta que meu seio direito era a coisa mais importante da minha vida e que toda minha existência girava em torno dele. Toda. Vivi 12 dias pensando que não podia perdê-lo, que não podia mudá-lo, que minha vida nunca mais seria a mesma sem ele. De fato a minha vida nunca mais será a mesma, mas eu custei a me convencer que minha vida mudaria pelo câncer, não pelo seio, porque no fim das contas o seio está aqui igualzinho ao que ele era antes, sem nenhuma prótese, como eu queria. E foi um trabalho muito grande para eu convencer a mim mesma que sou muito mais que o câncer ou que meu seio. E a melhor coisa que eu ouvi de um amigo neste sentido foi “eu não ligo nem um pouco para seu seio”, porque aí eu realmente comecei a pensar que ninguém olhava para mim e ficava pensando no meu seio. E também foi ótimo quando outro amigo me perguntou quantas vezes eu tinha me apaixonado por alguém sem nem ter visto o corpo da outra pessoa ainda, porque me fez lembrar que as pessoas são bem interessantes mesmo vestidas. E melhor ainda foi quando um amigo veio me ver em casa após a cirurgia, e eu não tinha ainda contado para ele onde era o câncer, e ele entrou, me disse que eu estava linda e perguntou o que eu tinha operado, porque eu estava me sentindo horrorosa usando o soutien pós-cirúrgico e achava que todo mundo iria olhar para mim e já perceber isso.

O mal do câncer não é só um nome feio ou algo que pode nos matar, mas é ele nunca ir embora. Uma vez que descobrimos um câncer, nos vemos obrigados a viver com ele para sempre. Eu tive câncer cedo, então devo passar pelo menos metade (assim espero) da minha vida com o câncer. É como se ele não fosse acabar. Quando acabou a cirurgia, eu podia dizer que não tinha mais câncer, porque efetivamente meu cirurgião tinha tirado o câncer de dentro de mim. Eu tenho recebido muito carinho da família e dos amigos na recuperação, porque existe esta parte física e chata que é voltar à vida normal após uma cirurgia e a vida “normal” (tomar banho sozinha, voltar ao trabalho, cuidar da casa) vai voltar muito rápido. Mas tem uma coisa que ficou: a dúvida de como vai ser daqui pra frente. No curto prazo, esperar mais resultados de exames. No médio prazo, todos os tratamentos dolorosos, chatos e que podem me enlouquecer tudo de novo. No longo prazo, talvez para o resto da vida, ficar pensando no que fazer para minhas células não me traírem mais uma vez e não se multiplicarem de forma errada e não me fazerem passar por tudo isso de novo.

Eu não sei porque resolvi publicar este texto. Talvez porque uma das coisas que mais me deixaram tranquila neste processo todo foi conversar com mulheres que já passaram pela mesma doença que eu, porque eu pedia desesperadamente para que as pessoas me dissessem que estava tudo bem e que ia ficar tudo bem, mas a verdade é que eu sabia que as pessoas que não sentiram o que eu senti não faziam a menor ideia se ia mesmo ficar tudo bem. Então eu quis deixar aqui por escrito que posso conversar com quem quiser e que topo ser companhia para quem precisar só chorar, porque eu sei bem que chorar ao lado de alguém é muito mais fácil. É só me pedir!

Acho que quis publicar também para agradecer. A gente não escolhe nossa própria família, mas eu tive a sorte grande de ter uma família acolhedora e presente, daquelas que abraçam a causa com a gente e fazem o que precisar ser feito – amo muito vocês todos. Os amigos são a família que a gente escolhe e eu só soube escolher bem, então eu agradeci muito a mim mesma por ter cuidado dos meus amigos e por ter os mantidos por perto durante todos esses anos, uns por 10 anos, outros por 15 anos e dois deles por 25 anos! Aquela história de ser mais que um câncer foi construída na minha cabeça cada vez que eu estava na frente de alguém que conheci há mil anos atrás e ficava me perguntando se a pessoa estava olhando para um câncer ou para os muitos anos que temos para lembrar. Descobrir que eu tinha câncer me fez uma pessoa chorona, reclamona, baixo astral e com as emoções todas descontroladas, mas eu sei que isso vai passar e eu sei também que amigos e família estarão aqui enquanto não passar e depois que tudo passar. Amor e colo é tudo o que gente precisa dos outros enquanto convive com o câncer. Sim, eu sempre respondia “álcool” quando alguém perguntava se eu precisava de algo e achei umas fofas todas as pessoas que vieram em casa e lavaram minha louça enquanto eu não conseguia mexer o braço, mas o que mais me ajudou foi ter companhia e colo sempre, o tempo todo, em casa, no hospital, nos exames, nas refeições, nos passeios, todos os dias. No fim, o câncer me mostrou muito amor.

O câncer também me mostrou uma coisa que eu já vinha aprendendo com a maternidade: a gente não tem controle sobre as coisas que acontecem com a nossa vida. Ter câncer foi algo totalmente fora dos meus planos e do meu controle e agora vou ter que dar um jeito que seguir vivendo bem e feliz mesmo existindo a doença, os próximos tratamentos e a possibilidade de ela voltar um dia. Pensar nisso ainda me faz chorar todos os dias, porque ainda tenho muito medo do meu câncer. Mas meu principal objetivo neste hiato que estou vivendo é fazer o câncer se transformar em um detalhe na minha vida com o qual vou ter que conviver – querendo ou não – e voltar a me concentrar em quem eu sou: muito mais que um câncer, um seio ou uma cicatriz.

PS: Parece clichê, mas façam o auto-exame todos os meses e os exames anuais com a ginecologista direitinho. Não custa nada. Eu achei o nódulo num ultrassom de rotina, depois fui revirar todos os meus exames passados e foi muito bom saber que ele não estava lá há um ano atrás e que eu o descobri no menor tempo possível. Eu sei que vocês vão dizer que não sabem fazer o auto-exame, porque eu também não sabia fazer direito, mas é meu corpo e vou passar a conhecê-lo cada vez melhor para entender sinais e caroços que possam surgir por aqui. E, vocês, venham junto comigo.

Há dois anos

quatro anos de muito muito muito amor.

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Há dois anos, Isaac e Ruth me escolheram para ser mãe e vieram morar junto comigo. Nesse dia eu deixei de ser uma pessoa sem filhos e virei mãe. Eu morri e renasci nesse dia. Morri, porque nunca mais vou ser quem eu era. Renasci, porque ganhei uma nova vida e tive que reaprender a viver.

Eu era egoísta, no sentido mais literal da palavra. Eu era a pessoa mais importante da minha vida. Tudo que eu fazia era para ME sentir bem: saía quando eu quisesse e para onde eu quisesse, trabalhava até a hora que achava conveniente, gastava dinheiro com as coisas que me deixavam (ou eu achava que) me faziam feliz. Tinha liberdade para ir e vir. Organizava minha rotina do jeito que achava mais bacana para mim mesma: a hora de ir na academia, a hora de sair para ir ao trabalho, a hora de voltar…

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Mamãe, eu não te entendo

Ruth tem uma mania de não sair da cama quando acorda: ela grita. Se acorda de madrugada, ela começa a gritar “mamãe”, “mamãe”, “mamãe” em intervalos que começam com 5 segundos e vão reduzindo até chegar a 1 milésimo de segundo, e o tom de voz vai aumentando. Pode ser para arrumar o cobertor, reclamar de alguma dor imaginária, avisar que está chovendo ou pedir para fazer xixi, ela não se move um milímetro, ela abre os olhos e começa a gritar.

Num gosto não de ser acordada de madrugada.

Aí hoje, ao sair da minha cama com os berros, eu disse para ela:

– Você não precisar ficar gritando “mamãe” quando tiver vontade de fazer xixi. Levante, vá até o banheiro, aí você volta para o quarto e continua dormindo, que tal?

– Não dá.

– Por que não dá?

– Porque você brigou comigo quando saí do quarto uma vez.

Ruth, eu não quis te contar a verdade, então disse que você tinha razão e que a mamãe é confusa. Mas aconteceu esta semana que pus os dois para dormir e saí andando pela casa totalmente no escuro e sentei no sofá da sala com tudo apagado e resolvi que ia ler absolutamente todas as notícias do fidi do feicebuqui e quando olho para o lado e dou de cara com a versão O Chamado de cabelos cacheados e gritei igual quando vejo taturana.

Nunca mais quero passar por isso.