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Os parquinhos de Paris

Os parisienses gostam demais de suas crianças e também ajudam bastante os turistas que viajam com crianças: tem um parquinho fofo, limpo e bem sinalizado em toda quadra e ao lado de todo monumento histórico.
Parquinhos duas ou três vezes ao dia ajudaram meus filhos a descansar de longas caminhadas e de visitas cheias de regras (não pode mexer, não pode gritar, tem que dar mão). Também dava um descanso para nós dois, os adultos, pois podíamos sentar na sombra e conversar sem os “por quê? por quê? por quê?” de crianças de quatro anos.

Além da limpeza e quantidade, uma coisa me chamou atenção nos parquinhos de Paris: nenhum deles tem balanço. Em São Paulo, todo parquinho que conheço – incluindo meu próprio prédio – tem balanço. E eu detesto balanço.

Não só porque é perigoso, com criança voando e caindo de cara no chão e criança passando perto de outra criança balançando e perdendo a cabeça. Detesto balanço porque eles demandam adultos na brincadeira. Sabem? “Manhê, vem aqui me balançar?”. Aí você tem que levantar e ficar em pé no sol olhando aquele vai-e-vem entediante. Ou você sugere que outra criança balance, e aí sai briga na certa, além de ser perigoso. Inferno de balanços. Citei balanços, mas em São Paulo tem também as gangorras, outra coisa que detesto. Aquela coisa que prende o pé de um na hora que abaixa, que pode quebrar os dentes do outro na hora que levanta rápido, e é sempre difícil de entrar e sair para brincar sem ajuda de um adulto. 

Aqui não tem balanços. Claro que eles sempre podem cair de algum lugar em que subiram, faz parte. Mas sempre podem brincar sozinhos. Autônomos. Sem adultos por perto. Não precisam ficar chamando a mãe o tempo todo e nem preciso ficar preocupada se alguma coisa vai acertar a cabeça deles. Adultos podem ou não participar da brincadeira, mas não tem nada nos parquinhos que as crianças não consigam fazer sozinhas (desde que sigam as recomendações de idade que estão em todos os brinquedos). Nada é perigoso, tudo é pensado e adaptado para crianças e até o chão é emborrachado para amortecer as quedas. Em todos os parquinhos.

Uma vez levei os dois para passear no Horto Florestal em SP e fiquei mega frustrada com o parquinho porque eles não conseguiam subir em nada sem minha ajuda. Haddad, a gente precisa de mais parquinhos e de mais autonomia, ok?

E só para fechar: ninguém vem de branco no parquinho. Não sei se os adultos que estão aqui acompanhando crianças são parentes ou babás, porque ninguém está discriminado. Porque, né, não preciso saber se a moça que está olhando a menininha com quem a Ruth está brincando é a mãe dela ou babá dela. Alguém que vive na mesma cidade que eu já foi em um parquinho no meio da semana para ver a quantidade de moças de branco que estão por lá? Ou num clube? Ai, São Paulo, você e suas bizarrices. 

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Exemplos de vida simples

Conversa com o porteiro:

– Ruri, não estou achando sua convocação aqui para a próxima reunião de condomínio. Estou entregando para todos os moradores e não acho a sua.

– Ah, eu sou inquilina, não sou convocada. Deve ter ido direto para o proprietário.

Parênteses 1: odeio reunião de condomínio. Só ia em reuniões de condomínio quando eu era proprietária de um apartamento porque fazia questão de votar contra despesas extraordinárias desnecessárias, tipo reformar academia do prédio, aquecer a piscina, construir uma pista de kart e tal – aquelas coisas que não usava, que era obrigada a pagar e que não ajudaram a valorizar nadinha o imóvel na hora de vender. Sempre saía com menos fé na humanidade quando ouvia discussões ridículas de vizinhos brigando por carros na garagem ou cachorros nos elevadores.

– Puxa, mas essa reunião é muito importante. Vão decidir as vagas da garagem. Se quiser, eu posso conversar com o síndico para você participar.

– Ah, obrigada, se precisar, te falo!

Parênteses 2: não tenho carro. Minha bike cabe em qualquer vaga de garagem e não tenho dificuldade para manobrar. Tanto faz esse sorteio de vagas de garagem, gente.

Isaac e Ruth, mamãe quer muito que vocês saibam que esses sonhos de “casa própria” e “ter um carro” só complicam a vida da gente. Sejam simples.

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Dor e amor de mãe

Conceitualmente, se me perguntarem o que acho de dia das mães e dia dos pais, vou responder que são datas meramente comerciais, inventadas por alguém que queria vender mais produtos. Se alguém me perguntar se faço questão: não, não faço. Significa que se meus filhos me disserem um dia que acham a data comercial demais e que preferem não comemorar, vou achar normal, sem crises.

Mas quando recebi a mensagem avisando que o papai não iria na festa de dia dos pais na escola, eu sofri. Veio um filminho na minha cabeça com a festa do dia das mães e vi de novo os olhinhos deles me procurando na plateia enquanto as tias posicionavam as crianças no palco. Vi de novo as carinhas felizes, cantando a música dos Tribalistas olhando para mim, errando todos os passos. Lembrei de todos os dias anteriores que eles cantarolaram a música, fazendo spoiler da festa para mim. Fiquei imaginando os dois ensaiando para a festa do dia pais há semanas. Doeu em mim.

Sim, pode ser muito drama da minha parte e acho que eles são muito mais maduros que eu. Mas eu passei dias inteiros preocupada, pensando o que eu tinha que fazer para que os dois não sofressem com isso. Tive ideias mirabolantes. Achei que eles não poderiam ir para escola o dia inteiro. Nem a semana toda, já que a decoração da festa estaria montada desde segunda-feira, porque cada turma comemoraria com seus pais em uma dia semana. Achei que eles mereciam uma programação master especial fora da escola para esquecerem a festinha. Eu simplesmente não consegui parar de pensar durante dias em como não deixar meus pequenos sofrerem, mas quem estava sofrendo por uma possível dor deles era só eu.

E quem me acudiu foi a melhor pessoa para entender a dor de mãe: minha mãe. Eu sei que no fundo ela também não queria que eu ficasse sofrendo, por isso ela veio socorrer. Foi até a escola dos brigadeirinhos no meio da tarde, trouxe-os para nossa casa e ficou com eles até eu chegar do trabalho. Deixou o trabalho dela e os compromissos que ela tinha, para que eu não precisasse ir pessoalmente buscá-los mais cedo. Passear com a vovó no meio da semana foi super divertido e eles adoraram.

Mãe, você é a melhor mãe do mundo. Eu não tenho aspiração de um dia ser a melhor mãe do mundo porque nunca vou conseguir ganhar de você.

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Refugiados

Tô em Paris.

ESTAMOS em Paris, na verdade.

Algumas pessoas me perguntaram se não achava um pouco cedo para trazer os dois para Paris, porque eles não vão se lembrar de nada.

Eles, não sei. Só sei que eu vou me lembrar de tudo. Pra sempre.

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Apaixone-se

Achei esse texto uma graça. Principalmente quando ela escreve: “Encontre alguém que deixe o telefone do seu lado para emergências. Alguém que não queira te deixar sozinho nesse estado, mas que se tiver que sair, fique com a cabeça em você. Alguém que cancele os compromissos do fim de semana, se acomode ao seu lado no sofá, coloque um filme e faça carinhos na sua barriga que ainda faz “blorgh-blorgh-blorgh”.”

Se você quer ser mãe ou já é mãe, vou completar: apaixone-se por alguém que cuide de criança doente.

Vamos aos fatos: criança doente enlouquece. Não sabem o horário dos remédios nem conseguem tomá-los sozinhas. Às vezes não chegam limpas até o banheiro quando estão com diarréia. Perdem o apetite e começam a não querer coisas que sempre adoraram. Ficam em casa entediadas e começam a ter ideias de jerico. Ficam entediadas por não poder sair e perdem o sono. Ou têm sono mas não conseguem dormir por causa da tosse. Não percebem que estão com febre e a gente tem que ficar atrás delas com termômetro. Não param quietas para fazer inalação. Cospem o remédio no chão. Dureza, para não dizer nada mais grosseiro e perder a linha. E, depois de tanto esforço, criança não agradece, né? Ela olha pra sua cara e manda um: NÃO QUERO TOMAR BANHO AGORA PORQUE ESTOU MONTANDO QUEBRA-CABEÇA, SUA CHATA!!!

Então, apaixone-se por alguém que cuide de criança doente. Alguém que cancele os planos de viagem no feriado, passe na farmácia e comece a controlar os horários do antibiótico. Alguém que faça home-office se for preciso, já que cuidar de criança chata doente não é papel só da mãe. Alguém que divida a cozinha imunda, os lenços para limpar nariz catarrento, as crises de tosse no meio da madrugada. Apaixone-se por alguém que não reclame da sujeira-bagunça-chatice da situação, porque nenhuma criança tem culpa por ficar doente. Apaixone-se por alguém que esteja com um sorriso nos lábios e carinho no olhar assistindo desenho no domingo à tarde, mesmo que o plano original fosse totalmente o oposto.

É bom se apaixonar por alguém que goste de viajar, que goste de ler, que goste de esportes. Mas, se existem crianças no planejamento estratégico, vai por mim. Na hora do antibiótico, você não vai querer viajar, nem ler, nem ir ao cinema: você vai simplesmente querer que alguém limpe um bumbum de cocô enquanto você toma um banho.

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Nossa vida sem carro

Eu comemorei, tá? Quando me dei conta que estava há mais de um ano vivendo sem carro, comemorei.

Óbvio que ninguém que vive em São Paulo gosta de trânsito, eu nunca gostei de trânsito. Mas trânsito passou a ser um stress na minha vida depois que virei mãe. Antes disso, eu vivia nos meus horários “alternativos”, entrando no trabalho depois das 10h e saindo de lá depois das 23h e nunca-jamais-de-forma-alguma saía na rua às 18h. A maternidade traz horários e compromissos rígidos e intransferíveis e o trânsito paulistano passou a me enlouquecer. Quando digo enlouquecer, é no sentido literal.

Sem carro, eu passei a viver uma vida sem trânsito. Com isso, eliminei uma das coisas que mais me estressavam e passei a viver mais leve.

Há um tempo atrás, escrevi aqui no blog que o transporte público em São Paulo não funcionava e que eu invejava pessoas que moravam em cidades onde era possível se locomover de bicicleta. São Paulo, me perdoa. Você tem muitos problemas e há, sim, oportunidades de melhoria no transporte público e nas ciclovias, mas andar de ônibus, metrô e bike em São Paulo é mil vezes mais feliz que enfrentar o trânsito de carro. Experiência própria.

Em um ano, nem uma vezinha sequer eu lamentei não ter carro. Moro a duas estações de metrô de um shopping onde tem uma locadora de veículos. Aluguei carro algumas vezes para viajar e duas vezes para fazer coisas na cidade (compras grandes e transporte de coisas desajeitadas). Nos últimos meses, comecei a evitar ao máximo o taxi, por uma questão de $, que a coisa não tá fácil pra ninguém. Depois criei coragem para começar a usar a bicicleta na cidade. Eram dois medos: assaltos e atropelamentos. O medo de assaltos foi resolvido com um seguro e o medo de atropelamentos não foi resolvido, mas capricho nos acessórios de segurança e enfrento. Levo criança na garupa (uma de cada vez, pois só aguento uma cadeirinha na bike) para fazer coisas pelo bairro, porque fui presenteada com uma ciclovia a 150 metros de casa. Quando estou sozinha, vou mais longe e considero bicicleta uma alternativa ao metrô e ônibus.

E o que isso tem a ver com maternidade, já que tenho um blog para falar sobre maternidade? Não ter carro mudou muito nosso estilo de vida e acho que meus filhos amadureceram e aprenderam muito com esse nova vida sem carro.

Primeiro, eles entendem bem a cidade onde vivem. Sabem andar na rua e atravessar a rua com segurança. Conhecem as faixas destinadas aos ônibus, as ciclovias, a faixa de pedestre, as preferenciais. Sabem que os semáforos para pedestres fecham muito rápido e é preciso andar rápido e prestar atenção. Sabem que, mesmo com o semáforo fechado, alguns motoristas precisam tirar a mãe da forca e é preciso sempre olhar para os dois lados. Conhecem bem as estações de metrô e os pontos de ônibus e sabem o que precisam fazer para pagar, para pedir para descer do ônibus ou como esperar o metrô atrás da faixa amarela. Há pouco tempo eu estava de papo com um adulto que vive em São Paulo e que não sabia o que era o Bilhete Único. “Mas dá pra pagar em dinheiro se eu quiser?” – ele também não sabia que tinha cobrador no ônibus. Também não sabia como fazer para descobrir que linha pegar (nunca tinha visto as rotas via transporte público no Google Maps), nem o preço (só sabia que as pessoas reclamaram do aumento de R$ 0,20), nem nada. Isso não é uma crítica a quem nunca entrou num ônibus; meu sentimento foi só um super orgulho dos meus pequenos, que já poderiam explicar como se faz para pegar o metrô ou o ônibus para ele.

Em segundo lugar, eles não são telespectadores da cidade. Andando apenas de carro – porque quando a gente tinha carro era de carro que eles iam pra escola, pro parque, pra casa da vó etc. – eles viam o mundo através de uma janela com insulfilme. Hoje eles estão inseridos e fazem parte do mundo que rola do lado de fora dos carros. Passam a centímetros de distância de moradores de rua e vendedores ambulantes, olham de perto o movimento de carros, ônibus, bicicletas e pedestres, passam perto das vitrines das lojas de rua, cruzam com pessoas, sentem o cheiro, ouvem o barulho. Estão dentro de trens lotados no horário de pico, estão embaixo do guarda-chuva quando está chovendo, estão parados no ponto enquanto o ônibus demora.

Sem carro, eles dividem vagões com pessoas diferentes. E aprendem que as pessoas são diferentes umas das outras em diversos aspectos. Eles não conseguiam ver toda essa diversidade apenas nos lugares que estão na rotina deles. Porque é assim, ó: a escola tem um preço e a maioria das famílias tem uma renda parecida para estudar lá, além de morarem na mesma região. A gente freqüenta shoppings perto de casa ou onde estão as lojas que a gente gosta, como todas as outras pessoas que estão lá. O resort das férias também diz muito sobre a renda das famílias, assim como o clube e as atividades extracurriculares. Andar na rua fora da lata do carro é muito diferente.

E, dividindo o transporte com pessoas diferentes, eles aprendem a respeitar e conviver com estas pessoas, o que vai muito além de levar um brinquedo na escola toda sexta-feira para aprender a emprestar pro amiguinho. Eles aprenderam a dar licença, a pedir licença, a esperar as pessoas desembarcarem antes de entrar no metrô, a ceder o lugar para pessoas que precisam se sentar mais que eles, a recusar assento que nos oferecem quando vamos descer logo, a não empurrar e não chutar as outras pessoas (mesmo que isso seja sem querer), a se desculpar.

E, por fim, estão acostumados a bater perna. Acontece muito de precisarmos andar 1k de um lugar para outro e eles acompanham numa boa. E isso foi genial quando fomos acampar e fazer trilhas, porque eles subiram morros super bem.

Há pouco tempo li ou ouvi a história de uma mãe (não me lembro se foi um texto ou uma conversa de bar) que levou os filhos para algum lugar na Europa nas férias e que ficou incomodada com o comportamento das crianças no metrô e nos trens por lá. Ela dizia que seus filhos não conseguiam respeitar a faixa amarela, que ela precisava ficar segurando bem firme as mãozinhas para que eles não fugissem, que precisava chamar atenção deles o tempo todo, enquanto as crianças europeias estavam tranquilas respeitando a sinalização e seus pais, sem precisar de nenhum “Marie, fait-pas ça!!!”. O que acontece aí não é uma diferença entre nacionalidades, apenas. A diferença está no estilo de vida que as famílias levam e na forma como expõe seus filhos ou não ao mundo.

Então é isso. Menos carro, menos trânsito, menos stress, mais participação, mais diversidade, mais amor.

andré dahmer

Tirinha de André Dahmer, que copiei daqui ó

PS: não compro contra-argumentos dizendo que andar de carro é uma questão de segurança em São Paulo. Sequestros-relâmpagos, armas na janela e carros roubados com bebês na cadeirinha no banco de trás são violências bastante assustadoras para crianças e para os pais. Moro em uma cidade com problemas claros em relação à segurança e isso afeta tanto quem anda de carro quanto quem não anda de carro.

PS2: este post não é informe publicitário do Haddad e nem tenho a pretensão de iniciar uma discussão do tipo fla-flu sobre partidos. Então não vale dizer que ciclovia na subida é um absurdo e que bom mesmo é investir dinheiro na PM.

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Manual de etiqueta para lidar com um adotante

Aconteceu hoje de manhã. São três anos como mamãe adotante, e três anos ouvindo perguntas indelicadas sobre adoção. Eu nunca dei uma resposta mal educada, porque sempre quero acreditar que a pessoa não pensou na gafe que estava cometendo ao perguntar. Mas espero que esse manual ajude a dar mais noção para quem quer conversar sobre adoção por aí, principalmente para quem for conversar com alguém com quem não tem nenhuma intimidade.

– Ah, eles são adotados. Então você não teve filhos?

Mano, como assim não tive filhos? Não estamos justamente falando sobre os meus FILHOS? Como você me pergunta se não tive filhos, pessoa?

– Mas você não quis ter filhos seus?

Eles são meus. Muito meus. Têm meu sobrenome. Meu nome está em todos os documentos deles. São MEUS pra caramba. E é irrevogável. São meus filhos e não deixarão de ser meus nunca.

– Mas você não quis/ não pôde engravidar?

Eu, particularmente, não quis engravidar, nem sei se posso engravidar, e não tenho problemas em falar sobre isso. Mas pense no que acontece para alguém não poder engravidar: 1) a moça não tem um parceiro para engravidá-la, 2) a moça não tem um parceiro para engravidá-la e não tem recursos para fertilização, 3) a moça não pode engravidar por alguma questão de saúde, 4) a moça pode engravidar, mas tem alguma doença que pode ser transmitida para o bebê e prefere não fazer isso, 5) a moça engravidou naturalmente e perdeu o bebê (uma vez, algumas vezes), 6) a moça fez diversos tratamentos para engravidar e não conseguir engravidar, 7) a moça não gosta de fazer sexo, e é preciso fazer sexo para engravidar por vias naturais, 8) <insira aqui outro motivo>. Qualquer coisa que tenha acontecido para alguém não poder engravidar é ÍNTIMO. Você, que não tem nenhuma intimidade com esta pessoa, não deveria ficar investigando estas questões. Às vezes dói, constrange, incomoda falar. Por favor, nunca mais façam essa pergunta.

Só para constar: não querer ou não poder engravidar não tem nada a ver com adotar. As pessoas podem querer engravidar E adotar, e pronto.

– E você conhece os pais deles?

Conheço. A mãe sou eu e o pai é meu ex-marido. Você se refere aos genitores? Por que essa informação é relevante na sua vida?

– E eles sabem que são adotados?

Cara, você que me fez essa pergunta certamente não é alguém próximo em minha vida. Então, raciocine: por que eu contaria para você um segredo que tento esconder de meus filhos? Você acha que tem algum privilégio para guardar uma informação que meus filhos não podem ter? Jura?

– E você não tem medo de <insira aqui alguma bobagem>?

Não. Eu não tenho medo de doenças, riscos, coisas que podem acontecer, problemas, traumas ou qualquer coisa que você esteja prevendo. Se eu tivesse – não há mal nenhum em ter medos na vida – certamente não estaria a fim de dividi-los com você. É íntimo e não temos intimidade.

Mamães e papais adotantes, mais alguma pergunta irritante que vocês costumam ouvir por aí?

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O medo e a curiosidade

Eu tinha medo de engravidar durante o colégio, porque eu tinha que estudar muito e entrar na USP.

Eu tive medo de engravidar nos primeiros anos de faculdade, porque eu dependia das minhas notas para escolher a engenharia que queria fazer e não podia perder aula por causa do parto.

Aí eu tive medo de engravidar nos demais anos de faculdade, porque eu precisava me formar.

E tive medo de engravidar logo depois de me formar, porque tinha que terminar o programa de trainee, terminar o mestrado, pagar o financiamento do carro.

A partir daí, tive medo de engravidar e estacionar minha carreira, porque eu tinha que ser promovida várias vezes.

Casei e tive medo de engravidar logo e não aproveitar a vida de casada sem filhos.

Aí quis adotar e tive medo de engravidar durante a habilitação para adoção, porque achava que não iriam me aprovar com um bebê na barriga.

Aí adotei gêmeos e tive medo de engravidar, porque… é óbvio, né?

Só que acho que o relógio biológico me pregou uma peça e comecei a ter curiosidade. Tenho vontade de engravidar para saber como é esse negócio de gravidez: o filho crescendo na barriga, o corpo mudando, o amor por um ser que nunca foi visto.

Mas só tenho curiosidade para saber como é estar grávida. Não tenho curiosidade para saber como é ter o terceiro filho. Nenhuma, para ser bem sincera. Racionalmente, nasci para ser mãe de dois.

Então eu fico pensando como seria legal engravidar sem querer. Porque aí não tem jeito, o bebê veio sem querer e tem que encarar. Aí mato a curiosidade e depois crio três.

Mas com tanto medo de engravidar, eu nunca vou ficar sem pílula e sem camisinha. Porque vai que engravido, que medo. E não acho que alguém que usa dois métodos anticoncepcionais vá engravidar sem querer. Pelo menos, espero que não, que medo de engravidar, credo!

Para resumir, vou passar por esta vida sem saber qualequié.

Mas fico feliz que não tive essa curiosidade antes de adotar. Porque acho que não teria encarado gêmeos na adoção se já tivesse uma criança em casa. E aí não teria sido escolhida pelo Isaac e pela Ruth, e nem consigo pensar em passar por esta vida sem os dois. Nenhuma outra criança seria tão legal quanto eles.

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Relato da melhor viagem de todos os tempos

Eu achava que hotéis-fazenda e resorts eram o maior mico paulistano para férias e que jamais entraria em um desses, mas paguei a língua. Em julho do ano passado, quando as crianças tinham 3 anos, não consegui pensar em nada mais divertido e que não fosse me deixar muito estressada. Fomos para um hotel-fazenda em Socorro – SP porque achei que era fácil.

Foi uma delícia, porque tinha muita coisa para eles fazerem mesmo com a pouca idade: passeios a cavalo (acompanhados por tios que iam a pé ao lado deles), passeios de charrete, passeios de triciclo (com a mamãe pedalando), passeios de trator, bichinhos para alimentar com ração, mini-tiroleza, pedalinho, parquinho. Só a piscina ficou de fora, porque fomos no inverno. Eles não podiam ficar com os recreadores porque era muito novinhos, então passamos os dias juntos. Gostei. Foi legal.

No Réveillon, eu queria tudo fácil de novo, então escolhi um ecoresort em Mairiporã, a uma hora de São Paulo. Neste hotel, a recreação recebia crianças a partir de três anos. Das 10h às 18h eles tinham atividades junto com os tios: brincadeiras, piscina, pedalinho, oficinas, filminho. Às 18h eles devolviam as crianças e pegavam de volta às 19h30 para jantar e para mais uma atividade noturna. Durante os cinco dias, me esbaldei. Tirei férias. Joguei tênis, andei de bike pela estrada de terra em volta do hotel, fiz stand-up paddle na represa, corri, li, dormi na rede. Depois das 18h ficávamos juntos para jantar e nanar, porque achei que recreação até 22h para crianças de três anos era muita coisa e eles precisavam descansar. Fizemos algumas atividades juntos, mas eles gostavam mesmo era de ficar com as outras crianças e com os tios. Quando chegou o Carnaval, tive preguiça de novo de pensar e fomos para o mesmo hotel. Mesmo esquema, mesmos recreadores, eles adoraram de novo. Mas eu fiquei beeeeeem entediada. Esse esquema piscina de hotel, restaurante de hotel e atividades do hotel realmente não é para mim. Além do mais, eu tirava uns dias com meus filhos e quase não via meus filhos.

No último feriado, eu quis fazer alguma coisa que fosse realmente especial com eles. Resolvi parar de ter preguiça e levei os dois para acampar, que é uma das formas que mais gosto de viajar. Preparamos tudo antes: eles ganharam uma barraca, saco de dormir, tênis de caminhada, mochila, capa de chuva. Pesquisei bastante o lugar e acertei na mosca. Queria um parque nacional, com muito mato e trilhas, mas também um camping com alguma estrutura para o caso de algum pânico. Fomos para São José do Barreiro, na região da Serra da Bocaina, e acampamos num lugar fofo demais no meio das montanhas.

Montamos as duas barracas, uma para crianças e uma para adultos, embaixo de uma árvore e nossa mesinha ficou ao lado delas – nela fazíamos as refeições e as crianças a usavam para brincar também. Muita gente me perguntou se não tive medo de deixar os dois sozinhos em uma barraca. Gente, não. Minha barraca estava a 30 centímetros da barraca deles, eu conseguia ouvir eles se mexendo lá dentro. Para sair da barraca, eles precisariam abrir três zíperes e eu com certeza iria ouvir. Até porque eles dificilmente iriam ter a ideia de sair da barraca no meio da madrugada sem antes conversar um com o outro, dar risadinhas e planejar a fuga – e eu iria acordar com essa movimentação. E, por fim, se em casa, onde temos luz elétrica e eles conhecem bem o lugar, dificilmente eles saem do quarto no meio da noite, não tinha porque achar que eles iriam andar no barro e no breu no camping. Nem cogitaram. Na primeira noite, ficaram eufóricos com a novidade e demoraram para dormir; nos outros dias, mal eu fechava o zíper já ouvia os suspiros de sono e eles não falavam uma palavra um com o outro, tamanho era o cansaço dos dias cheios de novidades.

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Os mocinhos dormiram em sacos de dormir sobre os isolantes – sem travesseiros, edredons ou bichos de pelúcia – e tomaram banho em banheiros coletivos. Toda água que usamos para cozinhar e para beber vinha de uma bica de água mineral que havia no camping, e eles eram responsáveis por encher as próprias garrafas (obviamente, viviam molhando a roupa também). Levei comida para os quatro dias e fizemos todas as refeições (café da manhã, almoço e jantar) ao lado das barracas – o camping tinha um restaurante, que seria o back up para emergências, mas não comemos lá nenhuma vez.

No primeiro dia, fizemos uma trilha de cerca de 1,5k até uma cachoeira, a partir do camping. Preciso dizer que nossa vida sem carro os ajudou muito, porque estão acostumados a andar bastante e aguentaram bem as subidas. Eles quiseram entrar na água congelante da cachoeira e amaram.

Trilha

Cachoeira da Usina

No dia seguinte, fomos até o parque nacional, que fica a uns 30k do camping. O carro ficou na portaria e andamos 1,5k até a primeira cachoeira. Foi muita fofura numa manhã só. Cada um deles tinha sua mochila com sua garrafinha de água e caminhamos sem pressa nenhuma, conversando sobre os cogumelos, sobre as árvores, sobre o céu azul lindo demais, sobre os brotinhos de plantas, sobre os passarinhos. A volta foi um pouco puxada porque já estava na hora do almoço, e a Ruth sofreu um pouco com o cansaço. Tínhamos levado o fogareiro e almoçamos macarrão sentados na grama. Depois eles colheram pinhões, que cozinhamos no camping para o lanche da tarde.

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Parque nacional da Serra da Bocaina

No terceiro dia, fizemos a mesma trilha que saía do camping, mas passamos a cachoeira e fomos até o alto da montanha. Aí eu morri de orgulho dos meus aventureiros, que encararam subidas que muito adulto não encara, não. Na volta, paramos para um merecido banho de água fria para refrescar.

Subida

Trilha

Nesse mesmo dia, subimos de volta até o parque nacional para ver o pôr-do-sol. E, no dia seguinte, acordamos cedo para ver o sol nascer atrás das montanhas e desmontamos tudo para voltar para casa.

Por do sol

Por do sol

Foi a viagem mais incrível que fiz nos últimos tempos. Ficamos muito juntos e eu fiz com eles algo que realmente gosto de fazer. Os dois foram companheiros, aventureiros, curiosos e curtiram demais. Na segunda, quando fui buscar na escola, a diretora veio me dizer que nunca tinha visto os dois tão felizes, que tinham falado da viagem o dia inteirinho, e eu fiquei mais feliz ainda.

Só para fechar: a conta do camping saiu R$ 290 para quatro pessoas e quatro dias, já inclusas todas as cervejas que comprei no bar. Cada um dos hotéis que ficamos antes custaram alguns milhares de reais. Com budget menor, multipliquei por 10 meus planos de viagens com eles esse ano agora que sei que gostaram tanto de dormir no meio do mato!

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Suicídio

Eles estavam no parquinho e eu estava olhando de longe, sempre conferindo se os dois não tinham fugido de lá. Uma hora olhei rápido e vi meu filho carregando alguma coisa estranha e grande, mas não consegui entender o que era. Pedi pro moço ir até lá dar uma conferida, fiquei com preguiça de andar.

Dali a pouco volta uma criança gritando:

– Mamãe, eu não pulei, não pulei, não briga, não pulei. Juro que não pulei.

Vai vendo.

Isaac pegou um cesto de lixo enorme, algo como 1,5 vezes a altura dele, e colocou cuidadosamente ao lado do trepa-trepa. Subiu até o alto e de lá estava olhando pra baixo, ensaiando um pulo para dentro do cesto.

Isaac, você tem sorte por eu não ter visto a cena, porque só assim consigo rir dela. Se eu tivesse visto você em cima de um trepa-trepa se preparando para pular dentro de um cesto de lixo, eu teria te deixado de castigo dentro do cesto. Com a tampa fechada.

Peste. Onde fui ter filho tão encapetado, senhor?

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