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O casamento do meu melhor amigo

O meu melhor amigo vai se casar em um lindo sábado na véspera de dia das mães.

Casamentos não são eventos para crianças. Ou não são eventos especificamente para meus filhos. Ou eu não sei ser a mãe que leva os filhos em casamento sem enlouquecer. Em três bullets, vamos lá:

  • Cerimônia de casamento requer que você fique parado e em silêncio. Você não precisa necessariamente prestar atenção, mas precisa ficar em silêncio necessariamente. Meus filhos não têm essa capacidade. Eu até consigo entendê-los, porque sei que os padres só ficam pedindo para que as pessoas levantem e sentem a cada dois minutos para que ninguém durma, sejamos sinceros.
  • Drinks coloridos e caipirinhas de frutas deixados sobre as mesas da festa são um erro. Eu já os levei em uma festa de casamento e fiquei louca tentando convencê-los que eles não podiam tomar os sucos de frutas nem as bebidas com guarda-chuvinhas lindos.
  • Nesta mesma festa, meu filho foi até a noiva e pediu colo para ela no meio da cerimônia. E ela estava com um tomara-que-caia. Eu não quis ser a louca correndo atrás da criança no vídeo do casamento e resolvi ficar no meu lugar bem quietinha fingindo que o filho não era meu. Deixei ela se virar.

Em resumo, eu os levei em uma festa de casamento e passei a noite toda na função: levei ao banheiro, peguei água, pedi frutas cortadas para o tio da caipirinha, fiz os pratos do jantar dos dois, cortei tudo para eles poderem comer, não jantei porque eles terminaram antes de conseguir fazer o meu prato, fiquei de olho para que não tomassem nenhuma bebida alcoólica, fiquei de olho para que não saíssem pela porta e fugissem pelo estacionamento, fiquei de olho para que não comessem nada do chão e atendi um milhão de outros pedidos aleatórios que eles me fizeram. Fiz cabelo, maquiagem e comprei um vestido novo achando que eu ia ficar sensualizando na pista conversando com os amigos que não via há muito tempo, mas isso não deu tempo. Então eu não pretendo levá-los de novo em casamento por uns bons anos.

A opção que eu teria para não levá-los comigo seria dormir na casa do meu pai. Mas é véspera de dia das mães e eu quero que eles durmam em casa. Quero que eles acordem em casa, que me levem o café da manhã na cama e me entreguem todos os cinco presentes que compraram para mim, sabe? Não vou abrir mão disso.

Aí eu vou dizer uma coisa muito séria: se você tem alguma pessoa querida e disponível que tope ficar dentro da sua casa cuidando de suas crianças (inclui banho, jantar e colocar para dormir), cuide bem dela. Uma amiga tem um pai assim – ele sempre vai até a casa dela quando ela tem algum compromisso à noite. Um amigo tem uma irmã dessas, que coloca a filhinha dele para dormir e espera ele chegar. Tenho vários exemplos que dão inveja. Eu não tive essa sorte. Cuidaria com todo amor e carinho dessa pessoa se ela existisse em minha vida.

Eu tenho uma folguista, é verdade. Mas sair de casa arrumada para uma festa no final da tarde de um sábado e deixá-los sozinhos com uma pessoa com quem eles não têm tanta intimidade está fora de cogitação. Aí eu tenho sensação de abandono e não consigo. Não vai rolar.

Esperei a vida toda para bancar a Julia Roberts no casamento dele, mas não vou conseguir. Que droga. Ser mãe muda mesmo nossas prioridades.

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Sem carro

Bateram no meu carro. Não aconteceu nada comigo, mas aconteceu bastante coisa com o carro. Não foi legal. Quando saí do carro e vi o estrago, fui correndo pegar o celular para pedir ajuda. Não para quem vocês estão pensando. Antes de ligar para o seguro, para o guincho ou para minha mãe, eu liguei para o tio da perua:

– Oi, tio, socorro. Tem como encaixar os dois na perua para ir para escola todo dia de manhã? Tem? Oba. Começam amanhã, ok? Obrigada, tchau!

Ser mãe muda completamente nossas prioridades.

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Férias com crianças

Aposto R$ 50,00 que, se você perguntar para 10 papais ou mamães o que eles indicam para as férias com crianças, 9 irão te recomendar um super hotel com mil piscinas e duzentos monitores para recreação.

Não vou mentir que a ideia de ter monitores animando a galerinha é genial. Eu adoro quando vou a algum lugar e dou de cara com eles: restaurantes que têm monitores, amigos que contratam monitores para cuidar das crianças enquanto os adultos conversam entre si durante uma festa, acho tudo isso o máximo. Também já cheguei a me interessar por um hotel porque eles tinham recreação para as crianças E acesso fácil a algumas trilhas e estradinhas de terra – coisa linda para uma mamãe que curte mountain bike, mas não consegue colocar dois monstrinhos na garupa.

Também concordo que é divertido demais para as crianças um lugar com programação especial para elas, com outras crianças, com monitores 100% dispostos a brincar, correr e cuidar delas. Juntando as mil piscinas, salas de brincar, mato e espaço para correr, eu juro que acredito que elas iriam se divertir imensamente.

O que me incomoda? Simples: oqueque eu faço enquanto elas estão se divertindo, hein?

Ir para um hotel não é exatamente o que eu chamo de “viagem de férias”. É claro que toda viagem de férias tem um hotel. Mas ficar no hotel, dentro do hotel, curtindo o hotel, não é para mim. Hotel para mim é aquele lugar com quarto confortável e café da manhã gostoso, de onde eu saio de manhã para efetivamente curtir a viagem e para onde eu volto no final do dia para descansar. Nem restaurante precisaria ter para me agradar. Piscinas do hotel, quadras do hotel, gincanas e atividades organizadas pelo hotel, a praia bem na frente do hotel, a cinemateca do hotel, para tudo isso eu digo “não, obrigada”. Mas aí não adianta eu deixar meus filhos se divertindo horrores enquanto eu morro de tédio e conto os dias para voltar para casa, né?

Aí aquela pessoa lá em cima que não me indicou um hotel com clubinho provavelmente sugeriu a Disney. Mas não. Filhinhos lindos, já vou avisar desde já: mamãe já foi para Disney uma vez na vida e não volta mais nessa encarnação. Perdoem, tá?

Só um parênteses: além da chatice com os hotéis e a chatice com a Disney, eu não gosto muito de praia. Não gosto de sol e me sinto nãofazendonada se passo o dia na praia fazendo nada. Eu gosto de paisagens bonitas, de trilhas que levam a praias vazias e até acho legal vê-los brincando na areia e na beirinha do mar. Por um dia no máximo. Mais que isso entro no modo “me tirem daqui”.

Tá. Eu sou mãe de duas crianças de 3 anos e sei bem que nem todos os programas são kidfriendly. Sei que, se eu inventar uma longa caminhada, eles vão se cansar, pedir colo e fazer birra. Sei que longas exposições de arte onde devemos ficar em silêncio sem mexer em nada talvez não sejam adequadas. Sei que deslocamentos longos vão deixá-los entediados, e sei bem o que acontece quando eles ficam entediados. Mas também não quero viver achando que existem as férias legais para caramba e as férias onde estou com meus filhos fazendo algum programa de índio em um resort. Não. Férias legais para caramba têm que ser férias onde todos se divertem juntos.

Dito isso, me ajudem: qual a sugestão de vocês para nossas férias?

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Eu prefiro água gelada, mamãe

Foi em meados de fevereiro que cheguei em casa no final do dia e não tinha luz no prédio. Acho que tinha caído um temporal no final da tarde e nada de a energia voltar. Esquentei leite no escuro, brincamos no escuro e decidi que o banho teria que ser de balde aquele dia. Não dá para deixar duas crianças que passaram o dia pulando e correndo na escola num calor indiano irem para a cama sem banho.

Eu juro que achei que ia ser o máximo. Todos os dias eles levam potinhos para o chuveiro e ficam se molhando, ou seja, era a mesma coisa. Minha filha foi primeiro e em 5 minutos estava limpa. Meu filho deu tilt.

Joguei um pouquinho de água morna que estava no balde nele e ele berrou como tivesse levado um tapa. Esperei se acalmar, expliquei, conversei, mostrei o pote, mostrei o balde, deixei ele colocar a mão na água, sugeri que ele se molhasse sozinho, tentei de novo, cantei, dancei e nada de o menino parar de berrar. Não só berrar: ele se encostou na parede do box na pontinha dos pés, e gritou várias vezes um “não faz isso, por favor, mamãe” e comecei a ficar com medo que algum vizinho chamasse a polícia.

Aí eu – que já estava há 15 minutos ajoelhada na frente dele implorando para acabar com aquilo logo – perdi um pouco a paciência e deixei ele escolher:

– Ou você toma banho de balde ou vai tomar banho gelado, mas sem banho não pode ficar.

– Quero banho gelado, mamãe.

É assim: tava fazendo uns 52 graus na sombra, ele estava imundo e eu não estava a fim de perder a briga. Sorry, filho.

No dia seguinte tinha luz. Mas eu entrei em casa e mandei a brincadeirinha:

– Oi, linduchos. Vamos tomar um banho de balde com a mamãe?

Berro. Menino se jogando no chão, batendo braços e pernas. Choro histérico: “nãooooooooooo!!!!!! Eu prefiro água geladaaaaaaaaaaaa!!!!!”.

Doido.

Aprendizado do dia: crianças pequenas não entendem ironia. Não tentem em casa.

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Vergonha

A gente estava em uma loja cheia de outras pessoas, mas todas fizeram o favor de ficar em silêncio bem nessa hora que minha filha resolveu se manifestar:

– Mamãe?

– Oi.

– Eu tenho uma periquita pequenininha e você tem uma periquita bem grande.

Sem comentários.

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Carteirinha de estudante

Filho e filha,

Mamãe já vai fazer 33 anos e não estuda mais há muitos anos. A essa altura da vida, também convivo com pouquíssimas pessoas que ainda estudam. Mas, curiosamente, ainda convivo com muitas pessoas que usam carteirinha de estudante. Estranho, né? Também acho. 

Funciona assim, meus queridos: os estudantes têm direito a pagar meia entrada no cinema, no teatro, em shows e outros eventos. Por isso paguei apenas metade do valor do ingresso do teatro para cada um de vocês quando fomos assistir o Mágico de Oz. Será assim durante muitos anos, porque vocês ainda estudarão durante muitos anos. Mas aí vocês terminarão os estudos e esse direito também terminará, ok?

Algumas pessoas não estudam mais, mas resolvem falsificar a carteirinha de estudante para continuar usufruindo de um direito que não é mais delas. Isso é muito feio. Algumas dessas pessoas comemoraram muito a recente prisão de políticos corruptos, sem conseguir enxergar que elas também enganam e roubam. Não roubam tanto dinheiro, mas os conceitos de “enganar” e “roubar” são os mesmos, tá?

“Ah, mas as coisas são tão caras” – elas vão argumentar. “Não dá para pagar R$ 600 em um show”. Concordo. As coisas são caras e nem sempre temos dinheiro para fazer tudo o que queremos. Mas eu quero ensinar para vocês que quando acho alguma coisa cara, eu escolho não comprar e nunca escolho roubar. Nós não devemos roubar essa coisa porque não pretendemos pagar por ela. Quando acho que um par de sapatos está muito caro, eu não pago por apenas um e roubo o outro da loja. Eu não compro. Ponto.

Então, meus lindos, por favor, prometam para a mamãe que nunca na vida irão falsificar carteirinha de estudante, tá? Isso vai me deixar muito triste.

um beijo

Mamãe Ruri

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Bebês da mamãe

Eu fiz uma perguntinha boba para os dois:

– Quem são os bebês da mamãe?

– A gente! – meu filho respondeu.

Aí minha filha manda a frase assustadora:

– A moça não quis a gente, né, mamãe?

Meu coração parou. Como assim a moça não quis vocês, gata? Que moça? Do que você está falando, meu?

Eu nunca diria uma coisas dessas para nenhuma criança, principalmente porque, em geral, isso não é verdade. A genitora dos meus filhos nunca declarou durante o processo que não queria ficar com as crianças, pelo contrário. Ela vivia nas ruas, doente e não tinha condições materiais e emocionais para cuidar dos dois. Tenho certeza que ela sofreu com a situação e que deseja o melhor para eles, de onde estiver.

Fiquei morrendo de medo de terem ouvido isso de alguém e perdi uns 15 minutos tentando entender de onde veio essa afirmação. Ela tem três anos e ainda é difícil contar as histórias inteiras exatamente como aconteceram, mas com muita paciência consegui decifrar.

Nós fomos ao supermercado um dia e coloquei os dois dentro do carrinho, porque senão era um bebê para cada lado e uma mãe louca correndo atrás. Aí eu disse para eles que eles eram meus bebês ainda e que tinham que ficar lá dentro. Quando a gente estava quase chegando no elevador que nos levaria do estacionamento até a loja, a porta se fechou porque a moça que já estava lá dentro não conseguiu esperar. E essa é a tal da moça que não quis a gente, justamente quando disse que eles eram meus bebês.

Filha, pliz, não assusta a mamãe desse jeito, não, poxa.

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Na saúde e na doença

Vou dividir nosso Carnaval 2014 em dois momentos bem distintos: o sucesso e a tragédia. Para contextualizar: Carnaval é o maior recesso da escolinha dos bebês depois das férias de final de ano, quando eles ficam QUATRO DIAS E MEIO sem aulas. Quatro. Dias. E. Meio.

A primeira metade do nosso feriado foi um Sucesso. S maiúsculo. Nós fomos brincar, fomos no parque, fizemos trilha, fomos ao teatro, almoçamos fora, fomos a uma exposição de arte (porque mamãe também tem suas vontades), foi tudo muito legal. Muito divertido. Crianças felizes, mamãe feliz, dias de sol, nenhuma birra, quase nenhum choro, tudo indo muito bem para ser verdade.

Aí o tempo fechou, literalmente. Choveu. Ficou mais frio. Minha filha acordou com uma febrinha, depois meu filho teve febre no almoço, depois eu fui pega pela gripe no começo da tarde e no final da tarde nós éramos três incubadores de vírus, que tossiam, espirravam, soltavam catarros pelo nariz e tinham febre. Montes de dores de garganta, dores pelo corpo, mau humor, vontade de não fazer nada, crianças chorando por causa de qualquer coisa, mãe com vontade de chorar junto. Gente, que pesadelo.

Cuidar de uma criança doente é difícil. Cuidar de duas crianças doentes ao mesmo tempo é mais difícil ainda. Cuidar de crianças – doentes ou não – quando se está doente é insuportável. Sabe quando você acorda mal, com dores, sem forças, e liga pro chefe avisando que não vai dar para trabalhar? Foi o que eu tive vontade de fazer naquele dia. Passei horas me perguntando para quem eu tinha que ligar para avisar que não ia poder ser mãe naquele dia. Fiquei horas encarando o celular, esperando a ligação de alguma alma caridosa com uma voz animada do outro lado da linha: “alô, Ruri? Quer que eu fique com as crianças hoje para você poder tomar chá de gengibre à vontade espalhada na cama?”. Fiquei mentalizando um ser qualquer entrando pela porta da sala trazendo uma panela de sopa quente para nós três. Fiquei olhando para meus filhos esperando que eles me dissessem: “mamãe, é pegadinha. Nós não estamos doentes. Fica aí deitada no sofá descansando que a gente promete que vai ficar brincando em silêncio até o fim do dia”. Mas nada disso aconteceu, né? E lá fomos nós para a parte Tragédia do nosso feriado. Tragédia inclui inaladores, termômetros, analgésicos, antitérmicos, ligações para a pediatra no feriado e muita indisposição.

Ser mãe é isso aí, gente: um compromisso válido na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias de nossas vidas. E não pode pedir para sair. Não aguenta? Toma um leite, joga própolis na garganta e continua.

Já é quinta-feira à noite, já voltamos para a escola e para o trabalho, mas ainda não estamos 100%. Alguém indica uma benzedeira?

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Mãe não é tudo igual

Quem inventou esse negócio de “mãe é tudo igual, só muda de endereço” só pode estar doido. Depois que virei mamãe, e passei a acompanhar blogs, posts e conversas de outras mamães, percebi que as mães são, sim, muito diferentes uma das outras. Mães são uma combinação de opiniões fortes a respeito de temas polêmicos, e é impossível dizer que são todas iguais.

Não tô dizendo que tem certo ou errado. São opiniões, pontos de vista. Não se ofendam, não, tá? Mas aí vão alguns assuntos que tornam as mães muito únicas:

  • Tipo de parto: tem mães que defendem o parto normal, humanizado, na água, em casa, de cócoras, sem médico, sem hospital, e depois comem a placenta. Tem mães que acham prático agendar dia e horário e aplicar uma boa anestesia, para não ter sofrimento nenhum. Essa polêmica não fez parte da minha vida, então não tenho nenhuma opinião. Tenho uma opinião muito forte sobre visitas aos recém-nascidos. Bem forte, quase mal educada. Imagina que você é um serzinho pequenino, que viveu nove meses dentro da barriga da sua mãe, quentinho, embrulhadinho, com poucos barulhos, pouca luz, bastante conforto e comida em livre demanda. Imaginou? Agora imagina que você teve que sair desse mundo confortável (por parto normal ou por cesárea, não importa!) e veio para o mundo exterior de uma hora para outra, sem período de adaptação nem nada. Imaginou? Aqui fora tem barulho, tem sujeira, tem gente falando alto, tem gente ouvindo axé, tem luzes, tem o Faustão falando na TV, e você precisa chorar para perceberem que está com fome. Eu não consigo imaginar nada mais traumático do que nascer, sério mesmo. Deve ser o pior momento de nossas vidas. Mas não tem jeito, tem que nascer. Cara, mas aí eu me pergunto: por que as pessoas vão visitar um serzinho que acaba de passar por essa experiência traumática nos primeiros dias de vida, e querem pegá-lo no colo, apalpar seu corpinho, dar beijinhos, fazer comentários em voz alta, em vez de deixá-lo se adaptar a essa triste realidade no colo de sua mãe? Por que, minha gente? Se eu tivesse parido, ia proibir as visitas. Desculpem a falta de educação, mas eu ia.
  • Amamentação: aí tem as mães que fazem questão de amamentar exclusivamente até os seis meses de vida, sem admitir um leitinho artificial, e depois continuam oferecendo o peito em livre demanda até que seus filhos desmamem naturalmente aos 2 ou 3 anos. Tem outras que – por motivos diversos – abrem mão da amamentação quando o bebê tem poucos meses de vida. Esse é outro assunto que não fez parte da minha vida de mãe. Se, por um lado, eu odeio coisas artificiais na alimentação dos meus filhos, por outro lado acho que eu ficaria um pouco louca se tivesse que ficar totalmente à disposição da(s) cria(s) para alimentá-la(s) durante seis meses ininterruptos. Difícil, hein?
  • Cama compartilhada: gente, é tanta coisa. Tá, eu não passei pelo período “recém-nascido mamando a cada 2 horas”, porque tendo a concordar que facilita a vida de todos se o bebê estiver no quarto da mãe. Também tendo a concordar que, depois de ter passado pela experiência traumática citada no primeiro bullet, é muita judiação deixar o coitadinho sozinho em um quarto desconhecido durante a madrugada. Difícil. O que eu não consigo entender é a falta do que vou chamar de “tempo de adulto” na vida das mães que fazem cama compartilhada. Explico: eu estou aqui na sala da minha casa enquanto meus filhos dormem tranquilamente no quarto deles há umas duas horas. Estou curtindo meu “tempo de adulto”, quando janto, tomo banho, leio, escrevo, fico em silêncio, trabalho, assisto um filme de adulto ou durmo. Se a mãe faz cama compartilhada, imagino que ela vá dormir junto com o filho, ou estou enganada? E não tem nem um tempinho só de adulto na vida? Aí hoje li esse post aqui, que cita a vida sexual das mães que fazem cama compartilhada: Você tem sofá/futon/chuveiro/ outros cômodos na casa?, a autora pergunta. Sim, todo mundo tem. Só não quer dizer que o sofá/futon/chuveiro (gente, please, e o tanto de água que isso deve gastar?)/ outros cômodos na casa sejam os mais legais para isso, né? Quer dizer que pós-nascimento dos filhos a cama de casal deixa de ser palco da vida sexual e os pais passam a utilizar outros locais na casa não originalmente concebidos para tal?
  • Trabalhar fora ou ser mãe em tempo integral: ser mãe e ter um emprego full-time é f. Você está sempre com a sensação que não faz nada direito e vive se sentindo culpada. Frequentemente, uma coisa invade o espaço dedicado a outra coisa e a culpa cresce ainda mais: é criança que fica doente e te obriga a faltar no trabalho ou é o trabalho que não termina na hora certa e te faz atrasar para chegar em casa. Aí você está no trabalho pensando nas coisas do filho e está em casa pensando que não respondeu aquele último e-mail antes de sair. É f. Mas f mesmo deve ser a vida de mãe em tempo integral. Vida de mãe em tempo integral não tem final de semana ou horário de almoço ou pausa para o café. A mãe em tempo integral é responsável por todas as refeições, todos os xixis e cocôs (na fralda ou no vaso, até que aprendam a se limpar sozinhos), por todas as brincadeiras, por todas as birras, por todos os banhos, todas as broncas. A mãe em tempo integral não pode simplesmente marcar um almoço com uma amiga, porque não pode deixar o filho sozinho em casa. Eu sei bem como essa vida é difícil porque tirei quase seis meses de licença maternidade. Admiro as mães em tempo integral, porque acho que a vida delas é bem mais difícil que a minha, que sou mãe que trabalha.
  • Escola ou babá: o que vou discutir não é nem a questão de deixar o filho aos cuidados de uma pessoa contratada para tal função, que não é da família, que pode pedir demissão a qualquer momento, com quem a criança criará laços profundos. Eu fico me perguntando como é que os pais garantem que a babá está entretendo seu filho de uma forma bacana, variando as brincadeiras, não os deixando morrer de tédio ou mofar na frente da televisão. Durante os finais de semana, eu frequentemente não tenho imaginação para ocupar e estimular meus filhos como eles precisam durante as 48 horas, e sofro com birras e momentos de tédio, quando eles resolvem fazer tudo o que sabem que não podem fazer. Haja criatividade no job description das babás, hein?

Só com esses cinco itens, a gente poderia criar pelo menos uns trinta tipos de mães diferentes. Não é só o endereço que muda, não, gente.

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Vontade de me jogar

Ontem eu trombei com esse texto aqui e morri de rir. Obrigada, de coração, pela sinceridade, Fernanda Nunes.

Eu nunca pensei em jogar meus filhos pela janela, isso não. Mas eu já olhei milhares de vezes para a janela e fiquei pensando que a verdadeira função das redes de proteção é evitar que a mamãe se jogue da janela. Eu já vivi milhares de situações irritantes e fiquei repetindo para mim mesma: “respira, Ruri, não pula da janela”. Vamos ser práticos: jogar um filho da janela é burrada. Você fica sem o filho, com a dor e vai pra cadeia. Agora, se jogar da janela deve ser libertador. Imagina só aquele ventinho na cara, braços abertos sentindo a força da gravidade e o choro das crianças ficando lá loooooooooonge. Delícia.

Funciona assim, gente: criança é linda, é fofa, é engraçadinha, é companheira, é um amor, mas só quando ela está de bom humor. Só quando ela está sorrindo. Só que criança chora. E não estou falando sobre o choro com motivos. Eu entendo que existem motivos para chorar: um machucado, uma frustração, um irmão que beliscou. O problema é que criança chora e 95% dos choros são birras ou acontecimentos irritantes do dia a dia.

Funciona assim:

– Mamãe, eu quero bolo de cenoura. (minha filha durante um café da manhã no meio da semana)

– Filha, não tem bolo de cenoura em casa. (eu respondo a verdade, porque nem cenoura em casa eu tinha naquele dia e quase nunca tem algum bolo na nossa casa anyways)

– Mas eu querooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo. Buááááááááááááááááááááááááááá! Me dáááááááááááá! Eu não vou pra escola hojeeeeeeeeeee! Buááááááááááááááááááááááááááá!

Mano, é sério.

E não é só choro ou gritaria. Minha filha gosta de se jogar no chão durante a birra. Vem diminuindo porque ela já percebeu que eu não sou o super-homem e não atravesso os 10 metros que nos separam em 3 segundos para evitar que a cabeça dela bata no chão quando ela se joga loucamente para trás. Desculpa, filha, mas não tenho super poderes. Aí me aconselharam ignorar e sair do ambiente. Eu faço isso. Eles correm atrás de mim. Não para pedir desculpas, né? Eles correm atrás de mim para continuar gritando do meu lado, para deixar bem claro que eu tenho que ouvir o choro. Aí eu continuo ignorando. Mas o objetivo é me irritar, então eles fazem coisas que me fazem ter vontade de me trancar numa caixa negra com isolamento acústico: tiram sapatos e meias e atiram longe, cospem no chão, assoam o nariz com a mão e limpam na parede, derrubam o que estiver na frente deles no chão. Eu não grito, porque quero dar o exemplo. Eu não bato, porque quero dar o exemplo. Então toda a raiva e irritação vão se armazenando dentro de mim e é daí que aparecem pensamentos suicidas.

Aí você passa a viver em estado de atenção, tomando cuidado com tudo o que fala ou faz para nenhuma criança chorar. Se eles estão quietos e brincando, evito me mexer. Tenho preguiça de situações que podem envolver choros, birras e escândalos, e eu sei que é ridículo. Mas veja só: eu estava outro dia, um sábado preguiçoso, em casa com os dois e pensei em descer para o parquinho do prédio. Mas aí eu pensei que uma hora eu ia querer subir, e eles iriam (dois, tá?) chorar e gritar e espernear, e eu desisti de ir. Simples assim, ficamos trancados em casa para não ter choro. Às vezes, tenho preguiça de deixar brincar com alguma coisa mais elaborada, como massinhas ou tintas, porque sei que na hora de parar de brincar eles vão chorar. Às vezes, desconverso para não dar respostas que vão levar a choros desnecessários, como “mamãe, posso ir para a escola de pijama?”. Eu simplesmente mando um “nossa, acho que vai chover no final de semana” e fica tudo bem. Esses dias, me vi respondendo para meu filho:

– Não, não pode brincar de Lego. Toda vez você chora quando falo que está na hora de dormir e precisa guardar. Toda vez você promete que não vai dar escândalo, mas dá escândalo do mesmo jeito. Não pode brincar de Lego hoje que eu não quero ouvir choro.

Tadinho. Chorou muito, óbvio. Mas pelo menos foi um choro com motivos. Eu não fiquei irritada.

Toda vez que vou fazer alguma coisa diferente com eles, eu preparo um roteiro mental de tudo o que vai acontecer para alinhar tudo com eles. É cansativo demais para uma pessoa P (sou ENTP, gente). Mas eu tento explicar em detalhes onde vamos, como vamos, com quem vamos e quais são as regras (não pode chorar – óbvio, não pode gritar, não pode mexer em nada, precisa ficar sentado). Mas é sempre batata: ou eu esqueço de um detalhe ou eles esquecem alguma regra ou alguma coisa não sai como planejada, eles se estressam, eu me estresso, e tenho pensamentos suicidas.

O problema que acontece comigo (e espero que eu seja normal) é que minha irritação e falta de paciência com choros sem motivo vai de 0 a 100% em questão de segundos. É muito difícil controlar. Porque você já sabe que é birra, que depois a criança vai prometer que não vai fazer mais, mas vai fazer, que vai demorar para parar de chorar e que você vai ter pensamentos suicidas. Eu não fico irritada desse jeito que fico com meus filhos com mais ninguém. Nem no trânsito, nem com meu chefe, nem com nenhum amigo, nem com o vizinho, com ninguém. Mas eles me irritam muito e isso me deixa culpada. Mas não dá para evitar: eles fazem birra de novo, eu me irrito de novo.

É tão difícil que eu já dei bronca nas amigas próximas que são mamães porque elas nunca me alertaram que seria tão difícil. Ninguém nunca me disse que todo o amor que você ganha com a maternidade vem acompanhado de crises constantes de irritação. Então eu sou sincera com as minhas amigas que não têm filhos ainda: vocês não vão se reconhecer na primeira crise de fúria ao ver uma criança fazendo birra. É f. Vale a pena, mas é f.

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