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A história da lata

Esta história não é um desabafo, porque já desabafei bastante. Também não é uma reclamação, porque reclamei bastante (por escrito, por telefone e pessoalmente). É apenas uma das histórias que me mostram como é importante sermos participativos na vida e na educação dos nossos filhos.

A escola pediu uma lata de leite condensado da marca X para cada aluno até o dia tal para uma atividade em sala de aula.

Eu fiquei brava.

Leite integral, açúcar e lactose. Primeiro, eu sou vegana, ou seja, não consumo derivados do leite. Meus filhos não são veganos (eu compro leite de vaca para eles), mas gostaria de ser respeitada, porque eles poderiam ser veganos também, uai. Segundo, eu não uso açúcar refinado em casa (aliás, nem o açúcar demerara orgânico que temos em casa saiu do armário nos últimos meses). Terceiro, eu tenho dois filhos, então duas latas de leite condensado até o dia tal seria bastante doce para uma família de quatro pessoas. Quarto, nós poderíamos ser alérgicos a lactose, ou poderíamos ter alguém na família em um regime, ou poderíamos preferir o leite condensado caseiro. Ou poderíamos já ter comprado outra marca, já que tinha uma marca específica para levar. Enfim, a primeira questão que levantei com a escola foi “que p é essa de leite condensado da marca X”? Erro número um: assumir que todo mundo consome ou deveria consumir leite condensado da marca X.

– Vou mandar lata de ervilhas, ok? – também não costumo comprar lata de ervilhas, mas preferia comprar ervilhas, usá-las em alguma receita e mandar a lata para a escola.

– Não serve, porque o tamanho não é o mesmo, e nós precisamos do tamanho XPTO da marca X para fazer a atividade.

Vamos ao segundo erro nessa porcaria toda. Se a atividade é com lixo, ela tem objetivo de ensinar para as crianças o reaproveitamento do lixo. A ideia, na minha humilde opinião, era mostrar que algo que iríamos jogar no lixo poderia ser reaproveitado em uma atividade ou em uma brincadeira. Então, eu esperava que meus filhos aprendessem isso. Eu esperava comer as ervilhas e mostrar que a lata não tinha ido para o lixo, mas, sim, para a mochila. Não esperava ter que comprar leite condensado, jogar o conteúdo na pia da cozinha e mandar a lata para a escola. Pra ser assim, era melhor entrar em uma loja e comprar um pote logo de uma vez. Oras.

– Nenhum outro pai ou mãe reclamou disso? Só eu?

– Só…

Realmente. Quando conversei com o grupo de mães da sala da Ruth e da sala do Isaac, ninguém estava com o mesmo problema que eu. Pelo contrário. Duas mães foram bem gentis e mandaram a lata de leite condensado da marca X para a Ruth e para o Isaac.

Eu até pensei em insistir em mandar latas de ervilhas. Por que não fiz isso? Porque Isaac e Ruth ainda não muito novos para carregar nas costas esse erro todo do processo. Eu não quis que eles fossem os únicos com latas diferentes dos amiguinhos e se sentissem mal com isso. Porque aí vem o erro três: se a escola tivesse pedido simplesmente “latas”, cada criança traria uma lata diferente e meus filhos não se sentiriam excluídos com suas latas de ervilhas. A justificativa da escola aqui é que tinha que haver um padrão. Tá bom, que pedissem latas de comida então, embora eu duvide muito que alguém fosse mandar uma lata de tinta de parede.

Parecia tudo resolvido, até o belo dia em que chegaram em casa com o produto da tal da atividade. Chutem, gente.

Vasinhos.

Vasinhos de flores. Para comemorar a chegada da primavera.

Erro quatro: em que momento alguém entendeu que vasinhos de flores precisam ser padronizados?

Vasinhos. De flores. Padronizados. Como se fosse ser bem esquisito cada criança ter um vasinho de flores de formato diferente.

varanda

(Esta é minha varanda bem esquisita, com tudo despadronizado)

Ah, pensam que parou por aí? Não. Claro que não. Não é que era tudo exatamente padronizado. O vasinho da Ruth era vermelho e o vasinho do Isaac era verde. Porque temos vasinhos de meninas e vasinhos de meninos. Porque depois de tudo isso somos sexistas e deixamos isso bem claro para as crianças. E lá se foi ao erro cinco.

vasinhos

Só para fechar (e prometo que paro): tá na cara que foi o Isaac e a Ruth que criaram isso aí, né? Tô bem vendo os dois nessa delicadeza toda fazendo essas flores. Liberdade de criação, pra quê?

Pronto, parei.

Já falei com a escola sobre esse assunto diversas vezes, já abri meu coração e reclamei sobre tudo o que eu podia ter reclamado. Já tô mais calma.

Sim, a escola cometeu muitos erros e perdeu uma grande oportunidade de discutir com as crianças o reaproveitamento do lixo e de incentivar a criatividade delas. Também perdeu a oportunidade de não ser sexista. Mas também acho que nós, pais, cometemos o erro de não pensar nessas questões, de não discutir as questões com a escola, de sermos passivos com o que a escola propõe para nossos filhos.

Eu não consegui mudar uma palha no processo todo, mas fico feliz por ter levantado a bunda da cadeira e ido até lá para falar diversas vezes. Falei bastante também sobre a questão da lanchonete fast food (lembram dessa história?), mas também não consegui mudar nada. Mesmo assim, tô aqui fazendo minha parte no que acho importante na educação dos meus pequenos, e realmente espero que a escola também pense melhor nessas questões.

Meu convite aqui não é apenas para as mães e pais dos amiguinhos do Isaac e da Ruth. É para todos. É um convite para que todos participem mais da vida escolar das crianças. As escolas são responsáveis por pensar, mas nós também temos o poder de mudar as coisas. Pelos nossos filhos, vamos?

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Adoção tem que ser legal

Por “legal”, eu não quis dizer cool. Eu quis dizer correta, dentro da lei. Por misericórdia, gente. Porque vocês adultos – aspirantes à adoção ou gestantes que desejam entregar suas crianças – até podem querer correr o risco de fazer algo fora da lei. Mas não deixem crianças no meio dessa história, porque elas não merecem sofrer (e vão sofrer).

Para as gestantes que desejam entregar suas crianças:

Recebo muitos e-mails de gestantes que querem entregar as crianças para adoção. Não julgo. Entendo. É um ato de amor saber que não tem condições (financeiras, emocionais, qualquer que seja) para ser mãe ou que não deseja ser mãe e procurar a melhor maneira para entregar a criança para adoção.

Procure a Vara da Infância mais próxima e siga o processo legal. Não abandone o bebê logo após o nascimento, porque, além de expor a criança a riscos, abandono é crime. E, tão importante quanto: não entregue a criança a qualquer família sem passar pelos trâmites legais.

Alguém que registra uma criança como filho biológico sem ter parido esta criança está cometendo um crime. Falsidade. Recentemente li sobre o caso de vizinhos que denunciaram um casal que do nada apareceu com um bebê e eles foram presos. Quem sofre mais? A criança, inocente, que foi separada de alguém que a havia acolhido. Sim, houve vínculo. Mas houve vínculo com alguém que cometeu um crime e quem comete crime é preso. Ou alguém é a favor da impunidade?

Já recebi e-mails de moças que pretendiam registrar como pai biológico o homem adotante. A ideia é dar a guarda para este homem e sumir. Aí você comete o mesmo crime de falsidade ideológica. E aí você priva a criança dos direitos legais que ela teria por ser reconhecida como filha da mãe adotante ou do outro pai adotante (coisas super supérfluas como inclusão no plano de saúde, herança, direito a viajar com eles, sobrenome etc.). E corre o mesmo risco de serem descobertos, de a criança ser recolhida, afastada e sofrer.

Mas as gestantes dizem que só se sentem tranquilas em entregar a criança se conhecerem a nova família e tiverem certeza que ela estará em boas mãos. Quem tem conhecimento e metodologia adequada para avaliar se alguém está apto a adotar são os profissionais das varas da infância que habilitam pretendentes à adoção. Eles fazem entrevistas, visitas, análises de documentos, oferecem cursos, uma porção de coisas para garantir isto. Para isto existe um processo de habilitação à adoção. A criança estará em boas mãos. Você, gestante, pode ter todas as boas intenções do mundo, mas não é a melhor pessoa para escolher uma nova família. Conhecer a nova família não é um direito de quem entrega a criança. Então, se está fazendo um ato de amor de entrega-la para uma adoção, tem que abrir mão de algumas coisas, faz parte.

Para finalizar: não peçam dinheiro para pessoas interessadas em adotar sua criança. Elas também estão vulneráveis e vão pagar seus exames, medicamentos, o que for preciso para o bem-estar da criança. E isto pode ser entendido como venda da criança.

Para os aspirantes à adoção:

Sigam o processo legal. Não sejam criminosos. O coração fica apertado com a espera, mas saibam que a espera vai ser mais curta quanto mais flexíveis e realistas vocês forem em relação ao perfil da criança que desejam adotar. Não cometam um crime porque não querem ser flexíveis com o perfil. Se estão realmente interessados em um perfil mais “difícil” (existe o clássico recém-nascido, branco e sem nenhum problema de saúde), esperem, que uma hora a criança vai chegar! Demora, mas chega. Demora porque a realidade das crianças que estão disponíveis para adoção é outra. Faz parte. Não. Sejam. Criminosos.

Além dos motivos acima que direcionei para as gestantes, existem outros. Esta gestante pode se arrepender. Ela tem direitos. Ela pode ter a criança de volta. Pais adotantes e crianças irão sofrer. Vocês não terão apoio da justiça porque fizeram uma adoção ilegal. Não corram este risco.

Um outro ponto: gestantes que desejam entregar a criança para adoção geralmente estão vulneráveis financeiramente. Geralmente precisam de dinheiro. Repetindo um post meu antigo: pagar qualquer coisa para a genitora (as despesas de parto, exames médicos, qualquer coisa) pode posteriormente ser entendido como tentativa de compra do bebê. Não há dinheiro envolvido em adoção. Não. Sejam. Criminosos.

Espero ter sido clara. Estou tentando ajudar. Pelo bem das crianças, não permitam que elas estejam no meio de trâmites ilegais. Protejam as crianças seguindo a lei. Ponto.

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“Eu primeiro!” ou “agora é minha vez!”

Brigar, sempre brigaram, desde bebês. Mas de um tempo pra cá eles começaram a disputar as coisas. Tudo o que você pode imaginar.

Lembro de como começou a disputa por apertar o botão do elevador. Até certa idade, eu não deixava apertar. Depois ensinei qual era o botão do térreo e o botão do nosso andar e eles começaram a disputar quem iria apertar o botão.

Quando percebi, disputavam quem iria tomar banho primeiro (ou por último, depende do que está acontecendo), quem iria se sentar ao meu lado na mesa do restaurante, quem iria escolher o filme que vão assistir (não, não, entrar num consenso é pior), quem iria desligar a TV, quem iria brincar com um brinquedo (não, brincar junto também não dá).

Problema que todas as coisas que geram disputas acontecem em periodicidades totalmente diferentes. Eles usam o elevador pelo menos duas vezes por dia. Assistem um filme uma vez por semana, mas em geral assistem por partes, então a TV é desligada umas três ou quatro vezes por filme. O banho é diário, o restaurante é esporádico.

Agora quem é que lembra quem foi o último que sentou ao meu lado ou o último que escolheu um filme? Por que quando eles chegam da escola eu tenho que ficar repassando o que aconteceu de manhã para lembrar quem apertou o botão? E se eu estiver sozinha com um deles e esse um apertar o botão, conta ou não conta? Se for a vez do outro, eu que aperto? Como eu faço pra lembrar que de lado cada um estava na última vez que fomos ao teatro, gente? E ai de mim se tentar praticar alguma injustiça. Se eu errar, recebo um bico do tamanho do mundo de volta.

Acabamos de voltar de uma viagem de seis dias e quase comprei um caderninho pra anotar quem tinha se sentado ao meu lado nos restaurantes, quem entrou no banho antes, quem mexeu no meu celular no metrô, quem apertou o botão do elevador. Fora a negociação de oito horas para definir quem iria se sentar ao meu lado no avião na ida.

Cara, que cansativo. Se alguém souber de algum aplicativo onde eu possa registrar as maluquices e simplesmente perguntar “quem toma banho primeiro hoje?”, me avisa, que tô pagando bem pelo serviço.

Se você é mãe de mais de uma criança, proponho um abraço coletivo. Se tem uma e tá pensando na segunda, mano: se prepara!

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Como negociar com criança

Ruth vendo a movimentação do tio e do Isaac para ir ao supermercado:

– Mamãe, eu quero ir junto.

– Não dá, Ruth. O tio não vai conseguir fazer supermercado com duas crianças.

– Vem junto, mamãe.

– Não, não vou sair de casa agora, Ruth – eu tinha acordado, prendido o cabelo pra trás, colocado qualquer roupa e não tinha feito maquiagem. Sem chances. – Você vai na próxima vez, ok?

– Mas eu queeeeeeroooooooooo agora. Buááááááá.

– Fica aqui comigo, Ruth. Me ajuda a lavar a louça.

– Obaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!

Ah, se eu soubesse que era tão fácil. Nunca vi alguém gostar tanto de lavar louça. ❤

Vamos falar sobre o lápis “cor de pele”?

Esses dias Isaac estava desenhando ele e a Bia, como todos os dias, e me falou:

– Mamãe, eu vou fazer a Bia de cor de pele e vou fazer eu de marrom!

Sim, eu voltei no tempo uns 30 anos e lembrei do lápis “cor de pele”. Para Isaac, a “cor de pele” era um lápis que se chama “rosa claro/ rosa pálido/ peach”.

Aí eu expliquei com muito carinho:

– Todas essas cores aqui podem ser “cor de pele” (peguei marrom escuro, marrom claro, rosa, amarelo, laranja – o que tinha no estojo). Essa aqui também, que é a cor da pele do sapo (o verde – lembrei de uma tirinha do Armandinho). E essa, do elefante (o cinza). Tudo pode ser “cor de pele”, escolhe o que achar melhor. Mas vamos chamar pelo nome da cor, e não “cor de pele”.

tirinha-armandinho-cor-da-pele-nude

Eu fui na escola e pedi para a professora me ajudar. Contei o que tinha acontecido e pedi para me ajudar a explicar para as crianças que muitas cores podem ser “cor de pele”, e não apenas o rosa claro. Não contente, escrevi esse post e peço do fundo do meu coração: ME AJUDEM? Compartilhem, conversem com as crianças e me ajudem a sumir com esse negócio de chamar o rosa claro de “cor de pele”?

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Como faço para viver sem carro

Não pretendo convencer ninguém. Eu mesma ensaiei essa ideia durante anos, mas só fiquei sem carro quando mudei de emprego e a empresa me pediu gentilmente para devolver o carro. Antes eu tinha só vontade, mas continuei firme e forte com carro na garagem por muito mais tempo que eu queria.

Toda vez que digo que estou sem carro há mais de um ano com duas crianças pequenas – e, não, meu atual marido também não tem carro – as pessoas me fazem muitas perguntas sobre logística. Com vocês, as respostas!

  • Como você faz com a escola? Eles vão e voltam de perua na maioria dos dias, mas a escola é muito perto de casa, então fazemos muito o percurso a pé também. (by the way, escolher uma escola perto de casa foi uma das melhores decisões neste assunto, já que já tive três empregos diferentes desde que eles chegaram e nunca precisei mexer na rotina deles). Se por acaso estiver chovendo muito e eu não quiser usar a perua (às vezes atrasamos de manhã ou eles voltam mais cedo), pego um taxi e gasto uns R$ 6 ou R$ 7, no máximo.
  • Como você faz supermercado? De formas variadas. Frutas, legumes, verduras, farinhas e grãos são pedidos pela internet e chegam em casa. Compro aqui, aqui e aqui (acho a oferta de orgânicos e produtos naturais bem melhor nesses sites que em lojas físicas). Se falta algo, tem um supermercado “de bairro” a uma quadra de casa e vou a pé, com meu carrinho de feira para ajudar com o peso. Tem um Pão de Açúcar a umas quatro quadras e também vou até lá a pé com o carrinho quando preciso de algumas coisas que não acho no mercadinho (o leite dos meus filhos, por exemplo, só encontro lá). Aos domingos tem feira a quatro quadras também, mas não tem muito orgânico. Quando resolvo ir à feira, vou a pé com o carrinho. Quando preciso comprar coisas volumosas e pesadas (tipo produtos de limpeza e caixa de fralda), também peço pela internet aqui. Se estiver chovendo, deixo o supermercado para outra hora, já que a maioria das coisas são entregues em casa, então nunca estou com a dispensa zerada. Em situações bem especiais, alugo carro, mas isso só aconteceu uma vez esse ano, no aniversário deles. Nós fizemos uma pizzada caseira e eu tinha que comprar muita coisa e queria escolher as coisas pessoalmente. Aluguei um carro para fazer o supermercado, e usei o carro para carregar os itens de decoração da festinha (que foi na casa do meu pai) e para trazer os presentes que eles ganharam.
  • Como você faz outras compras? Eu uso muito internet, porque é mais prático. Vinhos, ração do cachorro, acessórios para bicicleta, coisas para as crianças, coisas para casa, revelação de fotos, tudo o que dá faço pela internet. Também não sou de entrar em um shopping, fazer muitas compras e sair de lá carregada de sacolas. Em geral, se compro alguma coisa em loja física, consigo carregar a sacola ou guardar na mochila. Uma única vez este ano aluguei um carro para fazer compras, quando fomos comprar acessórios de camping para as crianças e uma persiana para casa (peguei o carro de manhã, passei nas duas lojas, deixei tudo em casa e devolvi em seguida).
  • Como você faz para viajar? Quando viajo de avião, não preciso de carro, principalmente porque as diárias dos estacionamentos dos aeroportos são muito caras. Vou de transporte público até lá (um ônibus até Congonhas ou metrô + um ônibus até Guarulhos). Aliás, super recomendo o metrô e ônibus até Guarulhos, economiza um bom stress no trânsito e sai menos de dez reais. Com muitas malas ou muitas crianças, às vezes pego taxi. Para viagens via estrada, alugo carro. Qual tipo de carro, depende. Às vezes alugamos um carro menor se vamos só os adultos, alugamos carros maiores quando vamos com as crianças, alugamos carros maiores ainda se queremos levar as bikes. Depende do que vamos fazer. Ah, mas não é muito difícil alugar carro? Não. Tem locadora de veículos em quase todos os shoppings e tem algumas lojas de rua. Eu já viajei com um taxista também (uma pessoa que conheço há anos e em quem confio muito na direção). Fiz as contas e vi que sairia mais barato ir com ele do que alugar um carro e deixá-lo parado no hotel durante cinco dias.
  • Como você faz para levar as crianças no médico? Metrô e/ ou ônibus. Se estiver caindo um temporal, taxi. Se for de madrugada, vou pedir taxi pelo aplicativo. Neste ano, só uma vez eu precisei levar criança para o pronto-socorro correndo, umas 23h. Se a criança estiver morrendo, vou chamar uma ambulância. Se não achar taxi e realmente precisar levar para o hospital numa situação de emergência horrorosa, aí, gente, eu vou acordar o vizinho e pedir o carro emprestado. Tenho certeza que ele vai entender. Não preciso ter um carro na garagem só esperando o caos acontecer.
  • Como você faz para passear aos finais de semana? Metrô e/ ou ônibus. Às vezes, carona. Às vezes, taxi. Às vezes, carro de aluguel (sei lá, pensei nisso agora, se eu quisesse ir ao Simba Safari, alugaria um carro). Na maioria das vezes, consigo usar transporte público para as coisas que queremos fazer nos finais de semana (almoçar na minha vó, visitar meu pai, ir ao cinema, jantar fora).

E a última pergunta de todas: isso tudo não sai muito mais caro?

Não. Já fiz as contas, eu gasto menos dinheiro. E, no meu caso, ainda vivo menos estressada, porque eu realmente não gosto de trânsito, de motoristas estressados e de gente mal educada dirigindo. Eu gasto menos dinheiro porque eu priorizo transporte público sempre (ou caminhadas ou bicicleta). Se alguém pretende vender o carro para andar de taxi o tempo todo e alugar carro todo final de semana, talvez isso seja bem mais caro. A conta depende do estilo de vida de cada um.

O ponto aqui é que dá para viver sem carro. Ninguém precisa ter um carro como se fosse uma necessidade básica, as pessoas simplesmente escolhem ter carro (e, não, não há nada de errado em escolher ter um carro).

São escolhas. Se alguém tentasse me convencer por A + B que eu gasto o mesmo dinheiro com transporte público, taxi e aluguel de carro, eu ainda assim continuaria sem carro. Porque foi uma escolha.

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A vida muda, e depois melhora

Há pouco tempo estava conversando com uma amiga e ela me disse que achava incrível como a natureza prepara as mulheres para virarem mães. Que no início da gravidez ela sentia muito sono e cansaço e ficou mais caseira, como se o corpo estivesse se preparando para a pausa nas baladas. E que no final da gravidez ela não conseguia mais dormir direito por causa da barriga enorme, como se o corpo estivesse se preparando para as mamadas noturnas e tudo mais.

Quando a gente adota não acontece nada disso, tá?

Eu tava lá trabalhando 14-16 horas por dia e saindo para jantar depois e acordando cedo para malhar e viajando aos finais de semana e meu corpo não mudou nada e eu estava fazendo o que desse na telha. Daí eles chegaram.

Não vou mentir. A vida muda muito com a chegada dos filhos. Tem que mudar. Nenhuma vida sem filhos pode ser igual a uma vida com filhos, as coisas mudam. Os horários, as preocupações, as tarefas domésticas, o sono, as prioridades, tudo muda.

Eu senti muito essa mudança toda. Não só porque adotei e não tive nove meses de preparação física, mas porque minha vida era bem diferente. Coisas que foram chocantes para mim:

  • Rotina. Durante a licença maternidade, ficávamos em casa todos os dias. E todos os dias, incluindo finais de semana e feriados, era aquela mesma coisa: eles acordavam cedo (gente, 6h no sábado, gente), eles tinham que fazer mil refeições todos os dias (não tem essa de almoçar amendoim e depois inventar um almojanta, sabe?), se dormissem tarde ou pulassem o sono da tarde ficavam irritados, e mais uma porção de coisas diárias que eu tinha que seguir. Eu estava acostumada a acordar cada dia em um horário, a voltar para casa cada dia em um horário, a almoçar quando desse fome e por aí vai.
  • Sair do trabalho às 18h. No início, era o máximo que eu podia ficar no escritório para chegar na escola no horário certo e já contei aqui, aqui e aqui como esse processo todo me estressava.
  • Ficar em casa todas as noites. Eu gostava de jantar fora, gostava de ir ao cinema à noite, trabalhava até tarde sem reclamar. Ter que voltar para casa e depois ter que ficar em casa até o dia seguinte foi algo bem difícil.
  • Ter preguiça de sair de casa. Porque eu tinha que levar uma mala com tudo que poderia precisar para cuidar deles, porque eu tinha que levar duas crianças e porque eu não podia relaxar e tirar o olho deles um único minuto. Dava muita preguiça.
  • Ser tirada do trabalho no meio do dia. Não sei por que eu tive a doce ilusão que crianças iam para escola e que mães iam trabalhar normalmente. Em meus sonhos, nenhuma escola me ligaria para nada e eu nunca teria que sair correndo para socorrê-los.
  • Mudar totalmente o lazer: comer fora era diferente, viajar era mais difícil, cinema exigia um planejamento muito maior que comprar ingresso e ir (com quem vão ficar? que horas dá para ir? preciso fazer mala para deixar na vó?), ir a uma festa de casamento parecia impossível.
  • Ter que fazer (aka responsabilidade): parece básico, mas funciona assim: se não der banho, eles não tomam banho. Se não escovar os dentes, eles não escovam sozinhos. Se não trocar a fralda, vaza tudo na roupa. Se não levar no médico, perde o timing das vacinas. Se não fizer comida, morrem de fome. Se não compra roupa nova, eles saem por aí com calças curtas e camisetas baby look. Cara, é muito processo. É muita coisa para fazer.

Mas aí tudo melhorou. Não sei se foi a idade (love you, 4 anos), não sei se foram todas as mudanças que fiz na minha vida para me entender com todas as mudanças que meus filhos trouxeram, não sei se simplesmente entrei no esquema.

Em pouco tempo, estar em casa no final do dia não era uma obrigação, mas, sim, o maior prazer do meu dia e comecei a querer chegar cada vez mais cedo. Eles dormem e eu fico em casa sem nenhuma ansiedade. Durante um tempo eu tinha uma folguista para poder sair no sábado à noite enquanto eles dormiam, mas tem uns seis meses que não a chamo. Simplesmente gosto de estar na minha casa e de ir até o quarto deles caso precisem de alguma coisa. E gosto de passear com eles e de levá-los junto comigo. Escolho filmes e peças infantis e me divirto muito, planejo viagens, levo em festas, frequentamos restaurantes e até levei os dois em eventos da empresa do namorado. Eles fazem parte de mim e damos um jeito de adaptar o programa para crianças. Hoje eu já não sinto mais o “não posso”, “não vai dar”, “vai ser muito difícil”. Pelo contrário, eu acho que posso fazer o que eu quiser de novo.

Minha vida é muito melhor que há 3 anos e meio atrás. A sensação que tenho em relação à minha vida pré-filhos é a mesma que tenho com relação aos meus anos de colégio: morro de saudades de só estudar, dos amigos da época e dos papos que eu tinha na época, das preocupações com as provas e ficantes, das tardes livres, mas não me vejo jamais experimentando essa vida novamente.

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Sai fora, adolescência!

Até outro dia, eu tinha que ficar conversando sobre mordidas nos amiguinhos da escola. Eles mordiam e eram mordidos e aí rolavam aquelas conversas com a escola, com eles, com as mães. Sabem como é. Ainda bem que passou.

Aí hoje me vi conversando com uma outra mamãe sobre “vamos orientar nossos filhos a não dar beijo na boca. só no rosto. tá muito cedo ainda”.

Mano, mas pula assim de mordidas aos beijos na boca em menos de um ano? Que coisa é essa? Não tinha nenhuma etapa intermediária?

Não, não foi o Isaac. A Ruth também tem um namorado. E a Ruth sempre me arruma uma encrenca maior. Isaac vai de mãos dadas na perua, Ruth dá um beijo no namorado na porta da escola.

Quem estiver disponível, passa aqui em casa para me dar um abraço.

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Mas é só de vez em quando

Veio na agenda da escola um comunicado sobre a próxima excursão e lá estava escrito que o almoço das crianças será no McDonalds. Eu achei um horror e minhas colegas-mães se dividiram em dois tipos de opiniões: “também sou contra” e “só de vez em quando não faz mal”.

Sim, só de vez em quando, só essa vezinha não vai matar ninguém. Ninguém vai mudar os hábitos alimentares drasticamente, ninguém vai passar a querer apenas McDonalds todos os dias. É só uma vez no ano. Então, qual o problema com o almoço no McDonalds, Ruri?

Vamos aos conceitos. “Só de vez em quando”, para mim, é aplicado a coisas especiais que não podemos fazer no dia a dia. De vez em quando meus filhos ganham um presente, um brinquedo novo, uma roupa nova. De vez em quando nós vamos viajar. De vez em quando busco os dois na escola logo após o almoço para irmos ao cinema. De vez em quando alugamos um carro e passamos o domingo na praia. De vez em quando tem uma excursão na escola.

Coisa ruim a gente não faz nunca por querer. Ninguém programa uma coisa ruim para ser feita só de vez em quando. Se é ruim, não fazemos. Ah, ok, me coloca numa situação extrema: se eu estivesse num deserto, se os dois estivessem há 12 horas sem comer e se eu soubesse que não teríamos outra comida pelas próximas 5 horas, sim, eu daria um lanche do McDonalds para eles. Repito: coisa ruim a gente não faz por querer: a gente faz sem querer ou em situações extremas.

Na minha opinião, a questão do McDonalds no passeio da escola não é se vai fazer ou não mal para saúde ou para alimentação dos meus filhos. Meu problema está em associar uma coisa ruim (ruim mesmo em vários aspectos: comida de péssima qualidade, venda casada com brinquedos e tudo o mais) com uma coisa bacana e especial como é uma excursão com os amigos da escola. Se vamos fazer uma coisa especial, vamos colocar apenas coisas especiais no pacote. Não vejo motivos para incluir um treco ruim em um dia especial. Não faz o menor sentido associar o McDonalds a todas as coisas legais que a gente só faz de vez em quando. É como se McDonalds fosse tão especial quanto o presente, a viagem, os passeios e a excursão da escola.

Não.

Não pode.

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Os amores do meu filho

O primeiro amor

A gente chegou para as férias no hotel fazenda e foi direto jantar. Ele estava no cadeirão, com seus três anos e seu prato de macarrão, quando a menininha entrou. Era um pouco mais velha que ele (quatro anos?), com cabelo castanho claro, liso e comprido. Isaac espichou o pescoço, ficou seguindo a menina com os olhos, virou o corpo para o outro lado, quase teve um torcicolo. Parecia ter visto a Frozen. Aí virou para mim:

– Mamãe, eu gosto dela!

Aí eu tive que ensinar que não pode ficar secando mulher dessa maneira. Pô, Isaac. Sem fiu fiu. Ensinei que ele tinha que ir com calma e esperar um momento adequado para falar com ela. Não, não pode levantar da mesa no meio do jantar, até porque a menininha também ia jantar com os pais. Isso, termina seu jantar e depois a gente vê. Na verdade, depois não vimos mais onde ela estava e fomos para o quarto tomar banho e dormir.

Por algum motivo só vimos a menininha de novo dali a algumas refeições. Dessa vez, ele já tinha terminado de comer e tinha música ao vivo no restaurante, e algumas crianças estavam dançando. Deixei ele ir até lá. Ajudei a descer do cadeirão (gente, ele ainda usava cadeirão) e ele deu dois passos. Parou, voltou:

– Mas o que eu falo para ela, mamãe?

Ah, que saudade vou sentir desse tempo em que posso dar conselhos amorosos para filho.

– O que quiser. Pergunta o nome dela.

– Tá. – deu dois passos. Parou. Voltou.

– Tenho vergonha.

Coisa fofa. Esmaguei. Ele tentou mais uma vez. Perguntou o nome, ela respondeu e ele voltou correndo para mim:

– Mamãe, ela se chama x!!

Esqueci o nome do primeiro amor do meu filho. Ele também não conseguiu falar mais nada com ela, de vergonha. Preferiu ficar no meu colo, olhando de longe, e eu não reclamei, não. 🙂

O segundo amor

Agora é a Bia. Da escolinha, da sala da Ruth. Uma das melhores amigas da Ruth. Não sei se ele está tentando irritar a Ruth. Talvez não. Vai saber.

– Isaac, você é o amor da minha vida. – estávamos indo a pé para a fono.

– Você também, mamãe. Você e a Bia.

(Minha cara de “quem é Bia?”)

– Eu vou casar com a Bia. Mas só vou casar quando eu for adulto, porque senão você vai brigar.

(Vou brigar de qualquer jeito)

– E vou ficar sozinho em uma casa, eu e a Bia.

(Pelo menos você sabe que não vai morar comigo nem com a mãe da Bia depois de casar, Isaac)

Agora tem desenhos para a Bia todo dia. Bilhetinho pra Bia. Toda vez que falo que o amo, ele responde que ama nós duas, eu e a Bia.

Pô, Bia. Não estava preparada psicologicamente para dividir meu menino. Tá muito cedo. ❤

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